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Xingu - O último refúgio da alma brasileira

Enviado em 26/08/2011 (1514 leituras)

“Hoje senti uma tristeza profunda, daquelas que te fazem sentir um vazio por dentro, um vazio na alma. Ouvi o choro das crianças misturadas aos prantos de pais e mães que, sutilmente, se fundiram ao meu, uma sinergia melancólica cheia de notas distorcidas e vagas, não há melodia na canção que ouço tão perto, não há beleza quando não se enxerga os peixes nadando, através das águas do Rio Xingu.

Esta tristeza me arrebatou de tal forma que pude sentir meu coração batendo mais fraco e mais fraco, na cadência silenciada pelas mãos de outrora irmãos, apenas irmãos nascidos da mesma pátria, criados no mesmo leito, mas não irmãos de alma.

Hoje, senti uma tristeza profunda, tão profunda que me calou o espírito, espírito este que não mais sabe diferenciar uma Árvore de um poste elétrico, um Rio de uma usina hidroelétrica... Triste ver como uma nação perde sua alma pelas mãos dos filhos e dos filhos de seus avôs e bisavôs... Triste saber que a máquina que corta, aterra e cala a vida ancestral, tem o mesmo D.N.A que o nosso”.


A construção da usina Belo Monte no Rio Xingu é a cicatriz que marca a pele ancestral de nosso solo materno, uma questão mesquinha e política que se sobressaiu de todos os outros atos anteriores, uma imposição do poder governamental, uma catástrofe ambiental sem precedentes que destruirá a subsistência de centenas de famílias de Índios, caboclos e ribeirinhos. Mas já se torna cansativo ouvir e falar sobre isso sempre, pois estas notícias não são novidade nenhuma para quem quer que seja e ainda assim, nos faz sentir tão impotentes perante a mão usurpadora dos governantes deste país, “os senhores desta Terra” que agora vestem ternos caros e usam sapatos importados, gravatas e máscaras “indóceis” após serem eleitos, dóceis em suas campanhas, escondendo seus próprios medos e os projetando nos “desprovidos, descalços e sem alma”.

Uma grande sombra que se manifesta na consciência coletiva da maioria das pessoas, a banalização faz de nós escravos desta política subjetiva e dominadora. Até quando? Acho que ninguém poderia responder com certeza, apenas com a esperança que teima em esvanecer.

Em 1500 os invasores nos viram como um povo sem alma, “desespiritualizados”, habitantes de uma Terra de ninguém, sem nome e sem credo, e seria nisto que as aldeias (reservas) indígenas, estão se tornando? As aldeias indígenas são nosso berço ancestral e cada etnia indígena com seus costumes e línguas, nosso cordão umbilical com a identidade negada.

Hoje, os invasores europeus “se foram”, mas nos ensinaram diretinho como usurpar, destruir e “conquistar”, uma herança genética distorcida. Quando a cruz foi fincada nas areias da praia, do que eles chamaram a princípio, da ilha de Vera Cruz, foi o sinal de violação da imaculada espiritualidade indígena brasileira, a imposição de uma doutrina que precisava ser imposta para "salvar a alma dos pobres coitados que não acreditavam em nada"; e a derrubada do Pau-Brasil para exportação, pelas próprias mãos dos Índios, o indício do que hoje vemos por toda parte.

No noticiário, uma apreensão de venda ilegal de madeira na Amazônia, como “vigia” desta depredação, nada menos do que um indígena. Um Índio ajudando a vender Árvores? O que aconteceu com os espíritos da Floresta? Como era a língua falada entre eles, Índio e esses espíritos? Pelo visto, se foram para sempre, pois as gerações anteriores não preservaram sua verdadeira tradição.

E se nossos irmãos Índios chegarem a extinção seremos definitivamente um povo sem alma, uma Terra de ninguém, onde “vagaremos” procurando por algo, que nunca saberemos o que foi e de onde veio. Seremos enfim, a imagem que os europeus tiveram quando aqui chegaram. Mas e antes de 1500? Como era a vida aqui? O que se cultuava? Quem caminhava por esta Terra?

Ninguém se quer pergunta mais sobre isso, perdeu-se o interesse pela ancestralidade indígena, nossas raízes. As Árvores sussurram nossas histórias ao vento e que se tornou “mudo” aos ouvidos de seus filhos, o poder de adaptação do ser humano, se tornou puro comodismo. E, assim, caminharemos sem a nossa alma, sem a nossa cultura.

Nossos monumentos arqueológicos eram feitos de sapé e taquara, portanto, perecível ao tempo, diferente das outras civilizações que entalhavam em pedras e construíam templos megalíticos, fazendo perdurar suas tradições.

Preservar sua história era algo valioso, pois se tinha a noção (intuição) de que algum dia não estaria mais ali para contar.

Seriam os Tupinambás diferentes das outras civilizações, como os Maias, os Incas, os Astecas, os Sumérios e os Babilônicos, conscientes que viveriam para contar sua história (como de fato viveram), por isso não se preocuparam em deixar seus rastros arqueológicos?

Eles sobreviveram sim, fisicamente ao menos, diferentes das outras civilizações citadas, estão aqui para contar sua história, mas a história está se esvaindo como a areia da ampulheta que marca, regressivamente, o tempo que ainda resta, pois nós (brancos, mestiços, mulatos, cafuzos) herdeiros desta invasão, tiramos deles esta história e os fizemos acreditar, em algo que não vinha de sua Natureza.

A invasão foi algo muito além dos livros de história que nos mostram nas escolas, para se ter uma ideia, de quão grande foi o estrago feito na essência indígena, basta sabermos que os jesuítas e missionários europeus praticavam o que era chamado de “exercícios espirituais” que aprendiam em seus treinamentos religiosos, uma técnica apurada que ficou conhecida também como “yoga ocidental” e consistia em uma série de práticas que degradavam a espiritualidade dos Índios, de modo a desestruturar, psicologicamente, sua personalidade. Os europeus, aproveitando-se assim de sua hospitalidade de certa forma ingênua (não ao que se refere as suas crenças ou modo de vida, mas por acreditar no inimigo e deixá-lo entrar em sua casa), para absorverem sua alma e depois execrá-la para o próprio Índio.

Para os invasores não era suficiente que se abandonasse as crenças e práticas, mas que os próprios “ex-praticantes” tivessem verdadeira aversão ao que foi praticado antes. Ainda há tanto a se explicar sobre o “descobrimento” de nossa Terra...

Mas não devo me prolongar neste ponto, só usei as práticas espirituais em uma visão superficial apenas para ilustrar o quão profundo foi a “desespiritualização” de nosso povo, para se fazer uma comparação em quanto ela ainda reflete em nossas atitudes e pensamentos. O assassino do Índio Galdino, incendiado vivo por um estudante há alguns anos atrás, já goza de liberdade plena e desenvolve, tranquilamente, seu trabalho no próprio governo. Temos um grave indício de uma situação como essa e de muitas outros crimes contra indígenas, até na sociedade em geral, a banalização.

Tornamo-nos tão insensíveis quanto os europeus foram em 1500 ou não?

Em tempos como os nossos, se faz necessário uma verdadeira reflexão, se não uma revolução de consciência para que se entenda que sem nossas raízes, morreremos como as Árvores e assim como elas, nos tornaremos um simples “monumento” que se mantém em pé, mas oco por dentro, uma mera sombra do que um dia existiu em essência.

Em nome e respeito aos ancestrais de nossa Terra, AWEN a todos /l\

Por Ëldrich Hazel Ybyrapytã
Caminhante que busca o despertar da consciência através da meditação e da compaixão.

Ëldrich, filho da Avelãzeira:
"Somos todos folhas da mesma Árvore"
E-mail:
eldrich@templodeavalon.com

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