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O Ofício Sagrado

Enviado em 13/04/2012 (1702 leituras)

Sacerdote é o responsável por um culto, em razão a um devotamento que exige um sacro ofício e sacrifício, assim como do “ócio”, para pensar, refletir e estudar suas funções perante as suas crenças e valores. O ofício de sacerdote em si teve suas mais diversas interpretações ao pé da letra, no decorrer do tempo, lugar e pensamento. Basicamente, na sociedade humana, há algumas fases relevantes para esse ser humano, seus poderes e entendimentos, suas idéias e idealizações, sua imagem e representação. De sábios a própria institualização da religião, no decorrer de uma trajetória de hierarquias. Considero hoje a passagem por um período de quebra da escadaria, das vaidades do sumo-sacerdote, do arquidruida.

Ofício do Conhecimento, Sacro-Ofício do Poder e Auto-Ofício de Si são para mim as três fases do sacerdócio que posso delimitar, além de seus períodos de transição.

Ofício do Conhecimento foi o que praticaram os sacerdotes clássicos. Ao falar de sacerdote, estou me encaminhando a um tempo onde os “mistérios e segredos” passaram a ser transmitidos a iniciados. O sacerdote clássico era um cientista por definição. Ao devotar-se a um aspecto divino, ele o estudava. A arte de estudar um aspecto divino não era simplesmente dedicar-se a orações diárias e criar vínculos de sabedoria com seus pupilos. Vai muito, além disso. O sacerdote clássico estudava os ofícios de um deus ou deusa. Ele procurava as informações e segredos em um deus, na sua essência, para ajudar em alguma função os homens. O deus não era representado por um sacerdote, mas os seus saberes e fazeres divinos. O sacerdote era como um portal.

Em suma, um sacerdote do deus ou deusa da medicina, procurava entender e compreender a fundo todos os aspectos de cura, envenenamento, herbalismo, divinação e artes cirúrgicas. Um sacerdote de um deus ou deusa da justiça, com certeza deveria entender os ofícios do magistrado, da moral e da ética. Logo, o sacerdote pagão clássico não era um representante do poder divino, porém um estudioso das artes e ciências “ocultas” do deus que dedicava suas orações e afeição. Além de mestre de seus pupilos, o sacerdote era um aluno dos deuses. Por isso, muitas vezes, seus estudos ficavam trancafiados em templos, bibliotecas e castelos (ou mitos, que passavam de geração em geração), para que somente iniciados, ou seja, estudiosos de um aspecto divino, pudessem adentrar e compreender melhor os conceitos desse mesmo semblante. O sacerdote tinha no período clássico um Ofício do Conhecimento, ele é o mediador e mentor deste entendimento sagrado.

O Sacro-Ofício do Poder passou a se manifestar no medievo. A institucionalização da religião e estabelecimento de seu clero, fez com que os seus pudessem, decisivamente, se imbricar nas mais diversas roldanas da sociedade desse período, obtendo grande sucesso. Através dos monastérios, condensou-se o templo, biblioteca e castelo. Eles, os monges, passaram a deter do conhecimento. Porém, diferentemente dos sacerdotes anteriores, o sacerdócio passou a ser interpretado como um “vigia do conhecimento”. Afinal, eles instauraram um novo domínio, e tomaram para si o poder supremo desse novo sistema.

Nasce o sacerdote que representa o aspecto divino. Veja como a idéia, imagem e representação mudaram. Ao representar um deus, o sacerdote passa ter a responsabilidade de possuir o poder desse deus, seja qual for para transpassar seus ensinamentos e até mesmo suprimir aqueles que são contrários. Além disso, o sacerdote passa a entender-se como um iniciado deste poder, se intitulando um ser sub-supremo. Ele se torna um “deus militante vivo”, tendo autoridade para subjugar reis, senhores, servos e escravos. O sacerdote se auto-coroa o religado ao celeste sagrado, que não pode ser acessado pelos vivos. Somente ele tem o poder de compreender seu deus e todos devem vir a ele para se “salvar”. O sacerdote se fundamenta no domínio através da força de seus atos, criando hierarquias diversas, para se chegar a um posto supremo de representação divina. Ele não estuda mais os ofícios de seu deus, ou faz poucos estudos, mas deseja obter o conhecimento que há por traz do poder que o deus deve exercer para coagir os “impuros”. Ao compreender as façanhas de seu deus, esse sacerdote tinha que deter de todos os ofícios para somente ele praticar.

Entendamos que enquanto o sacerdote cristão medieval representa a massante e massacrante presença do poder divino de seu deus patrono, longínquo e celeste, o sacerdote pagão clássico estuda com critério as artes, ciências e essências de seus deuses professores, próximos e terrenos. Sendo que os questionamentos modernos e contemporâneos mesclam os dois e se fundamentam numa razão fanática das coisas. Os deuses secretos se tornaram um deus temerário, que se resumiu a razão que deseja uma “verdade absoluta”, para combater as “mentiras recíprocas”. Ou seja, a ciência devotada pelos sacerdotes clássicos, se mescla a idéia de poder do monge medieval, criando a “deusa razão” como a única que pode responder os mistérios do universo.

Ainda bem que o conceito de “verdade” vem sendo discutido de forma que se cria uma réplica gritada contra o que a razão vem proporcionando ao homem: somente uma visão das coisas, que deve ser encarada como certa. Eis os nossos tempos de transição.

Por fim, um breve discorrer da grande fase sacerdotal que se está iniciando no mundo: o Auto-Ofício de Si. Estamos em um período que não nos completa mais o sacerdote dos “enigmas ocultos”, disponíveis para alguns pupilos de deuses, preparados para estudar nos templos, muito menos os sacerdotes que praticam o poder hierárquico de sua repressão infinita do divino que pregam. Não estamos tão confortáveis quanto a razão. É momento de uma nova transição secular de idéias, imagens e representações do sacerdócio. Adentrando na fase do Auto-Ofício de Si, onde o sacerdote é o indivíduo comum, não é um iniciado, nem um homem do clero. O novo sacerdote sente e vivencia o seu conhecimento, é guardião e professor de si mesmo. Sua fé está em si próprio e suas orações são a dedicação a meditação diária.

O novo sacerdote não necessita das hierarquias, ou quer ser contra sua estrutura, principalmente as escadarias de grandes templos e torres de grandes catedrais. E quando esses templos e vestimentas aparecem para ele, o mesmo lembra que o seu corpo, mente e alma são a expressão do divino, e não as rotulagens. Logo todo indivíduo é a representação da múltipla divindade, tentando compreender os seus mistérios para construir o seu “reino sagrado interior”. Mas como estamos em um momento de transição, ainda estão presentes as antigas e retrógradas versões do sacerdócio e vão fazer de todas as manhas suas vaidades para sobreviver. Mesmo assim, o Auto-Ofício de Si está cada vez mais forte, seja em qual conjunto de valores, crenças e idéias. Repito: eis a crise em nosso mundo.

No tempo, tudo que não torna a alma humana repleta de si, torna-se um veneno. O Auto-Ofício de Si representa os aspectos divinos que secretam conhecimento de si próprios, tem um poder essencial a ser guardado por si e vivem em nós mesmos. De crenças locais, se instituiu religiões poderosas. O nosso tempo e templo são da espiritualidade. Assumir esse novo âmago é nosso desafio.

Posso não delimitar bem o “novo sacerdote”, pois estamos em um período de transição, mas creio que o sacerdote do Auto-Ofício de Si é o responsável por um culto do animus de si mesmo, em razão a um devotamento que exige um sacro ofício e sacrifício de si próprio, assim como necessita do “ócio”, que é o momento de meditação, no intuito de refletir e estudar suas funções perante as suas crenças e valores do próprio ser em si, representado por ele mesmo e sua plural singular divindade interior original, presente na terra e no universo.

Posso estar equivocado, mas questiono-me: Onde os druidas estão? Onde os druidas querem ficar? Qual é o druida que vive dentro de nós: Oficial do Conhecimento, Sacro-Oficial do Poder e Auto-Oficial de Si?

Algo está estabelecido na pergunta e esta nada mais é que uma só palavra: crise. Momento de transe, digno para a reflexão e aprendizagem. Tensão quer mostrar e criar medos, por causa do sentimento de culpa e perigo. Se algo a natureza vem me ensinando há algum tempo é que devemos assumir que o auge é irmão do declínio.

O grito é o sinal de que o doente deseja a cura para sua dor. É mais um processo, que necessita de decisões de busca penosa. Por um lado positivo, podemos ter uma crise de riso, necessária para nosso entusiasmo e ânimo. Contudo a crise está nestes questionamentos e tem seu valor sagrado!

/|\ Awen

Druida do Vento
Eu sou um jovem druida, andarilho de um velho caminho, que vive em um vale, entre os bosques retorcidos e pântanos mágicos. Escrevo o que é despertado pela Awen.

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