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Abrir uma Caixa

Enviado em 30/06/2012 (1336 leituras)

Uma criança chegou a sua casa após a escola, entrou em seu quarto e viu um pacote em cima de sua cama. Não era seu aniversário, nenhuma data comemorativa, nem algum dia especial do ano. Estava feliz. Antes de desejar abrir, em silêncio, começou a se questionar. Por que estaria ali? Quem havia colocado? O que será que há dentro? Sua curiosidade lhe concedeu grandes ansiedades. Uma angústia interior fez a criança andar de um lado para o outro. Tinha certo medo de abrir aquele pacote e se surpreender. Mas e se não abrisse? Ficou moendo as perguntas. Olhava de canto a caixa e ficava quieta.

Decidiu se distrair com outra coisa. Tomou para si um velho brinquedo e começou a se divertir. Algo a angustiava. Alguma coisa dentro de si dizia que deveria abrir aquela caixa, pois lá havia uma brincadeira muito melhor. A criança hesitava em ouvir. Forçosamente continuou o seu passatempo. De jeito nenhum deveria olhar para a caixa. Começou a ficar nervosa e acabou deixando o que estava fazendo. Sua atenção já não estava em total caos. Mexeu em seu guarda roupas, procurou por algo debaixo da cama, abriu as gavetas da cômoda, subiu em cima da cadeira, pulou e levou um grande tombo por causa do tapete escorregadio.

Mãe e pai fora, choro nenhum seria escutado. Segurou as lágrimas e esperou a dor da nuca passar. Dor aguda! Ali, no chão, sentada em sua solidão e dor, desviou seu olhar para a caixa. Irritou-se e disse com todas as palavras: “Você é a culpa de tudo isso!”. A caixa permaneceu lá, sem nenhum movimento ou resposta. Gritou em vão aquela criança. “Por que eu falei com essa caixa?”. Começou a chorar. Que tristeza por causa de um pacote embrulhado em cima daquela cama. No momento do choro, fez de seu quarto uma bagunça. Chutou os brinquedos e até a quina da escrivaninha. Que dor!

Depois de ver o estrago que fez com seu próprio recinto de dormir e com o seu corpo, levando aquele grande tombo e batendo seu dedo mindinho da quina da escrivaninha, escolheu ficar quieto. Secou as lágrimas e massageou as suas dores. Fechou os olhos e pareceu ainda desejar teimar em permanecer firme e frio. Então, as perguntas voltaram. Por que aquela caixa estava ali? Quem a colocou em cima da cama? O que será que há dentro dela? E uma nova pergunta saiu esganiçada: O que me causa essa falta de ação?

Levantou-se. Tirou o tapete do caminho para não escorregar. Mancou com o pé machucado. Olhou para a escrivaninha. Voltou sua atenção para a caixa. Percebeu que sempre sua graciosidade esteve ali, naquele pacote embrulhado. Por estar fora de si, em plena confusão, fez o que deveria para se chegar até ali. Agora estava de frente para a caixa. Só ela, a caixa e sua curiosidade. Levou sua mão até o embrulho tentou pesar, analisar e chacoalhar. Nada.

Entre seus rancores e desafetos escolheu se entregar pela voz interior que dizia que devia ser aberto o selo. Respirou fundo e começou a rasgar o papel colorido que envolvia a caixa. Levou a mesma para o centro do quarto. Agora nua, os adesivos que a lacravam se mostraram. A criança olhou. Pensou: “Veja o quanto os rancores e desafetos nos envolvem e trazem-nos uma aparência agradável para os outros, mas não para nós”.

Ainda havia os lacres. Foi até seu estojo e pegou a tesoura. Começou a cortar com ambição. Estava próximo. Entretanto, a cola do adesivo, que era forte, estava grudando na tesoura e dificultava o processo. Com cobiça e orgulho, a criança começou a se estressar. Furou a caixa. Queria rasgá-la como fez com o embrulho. Que lástima, sua força não podia fazer isso! Mas ela jurava para si que podia, até cair. “Caixa ridícula!”, exclamou. A tesoura tinha ido longe. Foi buscar e ficou em silêncio. Com calma e paciência, voltou a cortar os lacres. A pressa não havia ajudado em nada. O que deveria ansiar se já estava tão perto?

“Consegui!”, um grito. Percebera que a paciência e o cuidado trazem mais resultados que o desespero e a negligência. Sentou-se no chão, de frente a caixa. Respirou. E as questões vieram de novo. Por que essa caixa? Quem é o mandatário? O que há dentro? Uma das questões havia sido respondida. A criança tinha atuado no desvendar da caixa, não estava mais a ignorando. “Vamos abrir.”, disse para si. Segurou a tampa e a retirou calmamente. Como era uma caixa grande, olhou na ponta dos pés.

Que surpresa! Não tinha nada. Mesmo injuriada, curiosamente a criança colocou a cadeira perto da caixa. Subiu com cautela para não se lembrar do chão e pulou dentro da caixa. Lá dentro viu que havia algo escrito. Agachou-se e leu.

“Eu sou a sua vida. Foi necessário, acredite!”.

Depois de um relapso no tempo, aconteceu um momento mágico. A criança viu tudo aquilo desaparecer. A caixa, os lacres, o embrulho. Abriu os olhos. Estava de frente com o pacote de verdade. Seu quarto estava em ordem, nenhuma dor, nenhuma angústia. Tinha acabado de chegar em casa, adentrado em seu quarto e prestado atenção em um pacote. Tinha sentado em seu tapete e se perguntou tanto, que dormiu. Rindo de tudo aquilo, tratou de abrir logo o embrulho. Crianças podem sentir ansiedade, mas não demoram a abrir um presente ganho. Dentro do pacote havia um par de botas, um livro sobre árvores e um bilhete.

No bilhete estava escrito:

“Meu pequeno druida e neto, nós lhes enviamos esses presentes, um par de botas e um livro sobre árvores, para explorar o mundo. São objetos simples, mas que farão a diferença em sua jornada pelos matos por ai. No livro conhecerá cada uma de suas almas amigas e com as botas andarás em respeito e segurança pela floresta. Sempre soubemos que esse era o seu destino. Será necessário, confie! - Assinado: sua Vovó e seu Vovô.”

A criança druida entendeu.

Ignoramos a nós mesmos por conta das aparências e impaciências. Então, tomamos para nós outras atenções, cobiças irreais. Nós, as crianças. Dizem por ai que somos colocados dentro de caixas. No entanto, passei a acreditar no inverso. Não estamos dentro da caixa, estamos fora. Mesmo assim, nós queremos fugir dela. Desejamos tirar nosso centro e espalharmos nossa prudência para as distrações. Machucamos a nós mesmos com tombos e chutes. Torturamos nossas mentes com perguntas e angústias. E quando escolhemos abrir a caixa, percebemos que era nossa vida chamando. Uma bota e um livro. Uma segurança e esperança. Do que adianta se perguntar tanto se não se age para desfazer as curiosidades? Não se deixe levar pelo esquecimento de si. Podemos até encontrar experiências fora de nossas vidas, mas não acharemos jamais a felicidade.

Lembre-se, a caixa é um presente. Ela é o presente. O tempo presente. Você o desconhece, mas parece que sabe quem ele é. Pois o cumpra. Fora, encontrará o conhecimento do sofrimento. Dentro, achará a sabedoria da felicidade. Não obstante, tudo é experiência. Você tem o poder da decisão. O presente não sairá voando, mas o tempo pode passar rápido.

Abra a sua mente, corpo e alma e escolha entre a vida ou a sua vida. Acreditar é essencial!

/|\ Awen

Druida do Vento
Eu sou um jovem druida, andarilho de um velho caminho, que vive em um vale, entre os bosques retorcidos e pântanos mágicos. Escrevo o que é despertado pela Awen.

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