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Terena e seus conhecimentos - Parte 1

Enviado em 26/11/2012 (2875 leituras)

Introdução

Ao me deparar a assuntos atuais quanto ao indígena brasileiro, o estudo do Neo-Druidismo, Espiritualidades Célticas, Ecoespiritualidade e Neo-Paganismo, percebi um tema a ser abordado. Em suma, pensei a ancestralidade da terra sob nossos pés. Mesmo com rosto de "purutuyé" (como os Terena chamam a sociedade nacional), tenho no histórico familiar ancestrais de sangue Terena, e por viver aqui, também são meus ancestrais locais. Deixo aqui, assim como o faço em meio acadêmico e concretizei no III Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta, um pouco do conhecimento desse povo.

Antes de apresentar, disse no evento e repito em palavra escrita, que nós, praticantes do druidismo e espiritualidade celta, somos um movimento de reivindicação e resistência em solo brasileiro, por isso creio eu que a questão indígena é uma forma de espelho sagrado para nós. Tenho observado certas práticas de neo-xamanismo que pouco valorizam o que existe em nosso país. Os neo-pagãos, tem por normal cultuar deuses estrangeiros, inclusive os indígenas. É mais fácil perceber uma história tradicional indígena norte-americana do que brasileira nas conversas e vivências pagãs. Não que elas não sejam válidas (pois o são), porém muitas vezes desfocam o trabalho com a ancestralidade local. Felicitei-me muito ao ver trabalhos comprometidos no III EBDRC quanto a questão do neo-xamanismo.

Por outro lado, quando a cultura indígena de nossa terra é lembrada, por vezes, se dá maior atenção as regiões Norte e Nordeste, sendo criada uma consciência de desuso ou vazio demográfico indígena nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Este último, por consequências históricas, parece formar um complexo de transição, ora uma identidade pecuário-urbana, ora uma identidade indígena-rural. Entretanto, para quem consegue ver além das serras e sertões, esta é uma visão estereotipada que revela as relações do poder aristocrático formador da consciência neste país, sendo as minorias desqualificadas e desconsideradas. É a típica classificação de sermos um país “pobre selvagem” ali e um estado “rico civilizado” acolá.

Por isso é necessário que o paganismo conheça os ancestrais de sua terra. Esta idéia, felizmente está presente em nossos grupos e discussões, contraditório a uma sociedade que ainda hoje ignora as comunidades étnicas; por isso falo por nós, que devemos nos apropriar de nossa colorida e plural cultura. Creio que já ficou claro que os Terena são uma das centenas de etnias indígenas brasileiras. Mas é bem claro a nossa falta de conhecimento (inclusive a minha), quanto as culturas tradicionais. Como exemplo, sabemos das influências tupi-guarani em nossa língua, contudo tão pouco entendemos seus significados etimológicos e históricos.

Penso um druida como um estudioso e esta imagem me faz pensar que nós podemos agregar outros conhecimentos aos “nossos”. Entendo que além de explorar o bosque de carvalho, às vezes, o bosque de ipê, angico, aroeira e buriti podem ser lugares interessantes. Por isso aceitei o desafio, o chamado dos meus ancestrais.

Tenho observado muitos praticantes da espiritualidade celta que se engajam em movimentos ambientalistas, de afirmação e cidadania (ou seja, são pessoas do seu tempo), e devemos nos arvorar a entender mais todos esses movimentos (Indígena, Feminista, LGBT, Afirmação Afro, outros).

Para minha pessoa isso soa de extrema importância para o “reconstruir”, para o movimento druídico que iniciei nesta fala.


Este artigo serve como uma extensão da conversa que tivemos no III EBDRC, para além de enriquecer a leitura, informar sobre um povo ancestral e vivo. Deixo claro que é uma pesquisa e que tem muito a acrescentar. No fim dele haverá um espaço para algumas referências e sites. Boa leitura!

Uma História Terena

Mato Grosso do Sul é o Estado brasileiro com a segunda maior população indígena do país e a que mais cresce em proporção, segundo o IBGE. Possuí, além da etnia Terena, as etnias Kadiwéu, Ofaié, Guarani e Guató. Os Kayapó Meridionais e os Payaguás também fizeram parte de sua história, mas não estão mais presentes no território do estado atualmente. Também é considerado um dos estados que abriga uma das mais ricas culturas ceramistas do Brasil, a Kadiwéu e a Terena, ficando atrás somente da Marajoara, no Pará.

Com uma população representada com mais de 18.000 indivíduos, falantes da língua Terena, da família Aruak, os Terena hoje estão presentes principalmente no estado de Mato Grosso do Sul, nos municípios de Miranda, Aquidauana, Anastácio, Dois Irmãos do Buriti, Sidrolândia, Nioaque, Rochedo, Porto Murtinho e Dourados. Levados pelo SPI na década de 1950 para São Paulo, também estão presentes na reserva indígena de Araribá, no município de Avaí. São os últimos descendentes contemporâneos da nação Chané-Guaná no Brasil, formados pelos subgrupos Terena, Kinikinau, Echoaladi e Layana.

Originários do Chaco paraguaio, os Chané-Guaná eram povos caçador-coletores, com base econômica agrícola e guerreiro-expansionista. Estavam organizados em duas estratificações sociais principais: os nobres (Naati) e os guerreiros (Wehêrê-xanê). Mantinham uma relação de “vassalagem”, trocando alimentos, metais e mulheres com seus vizinhos Mbayá. Com a pressão da colonização espanhola sobre os territórios ao oeste do Rio Paraguai, em 1760 os Mbayá e Chané-Guaná se viram na necessidade de migrar para o lado oriental, episódio que os Terena hoje denominam de Eêxuwa. Tanto a etnia Mbayá, quanto Chané-Guaná mantiveram suas tradições, até a chegada das expedições luso-bandeirantes.

O contato com os espanhóis deu uma habilidade nova aos Mbayá: a criação de cavalos. Conhecidos como “índios cavaleiros”, os Guaikuru (guerreiros) eram temidos por espanhóis, paulistas bandeirantes e demais etnias locais. Formaram a maior resistência indígena no Brasil entre o século XVII e XVIII, sendo um muro protetor entre a tradição cultural indígena Chané-Guaná e luso-brasileira.

Sem o poder militar equestre dos senhores e guerreiros Mbayá-Guaikuru, os portugueses e paulistas avançaram com suas fortificações. Os Chané-Guaná passam a ter uma maior influência purutuyé, principalmente reforçada pelos interesses da Coroa Portuguesa em uma aliança, para manter os territórios sobre sua posse. A etnia Chané-Guaná por ter na sua raiz a característica agrícola e comercial manteve relações de troca de produtos com os luso-brasileiros, além do contato com o movimento jesuítico. Esse período é denominado Kúxoti Káxe (Tempos Antigos).

A autonomia Chané-Guaná sustentou-se até a Guerra do Paraguai, que teve início em 1864. Os Terena, aliados da Tríplice Aliança e do Império do Brasil, sofreram com a ofensiva Paraguaia, dispersando-se de suas terras originais. Após o fim da guerra, as terras da antiga província de Mato Grosso foram entregues aos oficiais do exército imperial e comerciantes, que mais tarde se tornaram os coronéis locais. Ao voltar para suas antigas terras se depararam com uma nova organização social, um cenário de colonização e estabelecimento da pecuária. Surge o aldeamento, o período do Kauti (Tempo da Servidão).

Com a proclamação da República em 1889 e a construção da ferrovia Noroeste do Brasil uma grande leva de não-índios partiu para a região do Centro-Oeste brasileiro. A criação do SPI (Serviço de Proteção ao Índio) e a instalação de postos, além de uma imposição ideológica, instaurou a perda total da autonomia política indígena, sendo os Terena agora orientados por capitães não-índios. Na posterioridade, o chefe de posto nomeado pela FUNAI herdaria as mesmas prerrogativas de poder.

Com a instalação de usinas de álcool, a partir do início do século XX, além das empreitadas tradicionais feitas nas fazendas, os Terena passam a trabalhar temporariamente na colheita da cana-de-açúcar, o que é chamado de changa. Na década de 1970 também ocorreu uma “revolução verde” no universo das reservas Terena: a mecanização rural, a implantação de outras culturas. De maioria católica e mantenedores do xamanismo, sofrem muitas vezes problemas religiosos e sociais por causa da entrada de igrejas protestantes nas aldeias. A superpopulação nas reservas aumentou consideravelmente a partida para o meio urbano.

Tradicionalmente, os Terena já produziam feijão, abóbora, milho e mandioca, além da criação de gado vacum e cavalar. Hoje produzem também arroz e café, além da criação de galinhas, porcos e continuam o costume da pesca. A caça é praticada clandestinamente, em menor escala. Trabalham nos mais diversos setores urbanos.

Hoje, os Terena estão organizados em aldeias, rurais ou urbanas. Em Campo Grande, além da famosa Aldeia Urbana, se encontra o artesanato para ser vendido na Casa do Artesão e suas especiarias ao lado do Mercado Municipal. Miranda tem um expressivo número de mulheres ceramistas. É comum em Aquidauana e Anastácio encontrar os Terena nos mais diversos lugares, inclusive em meio acadêmico. Os Terena estão se formando em diversos cursos acadêmicos e reivindicando seus direitos através de discussões saudáveis com a sociedade nacional. Suas apresentações culturais são tidas como patrimônio de Mato Grosso do Sul. Eles chamam o agora de “Tempo do Despertar”.

Expressões Culturais e Sociedade

A cerâmica é um das colunas que sustentam a cultura Terena. Produzida exclusivamente pelas mulheres da aldeia, são hoje comercializadas como decoração ou suvenir. Contudo, por trás de modelar um vaso e pintá-lo com motivos florais, há muitos rituais e histórias. Os desenhos, normalmente representando flores e folhagens, são passadas de geração em geração. Ou seja, é um elo de comunicação com as ancestrais femininas da aldeia, uma forma de linguagem com o passado. Há também cerâmicas em forma de animais.

No passado, essas cerâmicas eram usadas como panelas, recipientes de água e cereais. São produzidos com barro fresco, argila e um mineral branco (para a tinta). Além de belamente decoradas, quando molhamos a cerâmica, ela exala um perfume muito agradável da terra. As mulheres não podem produzir cerâmica na época de Lua Nova e nem quando estão menstruadas. Nestes períodos se fazem rituais de proteção e limpeza. Outro tabu é abdicar o sal dos alimentos. Se essas regras são desobedecidas, acredita-se que a cerâmica se faz com má qualidade.

Os Terena são uma sociedade pratiarcal e matrifocal. Na pirâmide social temos nessa ordem a estratificação social: Naati (famílias nobres), Wahêrê Xané (guerreiros e homens livres) e Kauti (escravos ou trabalhadores). A sociedade Terena também é divida de forma cerimonial em duas metades sociais que se complementam, provenientes do mito da antropogênese. Os Xumonó são os considerados bravos, gozadores, enquanto os Sukirikionó são os mansos, sérios. Os dois tipos de divisões (Social e Cerimonial) se dão a partir da patrilinearidade. A Aldeia possui dois líderes (Unati-Chané), um Xumonó e outro Sukirikionó. Para aconselhar os Unati, também é necessário o conselho dos mais velhos.

A divisão ritualística-cerimonial está presente nas danças feminina (Siputrena ou Putu-Putu) e masculina (Kohixoti Kipaé ou Dança da Ema). Os gestos da Siputrena são leves e delicados, porém seus significados mantidos em segredo. Na Dança da Ema, os Xumonó são pintados de vermelho, enquanto que os Sukirikionó de verde. Essa dança, segundo relatos, veio da visão de um xamã, após a Guerra do Paraguai. Os Terena dizem que dançam para comemorar momentos felizes. As roupagens tradicionais da dança são confeccionadas com a pena da Ema. A música provem do bumbo (tambor) e pife (instrumento de sopro). Os indígenas batem varas de bambu, que produzem um som harmonioso e cadenciado. No final da dança, elevam ao alto alguém com grande prestígio.

Os Terena também possuíam a prática da cestaria e tecelagem. A tecelagem proveio da sua elaborada cultura vestuária e confecção de redes, ainda feitas por algumas mulheres. A cestaria é produzida a partir das folhagens da palmeira Buriti, para abanicos, chapéus, adornos, saias, redes, divisores de ambientes, esteiras, entre outros.

A colheita de mel era muito importante para o casamento, feita pelas famílias dos noivos. Além disso, o mel era ingrediente indispensável de bebidas sagradas. Na culinária havia caldos, espécies de bolos de mandioca, o famoso Beiju, batata-doce assada servida com mel. A função da coleta de frutos, como cajú, guavira e bocaíuva era função feminina, enquanto que os homens caçavam e pescavam. Diz-se que as mulheres faziam a colheita, enquanto que os homens plantavam.

Leia também: Terena e seus conhecimentos - Parte 2

/|\ Awen

Druida do Vento
Eu sou um jovem druida, andarilho de um velho caminho, que vive em um vale, entre os bosques retorcidos e pântanos mágicos. Escrevo o que é despertado pela Awen.

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