Céad mille fáilte!

CONSULTA DO ORÁCULO

Pesquisa
Menu Principal
LIVRO

BRUMAS DO TEMPO
Poesias, pensamento e ritos druídicos - livro na versão impresso ou e-book.

Vendas: clique aqui.
Links

Agradecimentos:
Aon Celtic Art
Licença Creative Commons


Um ensaio sobre o sacrifício

Enviado em 16/04/2013 (1282 leituras)

"Hoje em dia, pode ser impressão minha, mas parece que certo tabu foi instaurado sobre o termo sacrifício e magia, de modo que se generalizou a ideia equivocada de que sacrifício são atos involuídos, próprios de religiões de baixa vibração, “baixa magia” e que pagãos que seguem um caminho europeu não sacrificam. Assusta-me essa ideia. Já ouvi também que os próprios Deuses evoluíram, não exigindo mais de nós sacrifícios. Metaforicamente, uma maçã no altar resolve tudo... As palavras do artigo a seguir podem esclarecer alguns pontos sobre o significado de sacrifício." - Luciana Cavalcanti.

Um ensaio sobre o sacrifício por Erynn Rowan Laurie ©1997

Uma das funções principais do sacrifício é renovar o Cosmos. Na mitologia nórdica, nós temos, se me lembro corretamente, um gigante chamado Ymir, que foi morto e cujo corpo originou o cosmos. Mito que encontra paralelo na cosmologia hindu, onde o sacrifício feito pelos brahmans fez renascer um ser cósmico, divino, cujo corpo criou o Cosmos. Ainda que não tenhamos uma criação mitológica céltica preservada na literatura escrita ou oral, presumo que sua cosmologia seguiria esse mesmo padrão.

Se para acontecer a criação requer morte e desmembramento, então pode se dizer na sequência que só o sacrifício de algo vivo acarretará no sacrifício cosmológico. Não significa que sacrifício monetário e de outros tipos não possam ser feitos em outras circunstâncias. Obviamente esses métodos foram usados e, pelo que podemos observar em outros povos, continuam sendo usados, ainda que mais no contexto de um presente aos Deuses que de uma renovação cósmica. Mas diz que esse tipo de presente sacrificial estabelece uma relação mútua entre os Deuses e a comunidade humana, que requer um presente recíproco dos Deuses como abundância, proteção ou outras coisas necessárias para a sobrevivência. Mas, como havia dito anteriormente, esse tipo de troca não faz a renovação do cosmos na essência teológica. Eles apenas renovam os laços sociais.

Alguns antropólogos e historiadores têm especulado que sacrifícios de animais são uma sequência dos sacrifícios humanos como veículo de inovação cósmica. Sabemos que os celtas sacrificavam prisioneiros de guerra e, ocasionalmente, outros humanos em rituais. Então, eles não deixaram uma "fase" de sacrifícios humanos. Creio que, nesse caso, nós podemos estar olhando para o que era presenteado aos Deuses ou a troca da vida pela vida no campo de batalha (no caso dos prisioneiros de guerra).

Hipoteticamente falando, os guerreiros da "nossa tribo" eram bem sucedidos e poucos eram mortos, mas a guerra é uma arena de morte e certa baixa é esperada ou, talvez, solenemente prometida como parte da celebração da vitória. Então, os prisioneiros da "tribo deles" são sacrificados em nome dos "nossos" guerreiros ou como presente à deidade dos guerreiros. Outros humanos sacrificados talvez servissem como mensageiros para os Deuses, portadores de certas informações e requerimentos que talvez não pudessem ser confiadas a meios menos importantes. Em determinado ponto, o sacrifício animal foi aparentemente substituto do sacrifício humano nas cerimônias de renovação cósmica, assim como em outros tipos de sacrifício e parece ser esse o precedente para consideráveis mudanças nesse tipo de ritual. Nós não estamos, contudo, procurando por "uma desculpa para parar de sacrificar" pelo contrário, procuramos por uma maneira teologicamente válida de transformar o sacrifício [em algo viável hoje em dia] sem perder seu foco ou impacto, como fora feito um dia na transição do humano para o animal. Acredito que possamos indicar um substituto teologicamente válido para o corpo e a alma animal.

Sabemos, através da história de Miach e Airmid, do relato de Alexei Kondratiev sobre herbalismo bretão, que ervas são associadas a diferentes partes do corpo - uma erva para cada junta e tendão, como ele é. Podemos dizer que o corpo pode ser criado, construído de ervas. Blodwedd é um exemplo de ser humano magicamente criado de nove tipos de ervas. Também sabemos dos textos medicinais medievais galeses e da tradição irlandesa em que o corpo humano é relacionado aos cosmos, no pensamento Celta. Os olhos são as estrelas, o sol o rosto, a respiração o vento, as pedras são os ossos, a água é o sangue, o solo é a carne, etc. Sugiro que através dessas associações, um "humano" poderia ser criado com certas plantas ritualísticas para servir como veículo para a renovação cósmica. A morte e o desmembramento do corpo herbal serviria como representação da força viva e fonte da criação cósmica.

O sacrifício de plantas não deve ser invalidado como sacrifício de eficácia espiritual. As plantas possuem espíritos conscientemente perceptivos tanto quanto humanos ou animais. De fato, poderia argumentar que no sentido biológico, as plantas são mais importantes que humanos ou animais, pois sem as plantas, a energia do sol não seria transformada em comida e nenhuma vida existiria. Plantas podem existir sem nós, mas a vida animal não pode ser independente da vida delas.

A força vital de uma planta pode, ainda, ser considerada tão pura e aceitável quanto a vida de uma vaca ou ser humano. Desse ponto de vista, pode até ser considerável mais aceitável, mais puro, no sentido de que as plantas estão mais próximas da força primária de energia solar que nós.

As dúvidas aparecem... Que plantas seriam apropriadas ao sacrifício? Quantas delas e o que simbolizam? Existem muitas maneiras de responder essas questões. Uma delas é observar a lista de nove ervas das quais Blodwedd foi feita. Nove, obviamente, é um número primário e ritualisticamente significante entre os povos Celtas. É o número de plenitude e compleição. Acredito que, independente de que critério que usemos para estabelecer uma lista de plantas apropriadas, elas devem ser nove. Um critério que podemos seguir para determinar que plantas usaremos, pode ser o de observar sua função, por exemplo: plantas usadas para comer, para medicamentos, como fibras, como combustível e por suas propriedades de alteração da mente. Podemos observar o conhecimento herbal dos povos Celtas e escolher plantas dessas categorias que também representem várias partes do corpo. Plantas usadas como endógenas me parecem apropriadas para simbolizar a alma do ser cósmico, por exemplo, ou para simbolizar a cabeça, que é o lugar da alma e a cúpula dos céus. Plantas comestíveis podem simbolizar a carne. Plantas medicinais podem servir como diferentes partes do corpo, do mesmo modo que servem para tratar diferentes sistemas e órgãos.

Para esse tipo de sacrifício, acredito que as plantas devem estar frescas. A força vital ainda deve estar nelas para que o sacrifício seja útil ou válido. Simplesmente comprar ervas e raízes secas não proporciona a mesma energia. Não será um sacrifício de vida e de espírito se o espírito e o poder do verde vivo estiver extinto há seis meses atrás. A ausência do espírito poderia invalidar o sacrifício, no sentido de nos conectar com a necessidade de uma morte imediata e sentida, na preparação da criação cósmica. Há um pequeno impacto emocional em queimar a folhagem seca, enquanto a queima da plantas novas recém colhidas nos conecta com a morte do ser verde. O fluido vital continua percorrendo-os, preferencialmente tendo a colheita sida feita de maneira ritualística, não mais que um dia antes do sacrifício. Como no sacrifício cosmológico, as plantas usadas devem ser imaculadas, para que o mundo renovado, seja igualmente perfeito, em corpo e potencial.

Ainda que o costume celta faça da associação das plantas com partes do corpo humano um conhecimento essencial, acredito que nós também devamos considerar as implicações de sacrificar plantas não nativas, além de ser difícil conseguir plantas não nativas frescas, que plantas locais carregam o mesmo simbolismo das plantas ritualísticas da Europa Celta?

Como celtas modernos espalhados por todo o globo e nascidos de diferentes etnias, acredito que devemos renovar o "cosmos local", usando as plantas naturais do lugar para o sacrifício. Isso requer uma cuidadosa observação das plantas locais e desenvolvimento de relação com os espíritos naturais para que possamos entender como eles estabeleceriam correspondência com o corpo humano. A criação de Blodwedd poderia ser muito diferente se ela tivesse sido criada em Minnesota ao invés de Gales, como também em Sydney ou Vladivostok. Se nossa espiritualidade inclui uma profunda e verdadeira conexão com a terra em que vivemos, nós devemos considerar essas questões e desenvolver uma teologia do lugar onde estamos. A essência da terra em que vivemos deve nos penetrar física e espiritualmente, devemos nos conectar aos espíritos do lugar.

Alguns rituais precisam ser organizados para colhermos as nove plantas unidas como se fossem um ser vivo, completo no sentido de corpo cósmico e divino.

Devemos transformá-las de um grupo de plantas separadas, no divino corpo do sacrifício, para unificar seus espíritos em uma alma perfeita. Isso, obviamente, não é necessário no caso de animais ou humanos, porque eles já são uma singular e discreta força vital (em um corpo).O feitiço que criou Blodwedd deve ser recitado como ele é. Nesse momento, o sacrifício pode prosseguir como um ritual de morte e desmembramento, com a queima das plantas para libertar o “espírito do corpo” na intenção da renovação cósmica.

A próxima questão é: quem lida com esse tipo de sacrifício?

Na sociedade celta, druidas alegavam terem criado o universo e com essa forma de sacrifício poderia ser dito que eles realmente o fizeram. Os druidas agiam como sacerdotes sacrificadores de acordo com gregos e romanos que encontraram os gauleses e foram capazes de excomungar pessoas do sacrifício, se eles violassem as leis da tuath (tribo).

Dentre os Hindus, foram os brahmans que realizaram os sacrifícios. É o sacrifício cósmico algo que realmente pode ser realizado em de modo igualitário, com qualquer celebrante mundo a fora capaz de exercer o papel de sacerdote sacrificador? Pode qualquer pessoa que tenha sido ritualisticamente purificada ser aceito como sacrificante? Deve o sacrificante ser aquele que não foi morto na batalha? Alguém que não violou determinadas leis da terra? Se as pessoas podiam ser excomungadas por participarem do sacrifício, como observadores, podemos deduzir que alguns crimes ou condições desqualificassem as pessoas de realizarem os sacrifícios.

Deve o sacrificador requerido ser alguém a quem identificamos como druida?

Alguém que seja qualificado e tenha ao menos estudado a tradição celta e sua teologia o suficiente para entender as implicações do sacrifício e da renovação... Parece óbvio que algum treinamento seja requerido para que haja um sacrifico.

Que estado mental deve ser requerido do sacrificador?

Obviamente há mais coisas envolvidas aqui que simplesmente se deixar levar pelo impulso. Realizar o ritual sem a intenção e estado mentais apropriados parece mais com sacrilégio que com sacrifício. Para nos atermos a intenção e estado de pureza apropriados, devemos considerar alguns anos de treinamento e meditação, e certa quantidade de asceticismo. Pelo menos, alguém deve estar apto a realizar o ritual enquanto mantém o estado mental adequado e as visualizações sem deixar brechas para distrações. A parte externa do ritual deve também ser feita infalivelmente, sem leituras de papeizinhos. A intenção e foco dos assistentes e participantes desse ritual devem ser igualmente puros, ainda que talvez não sejam tão límpidas como o estado mental do sacrificador. Qualquer coisa menor que isso colocará em perigo a renovação do cosmos, seguindo a lógica do ritual e seu propósito. Se levarmos tudo isso a sério, essas considerações agirão contra aqueles que se “sentem” capazes de realizar o sacrifício cósmico, sem previamente praticar as técnicas e estudos de implicação teológica.

[Os trechos entre colchetes e negrito em certas palavras são acréscimos livres da tradução]

Tradução Luciana Cavalcanti
Reconstrucionismo Celta com ênfase na Irlanda desde 2000.

Tesouros da Irlanda:
http://tesourosdairlanda.wordpress.com
E-mail:
lucianaccavalcanti@yahoo.com.br

Para ler os artigos de Luciana Cavalcanti, clique aqui.
Direitos Autorais
A violação de direitos autorais é crime: Lei Federal n° 9.610, de 19.02.98. Todos os direitos reservados ao site Templo de Avalon e seus respectivos autores. Solicitações para reprodução devem ser feitas por e-mail. Ao compartilhar um artigo, cite a fonte e o autor. Obrigado!

Comentários:

Fáilte... Cadastre-se para comentar | Login

Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
Rowena
Publicado: 16/04/2013 18:19  Atualizado: 19/04/2013 03:30
Administrador
Usuário desde: 18/11/2007
Localidade: Caer Siddi
Mensagens: 245
Online!
 Re: Um ensaio sobre o sacrifício
Podemos substituir a palavra sacrifício por oferta feita à divindade, que também pode ser do seu tempo, água, pão, alimento, flores, frutas, poesia, etc... E suprir essa prática fazendo uma correlação com as plantas, como foi explicado na tradução do texto acima.

Esse assunto é polêmico, mas não podemos fechar os olhos e achar que ele não existe mais. Entre muitos povos do mundo atual, o sacrifício humano em nome de um deus e/ou divindade ainda é praticado. Infelizmente.

Enfim, em nosso caso, simboliza uma prática de hospitalidade e renovação, tanto entre os Deuses e os não-deuses. O texto sugere uma transição, tal como as ânforas de vinho na Gália, até a água e o pão. O que importa é o respeito!

No universo, do macro ao micro e vice-versa, tudo vibra e tem alma: humano, animal, vegetal, mineral... O que muda é o grau de consciência.

Rowena A. Seneween /|\

Go raibh maith agat... Obrigado!