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A Arte Celta  - Um Leque de Contradições

Enviado em 03/09/2014 (1290 leituras)

Do original: Celtic Art The Courting of Contradiction de Alice Starmore © 1994

A Tradição Clássica assegurou o mais alto patamar na Arte e Cultura Europeia por tantos anos que nada além dela teve o status do Movimento Romântico. Tão superior é a reverência pelas antiguidades clássicas sobre as outras que quando os objetos de Lá Téne começaram a serem desenterrados nos montes da Suíça durante o século 19, muitos especialistas se convenceram de que eles não eram célticos. Uma sociedade bárbara iletrada não poderia produzir itens de tamanha beleza e sofisticação!

Antes de considerarmos a Natureza da Arte Celta é importante se fazer um apanhado breve do enquadramento histórico dos Celtas. Sem jamais instituir uma nação. Os Celtas consistem num monte de tribos cuja ascensão e queda durou mais de um milênio. Do Paganismo ao cristianismo (...), nosso conhecimento deles é baseado nos legados gregos, romanos e etruscos, além das conclusões tiradas de achados arqueológicos.

Arqueólogos descrevem o desenvolvimento da sociedade celta em períodos que têm o nome dos lugares onde foram achados importantes sítios arqueológicos. Sendo assim, o período Hallstatt não indica que Hallstatt na Áustria foi o centro do universo celta, mesmo que muitos lotes de objetos tenham sido achados lá. Refere-se a sociedade celta dentre 700 a 500 a.e.c. quando ela evoluiu do nomadismo primitivo para uma sociedade agrícola, comerciante, com assentamento fixo e organização social definida.

Igualmente é Lá Téne na Suíça, sítio que deu nome ao período, normalmente, chamada de fase madura (500 a.e.c. em diante), quando os celtas se estabeleceram como vigorosa civilização, com uma opulenta classe dominante que nos deixou sofisticadas peças de arte feita pela elite artesã. Lá Téne alcançou o zênite de seu poder e glória por volta de 200 a.e.c., antes de inexorável declínio, cuja causa se resume em uma só palavra: Roma.

Enquanto, incorporava elementos emprestados de várias culturas, a Arte Celta mantinha um distinto senso de continuidade, nunca perdendo os sinais de sua própria notável identidade. Houve um desenvolvimento uniforme na sofisticação com o passar dos séculos, com as peças Hallstatt mostrando mais vigor que a assegurada delicadeza dos objetos de Lá Téne em diante.

Há também, decididamente, um propósito embutido na Arte Celta. Dos objetos pessoais de um chefe tribal pagão, com a fina ornamentação de suas armas e vasilhas de beber as mais devotadas glorificações cristãs. Apesar de tudo isso, a visão permanece a mesma.

A visão da Arte Celta é paradoxal. Tem um olho fixo no mundo natural enquanto o outro busca o abstrato, universo interior / senso geométricos, que espectadores modernos acham alienado e duvidosos na arte moderna. Terminantemente, balanceado entre esses dois mundos, dragando inspiração de ambos, sem jamais deixar um se sobrepor sobre o outro.

A precisão instintiva desse equilíbrio alcançado é a principal indicação de qualidade e legitimidade da Arte Celta e pode ser mostrada, considerando os dois exemplos seguintes: Os artífices de metal acima estão separados por séculos, mas permanecem unidos por sua identidade visual (visão comum).

Leia também em: A JARRA BASSE YUTZ

A MOEDA DE APOLLO

Feita dois séculos depois da jarra Basse Yutz, a pequena moeda de ouro que mostra a cabeça de Apollo que veio do Norte da Gália e representa outro empréstimo do Mediterrâneo. Para desagrado do gosto romano, entretanto, a face do deus sol foi exilada para a extrema margem da moeda e ocupa apenas uma ínfima porção da área. A imagem é dominada por cabelos ornados com louros e encaracolados numa massa de luz e sombra, acrescentados por intermédio do ouro.

Os cabelos tinham um simbolismo importante para os Celtas, e eles tinham "enormes problemas" com isso. Um historiador romano descreveu o cabelo de Boadicca como "vermelhos fogos-caídos até os joelhos". A ênfase pictórica nos cabelos de Apollo ao invés da face é, por conseguinte tipicamente Celta, e assim é todo o tratamento da imagem. O cabelo foi quase reduzido a um padrão geométrico e o mesmo aconteceu com o perfil do deus. O "quase" é de vital importância aqui. A Natureza está á ponto de chegar a abstração total, mas não chega. Uma visão impressionista de certo.

A ARTE CELTA EM SEU ÁPICE

Finalmente, cruzamos centenas de anos rumo ao século 12 e.c. Os maiores exemplos da Arte Celta desse período ocorreu na Irlanda, o último baluarte da Cultura Celta a ser encharcado pela romanização cristã. Ironicamente, o crepúsculo dos Celtas trouxe força e não um último suspiro à sua arte, mas um magnífico alvorecer.

Os artífices de metal do século 12 da Arte Celta ás vezes demonstram uma influência escandinava, mas ao mesmo tempo demonstra a Arte Celta em seu ápice, com todos os feitos dos séculos anteriores reunidos. A sinuosa Lá Téne evolui para espirais e entrelaçamentos complexos. As formas animais desse período são primas das bestas da jarra de Basse Yutz.

Apesar do período de tempo, os termos de referência continuaram os mesmos permaneceram os mesmos e evidentemente, as ambiguidades floresceram. A Natureza que cai na abstrusa geometria céltica continua aparente. Apesar de todos os pesares, o fato é que as peças Celtas cristãs do século 12 da era comum (depois de Cristo) continuam, decididamente, tão pagãs quanto os são as peças dos séculos antes da era comum. Uma observação cuidadosa da Natureza pode ser vista nessas obras intimamente ligada a abstração estilizada.

DENOMINAÇÕES COMUNS DA ARTE CELTA

Fazendo um levantamento dessas peças de metal que são separadas por séculos, a denominação comum da Arte Celta se torna clara. Primeiramente, há um trabalho artesanal de tirar o fôlego. Não existe nenhuma peça simples de arte popular, mas sim soberbas e sofisticadas exemplos que certamente empunham respeito em qualquer lugar, em qualquer era.

A sociedade Celta possuía uma estrutura desenvolvida o suficiente para comportar a existência de um grupo de elite de ferreiros com status de sacerdócio, o que nos leva para um segundo fato comum. A perícia desses ferreiros produziu objetos com uma aura de misticismo discernível inclusive hoje em dia, que deve ter vertido para o sobrenatural também durante seu período.

Em terceiro, há uma repetição de imagem que deve ter um significado ao qual nós só podemos especular a respeito. Essa repetição seria um quarto ponto, uma fluidez linear que se tornou mais complexa com o passar dos séculos e que jamais se perdeu.

Então, nós temos o leito das ambiguidades, caracterizado pelo equilíbrio entre Natureza e abstração. Em todas as peças célticas remanescentes, nós verificamos que esse montante de contradições pode pasmar, surpreender ou deleitar, mas que nunca deixam escapar o senso de admiração.

Os Celtas foram taxados como povo iletrado, mas existe uma complexa linguagem visual de grande poder e conteúdo; seus ferreiros usavam seus padrões esotéricos a seu modo como nas obras de qualquer poeta. O total impacto de suas metáforas, infelizmente, perdeu-se hoje em dia, a não ser que se puxe de algum distante acorde ancestral.

FLORESCIMENTO FINAL DA ARTE CELTA

A linguagem visual céltica e o artesanato por trás dela foram enfraquecidos e devastados pela expansão do Império Romano. Conforme as tribos eram conquistadas, sua aristocracia não demorava muito a perder as condições de aportar ferreiros em sua comitiva e a Arte Celta começava a enfraquecer.

Esse processo de declínio da influência Celta alcançou a Bretanha (ilhas) mais tardiamente que a Europa continental, e as tradições celtas sobreviveram por mais tempo, sendo modificadas somente pelas sucessões dos Germânicos quando as legiões romanas fugiram e sucessivas ondas de colonizadores anglo-saxões se estabeleceram. Na inconquistada Irlanda, contudo, a Arte Celta absorveu essa novidade emprestando-a sem prejuízos, e como já foi dito anteriormente, os primeiros séculos de cristianismo viram um florescimento final e a apreciação de um novo ramo - os manuscritos iluminados.

ORIGENS DO LIVRO DE KELLS

O mais famoso exemplo dos manuscritos iluminados célticos é o Livro de Kells, agora abrigado na livraria do Trinity College em Dublin, Irlanda. Esse texto latino de quatro evangelhos é geralmente aceito como sendo um dos manuscritos roubados do monastério da igreja de Colmcille, em Kells na Irlanda. Há um desacordo em determinar se ele é uma produção do final do século 8 ou início do século 9, com também há desacordo a respeito de suas inscrições monásticas, se são irlandesas ou do Norte da Bretanha.

O que se tem certeza é que ele veio de um centro de perícia caligráfica e artística, pelas suas 680 páginas restantes serem majestosas tanto no texto quanto nas iluminuras.

O Livro de Kells foi feito para cerimônias e trabalhos na igreja cristã, mas sua inspiração remete há séculos e uma tradição artística inteiramente pagã. Para cada faceta dessa tradição foi dado um lustro final, cada borda da ambiguidade foi elevada ao último grau de perfeição.

TALENTO ARTÍSTICO DO LIVRO DE KELLS

No Livro de Kells, o entrelaçamento das abstrações explode em cabeças ou faces, mas naturalmente nunca é dominada por elas. Bestas, pássaros e borboletas são alongados e estilizados, braços humanos e pernas são distorcidos em padrões de nós. Há certo humor nisso, as figuras parecem serpentear pelas páginas. Figuras agrupadas ou individuais aparecem, ás vezes, sombrias ou irritadas, ás vezes, sorrindo satisfeitas consigo mesmas, talvez em alguma espécie de piada particular.


O talento artístico é evidente no Livro de Kells, isso é fato consumado. Existem detalhes tão miúdos que parecem inacreditáveis e apesar de não podemos determinar a técnica utilizada, pincéis de um único pelo animal e lentes magníficas formadas de gotas d'água são sugeridos. Maestria total da técnica causa uma fluidez espontânea ao invés de uma rigidez formal. Há um sentimento de que a arte fluiu dos artistas, tamanha é a flexibilidade e constância de movimentos.

Ainda que as estruturas básicas das páginas tenham sido planejadas do início, os detalhes devem ter sido adicionados posteriormente conforme o desejo. Os artistas entendiam a essência conceitual da estrutura tão bem que puderam criar muitas variações da mesma preenchendo todo tipo de espaço. Daí nós vemos bordas de bordas e figuras dentro das figuras. Nós vemos anarquia e ordem. Esse trabalho devocional, símbolo do mundo ordenado do cristianismo romano, excita com as maiores abstrações conhecidos pelo homem.

Tradução Luciana Cavalcanti
Reconstrucionismo Celta com ênfase na Irlanda desde 2000.

Tesouros da Irlanda:
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E-mail:
lucianaccavalcanti@yahoo.com.br

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