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A Festa de Bricriu

Bricriu Nemthenga (Bricriu, a língua vene­nosa), convidou Conchobar e as homens do Ulster para uma festa magnífica, numa linda casa, concebida especial­mente para a ocasião. No lado oposto, Bricriu construiu uma pequena casa com grandes janelas de vidro, de for­ma que pudesse ver o seu interior, pois sabia que os homens do Ulster não permitiriam jantar com eles.

Antes da festa, Bricriu visitou Loegaite, Conall Cernach e CuChu­lainn, três dos maiores heróis do Ulster, e falou-lhes de um prêmio que, na sua festa, estaria reservado para o campeão dos campeões: “Tu serás rei de toda a Irlanda”, disse Bricriu a cada um dos heróis, “se ganhares o prêmio de campeão. Receberás um caldeirão, suficien­temente grande para conter três guer­reiros, cheio de vinho."

- "Terás também um varão alimentado durante sete anos a leite e cereal na Primavera, coalho e leite fresco no Verão, trigo e bolota no Outono, e carne e caldo no Inverno. E terás uma bela vaca que durante sete anos será alimentada a urze e leite, erva do prado e cereais. E terás, além disso, uma centena de grandes bolos de me! E este é o prêmio só a ti destinado, pois só tu és o maior dos homens do Ulster. Deves reclamar o prêmio logo que a festa comece.” Assim tentou Bricriu cada um dos heróis e voltou para terminar a preparação da festa.

Os homens do Ulster chegaram no dia aprazado para a festa, ocupando cada homem e cada mulher o seu lugar na grande sala de acordo com a sua hierarquia. Quando todos estavam prontos, os músicos começaram a tocar e Bricriu anunciou: “Esta ali o dote reservado para o campeão. Que ganhe o melhor!” E, com estas palavras, deixou a sala e entrou na outra casa.

Como Bricriu esperara, começou imediatamente uma discussão entre Loegaire, Conall Cernach e CuChulainn e em breve os três guerreiros entravam em luta. Conchobar meteu-se entre eles e Senchae, que era o mais velho e o mais sensato de todos os homens do Ulster, disse: “Não deveríamos ter de lutar durante a festa. Hoje à noite, o dote será dividido entre os três, e amanhã pediremos a Ailill, rei de Connaught, para decidir a disputa.” Todos concordaram com estas palavras de sensatez e em breve todos se ficaram felizes a beber.

Entretanto, na casa pequena, Bricriu estava a maquinar como poderia por as mulheres importantes do Ulster umas contra as outras. Nesse momento, Fedelm, mulher de Loegaire, saiu de casa. “Por certo”, disse Bricriu, “tu és a mulher do maior herói da Irlanda. Se levares as mulheres do Ulster de regresso a casa esta noite, serás para sempre a primeira dama do Ulster.”

E Bricriu fez a mesma promessa a Lendabair, mulher de Conall Cernach e a Emer, mulher de CuChulainn. Chegou à altura das mulheres voltarem a juntar-se aos seus maridos na sala. Começaram a caminhar num passo imponente, mas, à medida que a casa ficava mais perto, apressaram-no cada vez mais, até terem de levantar os vestidos e correr. Os homens ouviram a agitação e, pensando que estavam a ser atacados, trancaram as portas da sala. As mulheres bateram repetidas vezes, do lado de fora, pois cada uma delas queria tornar-se a primeira dama do Ulster. CuChulainn usou a sua enorme força para levantar uma parede da casa e, assim, Emer conseguiu entrar a sala da festa e reclamar o seu prêmio.

A festa continuou, mas em breve os três herós e as suas mulheres começaram novamente a brigar por causa do prêmio do campeão. Foi decidido que os três deveriam ir, nos seus carros, falar ao rei de Munster, Cu Roi, filho de Daire, ou a Ailill e Medb, rei e rainha de Connaught, um destes decidiria a disputa. Cada um deles correu a desfilada para oeste, por montes e vales, em direção ao Connaught e Munster, tremendo o solo à sua passagem.

Da cidadela, em Cruachu, Medb ouviu o ruído e pediu a sua filha, Findabair, que fosse para a torre da porta de entrada e descrevesse quem estava a chegar com tal fúria. “O primeiro carro vejo um homem de cabelo comprido; usa-o em tranças e da raiz as pontas muda de cor, de castanho a vermelho-sangue e a amarelo-dourado.”

- “É certamente Loegaire”, disse Medb, “e vai chacinar todos em Cruachu.”

- “No carro seguinte, de pé, esta um homem com um cabelo encantador; como a crina dos seus cavalos, está entrelaçada e o seu rosto brilha com matizes vermelhos e brancos. Usa uma capa azul e carmesim e traz um escudo com rebordo de bronze e bojo amarelo; na outra mão empunha uma lança de um vermelho-ardente e os pássaros volteiam violentamente à sua volta.”

- “Esse deve ser ConallCernach", disse Medb, “e vai cortar-nos a todos aos bocados.”

- “E o terceiro carro”, continuou Findabair, “é puxado pelos mais velozes dos cavalos: um é cinzento e o outro preto, e correm mais depressa do que os pássaros e resfolgam clarões e relâmpagos. E o guerreiro é um homem triste, moreno, o homem mais bonito da Irlanda; vejo o seu peito alvo par baixo da túnica escarlate, segura por um broche de ouro; os seus olhos brilham como pedras preciosas e as suas brilhantes faces rosadas ficam em chamas quando salta, como um salmão, em cima do carro.”

- “Esse é CuChulainn”, gritou Medb, “e seremos reduzidos a pó pela sua cólera.”

Medb deu as boas-vindas aos heróis com uma cuia de água para refrescá-los e cinqüenta mulheres para atendê-los nos seus quartos de hóspedes. Disseram então a Ailill e Medb que tinham vindo procurar obter a sua opinião quanto à disputa sobre o prêmio de Bricriu; e todos amaldiçoaram Bricriu pela questão a que dera origem.

Ailill não conseguiu tomar uma decisão acerca dos três contendores e, assim, Medb chamou a si a questão: “Não há qualquer dificuldade em julgá-los”, disse Medb a seu marido, “pois Loegaire e tão diferente de Conall Cernach como o bronze acastanhado o é do ouro branco, e Conall Cernach e tão diferente de CuChulainn como o ouro branco o é do ouro verdadeiro.”

Mandou chamar Loegaire. “Considero-te rei de toda a Irlanda”, disse Medb, “vais ter o prêmio de campeão; tens de voltar para junto de Conchobar e dos homens do Ulster e mostrar-lhes isto como um testemunho da nossa escolha.” E deu-lhe uma taça de bronze, com a base decorada com um pássaro em de ouro branco. Loegaire bebeu o vinho nela contido e juntou-se com as suas cinqüenta mulheres na cama.

Medb chamou depois Conall Cernach e disse-lhe o mesmo, dando-lhe uma taça de ouro branco com um pássaro dourado na base. Também ele bebeu o vinho e foi para a cama com as suas cinqüenta mulheres, reunidas por Sadb Sulbair, filha de Ailill e de Medb.

Finalmente, mandou chamar CuChulainn, e Ailill juntou-se a ela para a decisão. Ao herói foi dada uma taça de ouro verdadeiro, e o pássaro da base fora esculpido numa gema de inestimável valor. “És tu o campeão dos campeões”, disseram o rei e a rainha de Connaught, “e a tua mulher Emer é em nossa opinião, a primeira-dama do Ulster. Volta amanhã para Conchobar e reclama o prêmio.” CuChulainn ficou acompanhado na cama pela princesa Findabair.

Antes da sua partida, na manhã seguinte, os heróis divertiram a corte com as suas competições. Folgaram com o jogo de arremesso da roda. Loegaire só conseguiu atingir o topo da parede da sala, Conall Cernach bateu na viga mestra, para espanto da juventude de Connaught, porém, o arremesso de CuChulainn bateu na viga mestra com tanta força que a roda desapareceu pelo telhado e caiu no terreno exterior a distância de um braço.

CuChulainn tomou então as agulhas das centro e cinqüenta mulheres e atirou-as ao ar uma a uma de forma a que cada uma enfiasse no fundo da seguinte e formasse uma cadeia. Devolveu cada uma das agulhas a sua dona, perante a admiração da multidão que havia se reunido no pátio. Os três heróis despediram-se então de Ailill e Medb e da gente do forte de Cruachu e cada um deles regressou separadamente ao Ulster.

Conall Cernach e CuChulainn passaram por várias aventuras e quando finalmente chegaram ao forte de Conchobar, em Emuin Machae, encontraram a corte de luto. Loegaire chegara antes deles e, falsamente, anunciara as suas mortes. Sualtam, pai de CuChulainn, logo em seguida convidou todos para uma festa de boas-vindas. “Por que não deixar outro herói reclamar o prêmio de campeão?”, disse um dos homens do Ulster, durante a diversão. “Afinal, se qualquer destes três tivesse sido escolhido durante a sua estada em Cruachu, teria trazido para casa um testemunho como prova.”

Perante este desafio, Loegaire apresentou a sua taça e reclamou o prêmio de Bricriu. “O prêmio é para mim”, disse Conall Cernach, mostrando a sua taça, “pois a minha é uma taça de ouro e a tua e apenas de bronze.”

- “Então, sou eu o campeão dos campeões”, gritou CuChulainn, e mostrou a todos a taça de ouro verdadeiro com o seu pássaro de pedra preciosa. “Ailill e Medb decidiram”, exclamaram Conchobar e os homens do Ulster.

- “Concedemos-te o prêmio de campeão.”

Porém, Loegaire e Conall Cernach recusaram admitir a decisão e acusaram CuChulainn de subornar Addl e Medb. As espadas safaram de novo das bainhas. Conchobar deteve a luta e Senchae, o Sesato, afirmou que os três deveriam dirigir-se a Cu Roi de Munster, para uma decisão final.

Quando chegaram ao forte de Cu Roi, verificaram que este estava longe de casa, mas Blathnat, a sua mulher, fora instruída para lhes dar de beber e de comer até ao regresso do seu marido. Depois do jantar, Blathnat disse aos três que cada noite um deles deveria fazer a vigia, de acordo com as ordens de Cu Roi. Nessa noite foi à vez de Loegaire, porque era o mais velho. No momento em que o Sol se pôs, sentiram o forte girar como uma roda de moinho, pois Cu Roi, todas as noites, lançava um encantamento, para que nenhum inimigo pudesse encontrar o portão de entrada depois do escurecer.

Loegaire ficou de vigia enquanto os outros dormiam. Quando começou a alvorecer, um gigante emergiu do oceano, a oeste. Embora estivesse muito longe, o gigante parecia a Loegaire tão alto como o céu. Quando ele avançou, Loegaire viu que tinha nas mãos enormes troncos de árvore, que lançava violentamente contra si. Errara o alvo e o gigante, enfurecido, levantou Loegaire como um bebê e esmagou-o entre as mãos, como se estas fossem duas nós. O gigante atirou Loegaire por cima das muralhas de Cu Roi. Quando os outros encontraram seu corpo semimorto, pensaram que tinha tentado saltar as muralhas como um desafio aos outros homens.

Na noite seguinte foi à vez de Conall Cernach vigiar. Veio o mesmo gigante e causou-lhe as mesmas injúrias que Loegaire sofrera. A noite que se seguiu foi para CuChulainn. Foi uma noite terrível, pois fora profetizado que um monstro do lago abaixo da cidadela devoraria todos que ali habitassem.

Exatamente antes do nascer do Sol houve uma grande agitação na água, o que sobressaltou CuChulainn, pois este estava meio adormecido. Olhou por cima das muralhas e viu o monstro, que se elevou bem alto acima do lago. Voltou a cabeça e atacou o forte, abrindo a sua enorme boca para engolir cabana atrás de cabana. CuChulainn saltou bem alto e, no ar, mergulhou o braço na garganta da besta e arrancou-lhe o coração.

O gigante tentou, então, deitar a mão a CuChulainn, mas este foi muito rápido, executou o seu salto de salmão e, com a espada, golpeou o gigante. “Dou-te qualquer coisa, se me poupares a vida”, disse o gigante. “Quero o prêmio de campeão e que Emer seja a primeira-dama do Ulster.”, disse CuChulainn. “Concedido!”, declarou o gigante enquanto desaparecia na neblina matinal.

Cu Roi regressou no dia seguinte e ouviu contar as grandes façanhas de CuChulainn. De acordo com isso, concedeu-lhe o prêmio de campeão e os três heróis do Ulster partiram para casa. Uma vez mais, Loegaire e Conall Cernach recusaram o prêmio a CuChulainn, mas este estava cansado da controvérsia e o assunto ficou em suspenso.

Algum tempo mais tarde, Conchobar e os homens do Ulster estavam prestes a jantar, em Emuin Machae, quando apareceu um ogro medonho a porta, que os desafiou para o jogo da decapitação. Os três grandes heróis estavam ausentes e Muinremur aceitou o desafio. “As regras são estas”, gritou o gigante, “tu decapitas-me esta noite e eu decapito-te amanhã.”

- “Perfeitamente!”, disse Muinremur, rindo, pois não tinha a intenção de manter a sua parte do combinado com o insensato ogro.

O ogro colocou a cabeca no cepo e Muinremur decepou-a com um machado. Para surpresa de todo o ogro levantou-se, apanhou a cabeça e partiu, dizendo que voltaria no dia seguinte. Voltou na tarde seguinte, mas Muinremur não foi visto em parte alguma. O ogro protestou perante tal ultraje e outro guerreiro concordou em fazer à mesma combinação. Na noite seguinte também esse guerreiro desapareceu do caminho do ogro.

Isto aconteceu durante três noites e, na quarta noite, juntou-se muito gente no pátio para testemunhar o prodígio. CuChulainn estava presente e o ogro desafiou-o para o jogo da decapitação. CuChulainn não só lhe arrancou a cabeça com um só golpe como a fez em pedaços no chão. Mesmo assim, o ogre levantou-se, pegou os pedaços e partiu. Na noite seguinte o ogro voltou, sabendo que CuChulainn era um herói que mantinha a sua palavra.

- “Onde esta o herói CuChulainn?” perguntou o ogro.

- “Eu não me escondo daqueles como tu”, respondeu CuChulainn. “Pareces preocupado”, disse o ogro, “mas, pelo menos, mantiveste a tua palavra.” CuChulainn colocou a cabeça no cepo e o ogre levantou o machado; toda a gente susteve a respiração e voltou as costas. Quando baixou o machado, o ogro virou o gume de forma a que só o cabo apanhou CuChulainn pelo pescoço.

- “Agora levanta-te, CuChulainn!”, gritou o ogro, “pois, de todos os heróis do Ulster e até de toda a Irlanda, tu és o maior em termos de valor e de honra. Tu és o campeão dos campeões e o prêmio de Bricriu é somente para ti. A tua mulher Emer é a primeira-dama do Ulster. E se alguém discutir este fato, os seus dias estarão contados.”

Com estas palavras o ogro abandonou a sala, mas, ao sair, transformou-se em Cu Roi, filho de Daire, e assegurou que o seu julgamento dos três heróis fosse definitivo.

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Fonte bibliográfica:

Introdução à Mitologia Céltica - David Bellingham

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