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Xingu - O último refúgio da alma brasileira

Enviado em 26/08/2011 (2281 leituras)

Hoje senti uma tristeza profunda, daquelas que te fazem sentir um vazio por dentro, um vazio na alma. Ouvi o choro das crianas misturadas aos prantos de pais e mes que, sutilmente, se fundiram ao meu, uma sinergia melanclica cheia de notas distorcidas e vagas, no h melodia na cano que ouo to perto, no h beleza quando no se enxerga os peixes nadando, atravs das guas do Rio Xingu.

Esta tristeza me arrebatou de tal forma que pude sentir meu corao batendo mais fraco e mais fraco, na cadncia silenciada pelas mos de outrora irmos, apenas irmos nascidos da mesma ptria, criados no mesmo leito, mas no irmos de alma.

Hoje, senti uma tristeza profunda, to profunda que me calou o esprito, esprito este que no mais sabe diferenciar uma rvore de um poste eltrico, um Rio de uma usina hidroeltrica... Triste ver como uma nao perde sua alma pelas mos dos filhos e dos filhos de seus avs e bisavs... Triste saber que a mquina que corta, aterra e cala a vida ancestral, tem o mesmo D.N.A que o nosso.


A construo da usina Belo Monte no Rio Xingu a cicatriz que marca a pele ancestral de nosso solo materno, uma questo mesquinha e poltica que se sobressaiu de todos os outros atos anteriores, uma imposio do poder governamental, uma catstrofe ambiental sem precedentes que destruir a subsistncia de centenas de famlias de ndios, caboclos e ribeirinhos. Mas j se torna cansativo ouvir e falar sobre isso sempre, pois estas notcias no so novidade nenhuma para quem quer que seja e ainda assim, nos faz sentir to impotentes perante a mo usurpadora dos governantes deste pas, os senhores desta Terra que agora vestem ternos caros e usam sapatos importados, gravatas e mscaras indceis aps serem eleitos, dceis em suas campanhas, escondendo seus prprios medos e os projetando nos desprovidos, descalos e sem alma.

Uma grande sombra que se manifesta na conscincia coletiva da maioria das pessoas, a banalizao faz de ns escravos desta poltica subjetiva e dominadora. At quando? Acho que ningum poderia responder com certeza, apenas com a esperana que teima em esvanecer.

Em 1500 os invasores nos viram como um povo sem alma, desespiritualizados, habitantes de uma Terra de ningum, sem nome e sem credo, e seria nisto que as aldeias (reservas) indgenas, esto se tornando? As aldeias indgenas so nosso bero ancestral e cada etnia indgena com seus costumes e lnguas, nosso cordo umbilical com a identidade negada.

Hoje, os invasores europeus se foram, mas nos ensinaram diretinho como usurpar, destruir e conquistar, uma herana gentica distorcida. Quando a cruz foi fincada nas areias da praia, do que eles chamaram a princpio, da ilha de Vera Cruz, foi o sinal de violao da imaculada espiritualidade indgena brasileira, a imposio de uma doutrina que precisava ser imposta para "salvar a alma dos pobres coitados que no acreditavam em nada"; e a derrubada do Pau-Brasil para exportao, pelas prprias mos dos ndios, o indcio do que hoje vemos por toda parte.

No noticirio, uma apreenso de venda ilegal de madeira na Amaznia, como vigia desta depredao, nada menos do que um indgena. Um ndio ajudando a vender rvores? O que aconteceu com os espritos da Floresta? Como era a lngua falada entre eles, ndio e esses espritos? Pelo visto, se foram para sempre, pois as geraes anteriores no preservaram sua verdadeira tradio.

E se nossos irmos ndios chegarem a extino seremos definitivamente um povo sem alma, uma Terra de ningum, onde vagaremos procurando por algo, que nunca saberemos o que foi e de onde veio. Seremos enfim, a imagem que os europeus tiveram quando aqui chegaram. Mas e antes de 1500? Como era a vida aqui? O que se cultuava? Quem caminhava por esta Terra?

Ningum se quer pergunta mais sobre isso, perdeu-se o interesse pela ancestralidade indgena, nossas razes. As rvores sussurram nossas histrias ao vento e que se tornou mudo aos ouvidos de seus filhos, o poder de adaptao do ser humano, se tornou puro comodismo. E, assim, caminharemos sem a nossa alma, sem a nossa cultura.

Nossos monumentos arqueolgicos eram feitos de sap e taquara, portanto, perecvel ao tempo, diferente das outras civilizaes que entalhavam em pedras e construam templos megalticos, fazendo perdurar suas tradies.

Preservar sua histria era algo valioso, pois se tinha a noo (intuio) de que algum dia no estaria mais ali para contar.

Seriam os Tupinambs diferentes das outras civilizaes, como os Maias, os Incas, os Astecas, os Sumrios e os Babilnicos, conscientes que viveriam para contar sua histria (como de fato viveram), por isso no se preocuparam em deixar seus rastros arqueolgicos?

Eles sobreviveram sim, fisicamente ao menos, diferentes das outras civilizaes citadas, esto aqui para contar sua histria, mas a histria est se esvaindo como a areia da ampulheta que marca, regressivamente, o tempo que ainda resta, pois ns (brancos, mestios, mulatos, cafuzos) herdeiros desta invaso, tiramos deles esta histria e os fizemos acreditar, em algo que no vinha de sua Natureza.

A invaso foi algo muito alm dos livros de histria que nos mostram nas escolas, para se ter uma ideia, de quo grande foi o estrago feito na essncia indgena, basta sabermos que os jesutas e missionrios europeus praticavam o que era chamado de exerccios espirituais que aprendiam em seus treinamentos religiosos, uma tcnica apurada que ficou conhecida tambm como yoga ocidental e consistia em uma srie de prticas que degradavam a espiritualidade dos ndios, de modo a desestruturar, psicologicamente, sua personalidade. Os europeus, aproveitando-se assim de sua hospitalidade de certa forma ingnua (no ao que se refere as suas crenas ou modo de vida, mas por acreditar no inimigo e deix-lo entrar em sua casa), para absorverem sua alma e depois execr-la para o prprio ndio.

Para os invasores no era suficiente que se abandonasse as crenas e prticas, mas que os prprios ex-praticantes tivessem verdadeira averso ao que foi praticado antes. Ainda h tanto a se explicar sobre o descobrimento de nossa Terra...

Mas no devo me prolongar neste ponto, s usei as prticas espirituais em uma viso superficial apenas para ilustrar o quo profundo foi a desespiritualizao de nosso povo, para se fazer uma comparao em quanto ela ainda reflete em nossas atitudes e pensamentos. O assassino do ndio Galdino, incendiado vivo por um estudante h alguns anos atrs, j goza de liberdade plena e desenvolve, tranquilamente, seu trabalho no prprio governo. Temos um grave indcio de uma situao como essa e de muitas outros crimes contra indgenas, at na sociedade em geral, a banalizao.

Tornamo-nos to insensveis quanto os europeus foram em 1500 ou no?

Em tempos como os nossos, se faz necessrio uma verdadeira reflexo, se no uma revoluo de conscincia para que se entenda que sem nossas razes, morreremos como as rvores e assim como elas, nos tornaremos um simples monumento que se mantm em p, mas oco por dentro, uma mera sombra do que um dia existiu em essncia.

Em nome e respeito aos ancestrais de nossa Terra, AWEN a todos /l\

Por ldrich Hazel Ybyrapyt
Caminhante que busca o despertar da conscincia atravs da meditao e da compaixo.

Citao:
"Somos todos folhas da mesma rvore."
ldrich, filho da Aveleira
http://eldrichazel.blogspot.com

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