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Danças Circulares Sagradas

Enviado em 23/11/2011 (8953 leituras)

Cura, espiritualidade e celebrao da vida com as Danas Circulares Sagradas.

"D-me a mo e danaremos,
D-me a mo e me amars.
Como uma flor seremos,
Como uma flor e nada mais...
O mesmo verso cantaremos,
No mesmo passo bailars.
Como uma espiga
Ondularemos, como uma espiga
E nada mais.
Rosa te chamas e eu Esperana,
Teu nome porm esquecers.
Porque seremos uma dana na colina, e nada mais..."

(Gabriela Mistral)

Desde tempos imemoriais o ser humano utiliza a msica e dana para celebrar, brincar, meditar (no sentido de meditao ativa), se comunicar e se relacionar com o Sagrado. muito provvel at mesmo que a msica, e consequentemente a dana, tenham surgido ao lado das primeiras formas de religiosidade do ser humano.

Ao observar a natureza viu que ela produzia sons, e esses sons poderiam ser muitas vezes a voz dos Deuses, espritos e antepassados. O trovo, o cair das chuvas, o vento, a onda do mar, o canto dos pssaros, os sons emitidos pelo tigre, o elefante, a baleia, a serpente... Tudo e todos emitem sons. Pois som vida, e a vida sagrada.

Em diversas tradies xamnicas quando o(a) xam realiza um ritual de cura ou uma viagem ao mundo espiritual ele dana e canta, e em sua dana imita o movimento de animais sagrados, os Totens, reproduzindo o voo da guia, a corrida do gamo, a caada da ona, o rastejar da cobra... Ele canta e entoa msicas para chamar e pedir auxlio aos ancestrais, entrando em comunho (comum unio) com eles.

Danando e cantando o xam entra em transe, visita outros mundos, mundos espirituais superiores e inferiores -, recebe conhecimentos e os transmite a sua comunidade.

No s no xamanismo que a msica e a dana so meios de alcanar o transcendente. A msica e a dana so fenmenos universais e esto presentes em todas as culturas, todas as religies e espiritualidades. Seja num sentido sagrado ou profano, ou ambos juntos. Pois sagrado e profano no esto separados, so dimenses que se relacionam, se interligam constantemente. Os Deuses se comunicam e se fazem presentes em nossa realidade, e ns nos comunicamos com os Deuses e Deusas, vamos ao encontro deles, em sonhos, em preces, em rituais...

Nas religies de matriz africana, o Candombl e Tambor de Mina por exemplo, a dana um aspecto fundamental do ritual e dos ensinamentos da tradio. No conheo um deus que no dance, diz um provrbio afro-religioso. H tambm a dana rodopiante dos Dervixes, uma tradio mstica do islamismo; a dana energizante e alegre dos povos ciganos; a dana em crculo nas culturas indgenas brasileiras; o bailado nos rituais do Santo Daime; as danas na cultura japonesa, algumas representando o cultivo e colheita do arroz; as danas hindus, tendo como o Deus Shiva Nataraja, o senhor danarino, um dos smbolos mximos; as danas espirais em vertentes do neopaganismo; dana do ventre; dana tribal ou Tribal Fusion como tambm chamada; as alegres danas irlandesas; danas modernas em louvor ao Esprito Santo em igrejas protestantes; o simples balanar da folhinha de domingo nas missas de domingo... Enfim, a lista seria interminvel.

Isso nos mostra que alm da msica e a dana serem presentes em diversas, se no em todas, as culturas e religies, elas so uma das formas mais expressivas de ligao com o Sagrado. E no s com essa dimenso. A dana, sobretudo a circular ou dana de roda, nos liga com Outro (ser humano e a natureza a nossa volta) e tambm com ns mesmos, nossa essncia, nossa individualidade, proporcionando-nos auto-conhecimento.

Foi isso que Bernhard Wosien percebeu em seus estudos. Nos anos 50 e 60, quando o danarino, coregrafo e pedagogo nascido na Alemanha, comeou a viajar pela Europa e pesquisar a cultura atravs das danas folclricas de vrias comunidades, ficou fascinado pelas danas tradicionais e iniciou um trabalho que se difundiu rapidamente pelo mundo.

Adaptou parte dessas danas a forma circular e desenvolveu trabalhos, seminrios que utilizavam a dana como meio de educao, terapia e sociabilidade, destacando seu carter sagrado. Em 1976, Wosien foi convidado a ensinar as danas em uma comunidade na Esccia, a Fundao Findhorn, criada com base no desenvolvimento humano e numa nova proposta de vida para o ser humano e o planeta. O trabalho de Bernhard Wosien cresceu e se estendeu pelo mundo, ganhando cada vez mais adeptos dessa metodologia educativa e teraputica, e mais do que isso, de uma forma de vida. Depois que faleceu, sua filha, Maria-Gabrielle Wosien continuou o trabalho do pai com as Danas Circulares, se dedicando especialmente ao estudo da dana dos Dervixes e as danas gregas.

No Brasil diversas organizaes, grupos e indivduos realizam vivncias e cursos de Danas Circulares, com a proposta de que a msica e a dana transformem positivamente as pessoas, a sua relao consigo mesma, com o outro e com o mundo.

A dana circular atua como uma meditao ativa, uma orao danada e/ou cantada que nos religa com nosso Eu divino, despertando-nos para a Vida e nos fazendo reconhecer a beleza que h em todos os seres e culturas. Nesse sentido, as danas circulares valorizam a diversidade cultural do planeta, trazendo danas tradicionais e contemporneas de diversos povos e reconhecendo a sabedoria presente nessas tradies. Reconhece e valoriza tambm as singularidades de cada indivduo que traz para a roda sua histria de vida, seus sonhos, anseios, dificuldades e habilidades.

Na roda o importante no acertar o passo, fazer bonito. E sim sentir a msica, deixar-se guiar por ela, libertar o corpo e a mente do medo de errar. Confie em seu corpo, acredite que ele tem uma sabedoria, sabendo dos passos da dana apenas deixe a msica guiar seus ps e brinque... Como no tempo em que brincava de ciranda na rua ou na praa. Aquele sentimento de liberdade e alegria to puros nos fazem falta hoje em dia. Ao estendermos a mo para encontrar a mo do outro, cria-se um sentimento de comunidade, de que no estamos ss no mundo, e que somos uma grande famlia.

A dana tambm tem o poder criativo, pois cria em ns pensamentos positivos e harmnicos, a partir do qual nossas atitudes so transformadas, e tambm nosso mundo. A transformao acontece de dentro para fora.

Em mitos antigos a dana retratada com esse poder de criao, e no somente a dana, como tambm a msica, o som. Na mitologia hindu, Brahma criou o mundo a partir do som primordial: OM. Portanto, ns e tudo no universo nasceu da msica. Shiva o deus da destruio, necessria para uma nova criao. Ele nos ensina que precisamos morrer para que uma nova vida surja, a lua nova que ele traz em sua cabea em muitas de suas imagens simboliza esse renascimento. Atravs de sua dana sagrada, que realiza a cada pr-do-sol no alto do Himalaia, como acreditam os hindus, o Deus destri o universo para em seguida constru-lo novamente.

Os mantras, frases-orao, muito usados no Budismo e Hindusmo, tm o poder de elevar a mente, proporcionar paz, proteo e sabedoria.
Na mitologia grega, a Deusa criadora do universo Eurnome, que atravs de sua dana cria a serpente Ofon com quem se relaciona, criando o Ovo universal, que d origem a todas as coisas. No Islamismo, o livro sagrado, Al Coro, deve ser lido de forma quase cantada, recitando os versos. Na cultura celta, os bardos ou fli, eram os guardies da memria do povo, cantavam as grandes histrias dos deuses, deusas, heris e heronas. Acredita-se que a natureza toda mantida e nascida da Grande Cano (Oran Mor) que emana de todos os seres. O Dagda, o Bom Deus, ao tocar sua Harpa faz a roda do ano girar, mudando as estaes, influenciando no Tempo.

Na tradio tupi-guarani, Tup Tenond, O Grande Som Primeiro, criou o universo ao se desdobrar de si mesmo, e criou o ser humano, que foi chamado de Tupi, que quer dizer som (tu) em p (pi) ou som andante. Uma pesquisa mais ou menos recente da astronomia descobriu que o Sol emite um som devido as atividades solares e magnticas em sua superfcie.

Como vemos, o universo todo som, msica e dana!

Mas obviamente que no existem s danas com carter sagrado ou ritual. Muitas danas folclricas ou tradicionais atentam para o aspecto ldico da vida. Msicas e danas que celebram o cotidiano, os acontecimentos comuns da vida, o amor, a amizade, o casamento, a alegria das crianas... Mas ser que o ldico est realmente separado do sagrado? Eu acredito que no, ou pelo menos no deveria. Sagrado e profano, divino e humano, prazer e espiritualidade, razo e intuio... so coisas que devem caminhar juntas, em equilbrio, para o nosso equilbrio, para a nossa harmonia. Nossa, e do mundo.

Com tudo isso que as danas circulares sagradas proporcionam a Cura, do corpo, mente e corao. Cura, espiritualidade, transformao, alegria, meditao, interao, harmonia, celebrao...

Por todos esses benefcios e caractersticas da dana que desde tempos antigos ela se faz presente em rituais, festivais e at nos momentos mais comuns ou banais da vida. Dessa forma acho interessante aplicarmos as danas circulares na celebrao dos festivais e ritos pagos, em nosso caso os ritos drudicos. Para isso recomendvel que a pessoa tenha uma formao de focalizador em danas circulares ou um mnimo de conhecimento das danas e organizao da roda e o centro. De qualquer forma, seja num contexto ritual ou no, as danas circulares sagradas, danas circulares dos povos ou simplesmente danas de roda, so uma tima maneira de celebrar a vida. Pois para danar no precisa de um motivo ou momento especial, basta estar vivo!


Rodas de Gaia - danas circulares no parque ambiental de Ananindeua/PA, organizada pela Ong Mana-Man, em maio de 2011.

A dana de roda em crculo doa-nos a onipresena que nela habita,
de maneira que, na atuao conjunta de ritmo, melodia e compasso,
as camadas mais antigas do fundo do poo da alma possam ganhar nova vida,
e como, por um toque de mitos de outrora,
fecundam criativamente o momento.
Assim ns danamos na meditao da dana,
os sonhos que nos reencontram,
como nossas saudades do alm.
Danando participamos de sua transformao,
mudando a ns mesmos (B. Wosien).

Sugesto de leituras sobre as danas circulares:

WOSIEN, Bernhard. Dana: um caminho para a totalidade. So Paulo: Ed. Triom.
WOSIEN, Maria-Gabrielle. Danas Sagradas: deuses, mitos e smbolos. So Paulo: Triom.
RAMOS, Renata (org.). Danas circulares sagradas: uma proposta de educao e cura. So Paulo: Triom.

Por Mayra n Brighid
Sonhadora, amante de msica, poesia, cultura e mitologia Celta. Nascida em terras amaznicas, na cidade beira do rio (Belm), mas com a alma cuja raiz remonta as terras clticas, alm-mar.

Citao:
"Druidismo, cultura celta e espiritualidade feminina."
O EnCanto do Cisne
http://encantodocisne.blogspot.com

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