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Sagrados e Femininos, a expressão do Ecofeminismo

Enviado em 20/04/2012 (2535 leituras)

A minha psique se rende ao Sagrado Feminino e suas intrnsecas relaes com o feminismo e a expresso da sacralidade ancestral. o retorno ao lar, claro, mas de forma repaginada, com novas perspectivas de dilogo com minha parcela dedica.

No poderia falar na dimenso sagrada do feminino sem deixar de mencionar a larga contribuio dos trabalhos de ecofeministas de ponta como Ivone Gebara e Vandana Shiva que, a partir da crtica a uma concepo de patriarcado, deixam um espao fecundo para reflexo.

Tenho muita familiaridade com a obra de Vandana Shiva, em face de uma conexo providencial que esta ativista faz entre o feminino e o sagrado, em boa parte embalada pela cosmogonia hindu e, claro, pela experincia de vida em prol da sustentabilidade que se pauta no localismo como opo para as monoculturas.

O caminho que fao, contudo, parte por outro vis, na reflexo sobre um ecofeminismo que prestigia uma construo psico-social de identidades distintas em torno das mltiplas experincias do Feminino e do Feminismo que no esto dispostas na reproduo essencialista do usual binrio de gnero. Na verdade, entendo ser necessrio fazer sempre um lembrete em termos semnticos, para falarmos em Sagrados Femininos (e no apenas em Sagrado Feminino), com a finalidade de no nos esquecer das variadas experincias das mulheres de vrias culturas e nichos.

Da o modelo celtibero como foco de minha narrativa, na medida em que as experincias celtas reconstrudas anacronicamente na teia mtica de contos e lendas apontam para outras vivncias do feminino, qual seja, uma dimenso paritria, onde os espaos pblico e privado no se posicionavam to sectarizados entre gneros.

Entendo ser essencial partir desse questionamento para se refletir, no mbito da cosmogonia celta, sobre uma ausncia de naturalizao de qualidades que seriam alojadas para o ethos feminino (docilidade, submisso e esprito cuidador), marca inerente dos sistemas patriarcais em relao aos quais prpria teoria ecofeminista presta crticas ferrenhas.

Uma leve leitura de boa parte das odisseias heroicas celtas me induz a creditar nas figuras dedicas uma expresso de honra a um espao de sacralidade que no necessariamente impele a figura da mulher para uma dimenso de conexo Natureza por via da apropriao dos conceitos de maternidade.

Basta ver, para tanto, a figura emblemtica de Morrighu, a Deusa-guerreira que nada agrega em sua estrutura arquetpica de candura e devoo maternal. Por exemplo bem claro reside em Maeve, a rainha emancipada que se permite o conbio com vrios esposos. Ou, ainda, na prpria Cerridwen que, nada obstante seu apelo devocional ao seu filho Afagdhu (ou Morfran), no apresenta a exagerada candura de que se acometem as deusas maternais da cultura greco-romana, muito menos parte do que se tem na mitologia hindu, que se apropria do conceito de feminilidade como epicentro da criao, mas que encobre um universo de alojamento do feminino para um segundo plano, a partir da compactao da experincia do feminino dotada de atributos imutveis por "ordenao csmica".

O celta - como boa parte dos reputados "brbaros" - tinha no binrio pblico-privado uma noo bem diferente do que o "irmo" latino (fraternidade esta extorquida frceps, por meio, claro, do movimento expansionista romano), j que seu sistema de organizao poltica no contemplava uma estreita bifurcao entre o que interesse comum e interesse privado.

Alis, bem importante lembrar que a dicotomia pblico/privado inveno grega apropriada por Roma quando conquistou tambm aquele povo. Dentro disso, basta observar a estrutura clnica celta para se perceber no interesse do grupo a espiral a guiar e motivar as individualidades e, dentro delas, a perda de sentido do binrio de espao masculino versusfeminino. As mulheres, afinal, iam para as guerras, lutavam e, com a mesma desenvoltura, relacionavam-se com seus esposos e dividiam papeis, sem que a submisso fosse a marca maior.

Chamo a ateno, contudo, para a ausncia de um ethos de definio das celtas, por sua vez, como detentoras de um inerente e fatal "predisposio" para guerras ou para a lareira, pois isso seria to essencialista quanto o essencialismo que estou a refletir no ecofeminismo espiritualista do sc. XX/XXI. Ou seja, "ser ou no ser", guerreira ou dadivosa me, no era condio inexorvel de vida para a experincia de UM feminino, em especial, mas deixa claro para ns, agora, que o feminino no se relaciona a um modus vivendi, mas a uma pluralidade de experincias que hoje, no sc. XXI, fazem com que anacronicamente reconstruamos - num ecofeminismo crtico - a reflexo sobre os papeis da mulher celta.

Esse "desvio-padro" de uma cultura totalmente distinta da compreenso que trazemos em torno da essencializao de caractersticas que me faz retomar, a partir da, s reflexes sobre o Sagrado e o Feminino, contextualizados numa dimenso emprica de vivncia do que sacro em face da insurgncia em relao ao enfoque de um ecofeminismo que prestigie a diferena historicamente construda, dentro da qual a mulher observada no espao privado.

Isso resgata a ideia de rediscusso dos espaos e papeis desenvolvidos por homens e mulheres nessas sociedades (celtas), aparentemente dspares do modelo binrio que embalou o ecofeminismo espiritualista de cunho cosmognico ainda patriarcal, pois penso que, a partir da, poderemos responder principal crtica ao ecofeminismo: ser essencialista e pressupor que a mulher possui, em seu DNA, uma helicoidal especfica e imutvel.

Se fosse assim seria impossvel, por determinismo darwiniano, chegarmos ao ponto de reflexo profunda a que chegamos hoje, com a tomada de conscincia e de deciso, por parte de ns, MULHERES!

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtbero.

Citao:
"Conectada aos mistrios da ancestralidade da terra."
Sagrados Segredos da Terra
www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com.br

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