Início Login     

Ancestralidades: Deuses, Antepassados e Espíritos

Enviado em 27/05/2012 (3874 leituras)

Ns no estamos sozinhos no mundo. No estamos isolados no aqui e agora. Cada um de ns est interligado ao seu passado e futuro. Somos frutos de nossos antepassados, pais de nossos pais e mes de nossas mes, e tambm resultados das escolhas que tomamos em cada passo de nossas vidas. Na cultura celta e no druidismo hoje, um dos mais importantes ensinamentos se refere s ancestralidades. As trs grandes famlias so formadas pelos espritos da natureza, os antepassados e os deuses, que esto relacionadas aos Trs Mundos, Terra, Mar e Cu, mas no esto limitados a apenas um deles.


Essa crena est simbolizada na imagem do triskle (acima), um antigo smbolo encontrado em diversos artefatos e objetos na cultura celta, como em pedras, espadas, escudos e jias. So trs espirais que se movimentam ao redor de um centro, e todas essas espirais esto interligadas entre si, completando o crculo da vida. Voc o centro, que est conectado as espirais, recebendo influncia e influenciando-as. O centro tambm a essncia da Vida, o Esprito, a Grande Cano, onde nascem e se expandem as espirais, e onde elas se encontram.

Abaixo veremos uma breve explicao sobre as trs grandes famlias ou as trs ancestralidades.

Espritos da Natureza

Refere-se a todas as formas de vida na natureza. So os espritos dos animais, das rvores, rios, pedras, fontes, etc. So nossos irmos de penas, escamas, plos, e tantos outros. So os espritos da terra, espritos da regio e, podem ser inclusive, espritos humanos que de alguma forma se integraram na paisagem natural. Em nossa regio amaznica, a sabedoria popular os chama de encantados ou caruanas e, como exemplos, podemos citar o Boto, a Uiara ou Me dgua e o Curupira.

Ns no estamos separados da natureza, e nem somos to diferentes desses seres, os outros animais. Ns somos natureza tambm. Nascemos da Terra, nosso corpo feito dela. Como alguns mitos de outras culturas, como a grega e a judaica, nos contam que nosso corpo foi criado da lama, ou seja, da mistura da gua com a terra. Estudos cientficos apontam que o que nos diferencia dos coelhos ou macacos, so apenas alguns genes.

O povo indgena Kamaiur tambm pensa dessa maneira, como atesta a antroploga Carmen Junqueira, no artigo Pajs e Feiticeiros (2004). Ela escreve a respeito de uma crena desse povo em que os seres humanos e os outros animais falavam, em um tempo remoto, a mesma lngua e todos eram essencialmente semelhantes. A autora escreve:

Quando a vida foi criada, todos os seres se comunicavam numa mesma lngua, o que facilitava a unio entre espcies diferentes. E, mais ainda, por trs da aparncia diversa residia uma semelhana niveladora: todos eram uma concretizao do fenmeno da vida e, mais, eram mortais e possuam uma alma. O fundamento que os animava era o mesmo e a diferena de aspecto pouco significava (p. 4).

Em um trecho de uma prece drudica Epona, lemos o seguinte:

Como a terra minha carne, pedra os meus ossos, cada erva meu cabelo, o mar meu sangue, o Sol minha pele, minha alma a Lua, as estrelas meus sentidos, minha razo as nuvens e o vento minha respirao. Logo, ns no s estamos na natureza, como a natureza est em ns.

Antepassados

Os antepassados so nossos pais e mes, tios e tias, avs, bisavs, tataravs... So nossos ancestrais de sangue e a eles devemos nossa vida e a razo de estarmos na famlia em que nascemos. Herdamos deles os traos fsicos, a educao, a nutrio, as alegrias e as dores, e uma parte importante de nossa personalidade. Os celtas demonstravam um profundo respeito para com os antigos, os mais velhos da famlia e da tribo, pois eles viveram mais do que ns, viram mais do que ns e com certeza tm muito a nos ensinar. Eles representam a memria no s de uma vida, mas de uma ou mais geraes. O respeito aos mais velhos e, consequentemente, a tradio e ao passado, uma das coisas mais importantes que o druidismo ensina, e que nossa sociedade hoje mais precisa aprender. Lembrar de nossos antepassados, aqueles que j foram para o Outro Mundo e as ilhas alm do Mar, respeitar sua memria, e no nos esquecer dos laos que temos com eles, so atitudes que devemos manter sempre.

Mas, no temos como nossos antepassados apenas os do lao sanguneo. H tambm os antepassados espirituais, ligados a ns, no com laos de sangue, mas de afinidade espiritual. Como druidas/druidesas e druidistas (ou politestas celtas). Temos como nossos antepassados os druidas e celtas antigos, que viveram sculos antes de ns, em terras distantes da nossa (como no nosso caso), mas que ainda assim nos influenciam e nos despertam o interesse e afinidade profunda por sua cultura e espiritualidade. So os povos galicos, gauleses, bretes, galeses e galaicos que viveram nas terras que chamamos de clticas (Irlanda, Esccia, Inglaterra, Frana, Galcia...), e que deixaram na histria da humanidade profundas marcas de sua cultura, e nos inspiram hoje a (re)construir sua cultura e religio.

Deuses

Os deuses e deusas so os ancestrais mais antigos que temos. Viveram em um tempo em que o prprio tempo ainda no existia, e a Terra como a conhecemos ainda estava se formando. Os consideramos deuses porque so extremamente antigos, conhecem o(s) mundo(s) em profundidade, suas foras e seus mistrios, e por isso tm poder, porque eles so as foras do mundo, eles exprimem as foras da natureza. Muitos deuses ou deusas tm sua morada ou seu corpo formado por um rio, montanha ou colina. Alguns deuses podem ser os prprios ancestrais de uma tribo celta, que o viam como um antepassado primordial, que poderia descender mesmo de uma divindade. Se entendermos por essa forma, veremos que os deuses e deusas so nossos antepassados tambm. So nossos Pais e Mes primordiais e, portanto, nossa famlia mais antiga. A diferena , alm da ancestralidade, a enorme sabedoria que eles possuem, e tambm a imortalidade.

No texto Ensinamentos de Fintan, de Bellovesos, encontra-se uma concepo muito interessante de imortalidade, e mais ou menos dessa forma que compreendemos o que ser imortal.

A gua cai do cu, corre pela terra nos leitos dos rios, descansa nos lagos, sobe nas altas ondas dos mares, retorna ao firmamento atendendo ao chamado do Sol e, quando a brilhante Grēnā assim determina, vem outra vez fazer frtil a terra. A rvore cobre-se de brotos na primavera, seus frutos amadurecem no outono, o inverno deixa-a nua e coberta de neve espera de uma nova primavera que vir no crculo sem fim das estaes. Os livros que vocs trouxeram falam de pecado, punio e morte. No os li, no me interessam. Li o mundo. Em meu livro, a morte porta que se abre para outro nascimento, inseparvel da vida exatamente como a noite leva a um novo dia. Est escrito no mundo: tudo passageiro na roda que comeou a girar antes que o tempo existisse, que no deixar de seguir seu curso antes que o tempo acabe, pois somente aquilo que nasce dentro do tempo pode dentro dele ter fim. Imortal porque sempre renovado, vivo como o mundo vive. Por isso tornei-me testemunha de todos os reis. - Ensinamentos De Fintan, por Bellovesos.

Deuses, antepassados e espritos da natureza. Essas so as nossas grandes famlias. Todas interligadas entre si e conectadas a ns. Entre esses laos deve haver sempre honra, respeito e hospitalidade, e isso deve ser ensinado aos nossos filhos e aos filhos deles, pois hoje somos ns lembrando dos ancestrais e antepassados, mas amanh ns que seremos lembrados como antepassados de algum ou de uma gerao.

Meditao com os Ancestrais:

Feche os olhos, respire fundo trs vezes. Veja e sinta a Terra sob seus ps, o Cu acima de voc, e o Mar ao seu redor. Veja uma luz descendo do Cu tocando sua cabea at seus ps, preenchendo seu corpo. Veja uma luz saindo do corao da Terra, subindo por seus ps e chegando at a cabea. Veja uma luz vinda do Mar, azul e profundo, que te rodeia e preenche seu corpo totalmente. Ento, veja as trs luzes se encontrando no seu corao, no seu centro, e formando uma espiral de luz e fora. Respire fundo...

Agora veja uma rvore bela e grande. As suas razes so fortes e se afundam no mais profundo da terra e bebem de uma gua pura e cristalina. Veja na base da rvore, nas razes, a sua famlia, seus parentes prximos e distantes, seus antepassados, aqueles que j se foram, e aqueles que voc no conheceu nessa vida, os antigos celtas, com seus mantos quadriculados e coloridos, segurando lanas e escudos, harpas e flautas. O tronco da rvore forte e saudvel, coberto de musgo e flores. Veja no tronco da rvore todos os seres que te rodeiam, os seres de pele, de escama, de penas e folhas, os seres que voam, que andam, nadam ou rastejam. Veja a natureza como um todo, os rios, as florestas, montanhas, e sinta como h vida em tudo isso, como a natureza e os seres pulsam vida e energia. Voc v agora a copa da rvore, os seus galhos so fortes e altos que alcanam o cu e podem tocar o sol, a lua e as estrelas. Veja na copa da rvore os Deuses, os Imortais, as Foras que regem a natureza, veja Taranis, Dagda, Morrigan, Brighid, Lugh, e outros deuses a quem tens devoo.

Veja a grande rvore, veja as trs grandes famlias. Agora perceba que a rvore voc. Voc a rvore. E as trs grandes famlias, os Ancestrais, esto ligados a voc, e voc a eles. Mantenha fixa essa imagem. Agradea e honre. Respire fundo. E abra os olhos.

Benos dos Trs Mundos /|\

Por Mayra n Brighid
Sonhadora, amante de msica, poesia, cultura e mitologia Celta. Nascida em terras amaznicas, na cidade beira do rio (Belm), mas com a alma cuja raiz remonta as terras clticas, alm-mar.

Citao:
"Druidismo, cultura celta e espiritualidade feminina."
O EnCanto do Cisne
http://encantodocisne.blogspot.com

Para ler os artigos de Mayra n Brighid, clique aqui.
Direitos Autorais

A violao de direitos autorais crime: Lei Federal n 9.610, de 19.02.98. Ao compartilhar um artigo, cite a fonte e o autor. Todos os direitos reservados ao site Templo de Avalon : Caer Siddi e seus autores. Referncias bibliogrficas e endereos de sites consultados na pesquisa, clique aqui.

"Três velas que iluminam a escuridão:
Verdade, Natureza e Conhecimento." Tríade irlandesa.

Go raibh maith agat... Obrigada!
Rowena A. Senėwėen