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Gloriosos dias de celticidade

Enviado em 17/07/2012 (2376 leituras)

A rvore da vida e a senda espiritual da guerreira

Toda grande mudana que produzimos durante nossa mtica jornada ao longo das vrias e vrias existncias supe a percepo, no mundo material, da continuidade nos processos espirais de vida e morte, pois o renascimento somente possvel, em nveis mais profundos do esprito, quando nos despojamos do que est obsoleto em nossa trajetria e, renovadas, lanamo-nos para novos percursos.


A rvore da vida celta ilustra bem esse ciclo perptuo, pois agrega, de baixo para cima - ou, de cima para baixo, dependendo de como nos predispomos a ver o mundo - todas as etapas valiosas desse grande movimento universal que coexiste ao lado de nossa senda individual.

Ela marca muito mais do que o inconsciente coletivo sagrado, pois ainda que seja um smbolo universal para as etapas que todos os seres vivos ho de cumprir- vida-morte-vida, inexorvel condio a qual tudo se sujeita - a rvore da vida nos ensina "para alm" da espera do decurso de nossas existncias, mostrando-nos a beleza, a poesia, a dignidade e, sobretudo, a dignidade de cada caminho...

Ela nos mostra o que se torna necessrio cultivar na Terra para que as razes se finquem fortes e possam sustentar o longo eixo - corpo - que ir crescer at atingir a morada divinal. Mas tambm nos mostra, nas folhas cadas ao solo, que todo esse fluxo demanda aparentes perdas, j que as folhas quedadas iro compor o substrato fecundo de alimento para a nossa rvore individual.

Os celtas tm no eterno ciclo de vida-morte-vida a essncia de seus sistema de crenas, retratando essa concepo de mundo, mente, matria e esprito, em um dilogo com a poesia e a arte, por meio das gravuras muito adornadas com ns e traados.

Essa sinuosidade bem nos lembra as curvas de uma espiral, bem como a singeleza dos processos de mudanas, que, muitas vezes imperceptveis, vm tona para a conscincia apenas quando o adorno da espiral j "fez a sua dobra". Ao mesmo tempo em que processos so longos caminhos que podem se mostrar sutis, a tangncia de suas curvas, tal qual o triskle, quando se dobra sobre si mesmo, revela a infinitude de um devenir que, ao pender para si, finda sua existncia, mas revolve o incio de tudo, no caldeiro mgico de uma nova vida...

Como o adorno da folha, a espiral volta-se para o acolhedor tero, pois a dobra refora que somos, ao final, aprendizes de lies que s podem ser experienciadas a partir da constncia na roda do autoconhecimento, onde no existe, grosso modo, exaurimento e o retorno casa materna certo...

Tal qual o prenncio do triskle nas dobras mgicas, a rvore celta da vida (e por que no dizer tambm da morte?) expande-se, desde o solo, para atingir o devenir sagrado do desconhecido "para alm das fronteiras" do material, buscando compreender, nas sdhes milenares, os honrados caminhos dos guerreiros e das guerreiras dedicas, personagens centrais de todas as sagas celtas, que usualmente envolvem uma senda espiritual advinda de uma tarefa mgica, a ser executada em trs, sete ou nove etapas, marcada por muito sangue, dor e, ao final, a superao de si para que nossa herona ou nosso heri, sejam sagrados pessoas dignas de adentrar os mistrios acessveis apenas a quem conseguiu superar a si mesmo(a).

Nas razes de nossa rvore encontra-se o no nascido, o exsurgente em potncia de si, o ser que est germinado, latente, mas que ainda ir volver foras, alimentando-se do silncio da Terra e do sangue vital da gua (elementos femininos que acolhem e nutrem, assim como o tero, o lquido amnitico e o sangue do cordo umbilical), para que possa romper, ao final, as entranhas sagradas do alento que lhe deu acolhida nos dias em que esteve na solido do escuro.

Tudo calmo, silencioso e acalentador no bero sagrado, que nos protege das vicissitudes de mundo completamente desconhecido da superfcie. A vontade, claro, de permanecer acolhido(a) no suave colo da maternal Terra, pois o devenir traz a incerteza do percurso.

O grmen, porm, acalentado ad eternum nos braos de Dana, no vinga, pois toda semente que passa de seu momento no cumpre suas consecutivas etapas de romper a terra e se lanar. Ter cumprido sua sina? Ter desenvolvido seu destino?

E no sabemos, ao certo, mas, se a semente no brota - o que tambm perfeitamente comum - em outra sorte, e em outra forma, ela cumprir um destino honrado, j que servir de alimento para o cultivo do substrato orgnico que ir alimentar todo o grande jardim da nossa maravilhosa rvore da vida.

De uma maneira ou de outra, germinando ou no germinando, a semente ter cumprido seu papel, com a diferena, claro, na escolha que move seu caminho, uma vez que tal gotcula de ser pode - por fora da necessidade de sobreviver - clamar para si a fora para confrontar as barreiras que se lhe formam ao longo do caminho rumo ecloso de vida fora do tero. Ser a rvore e ser substrato, pois, na rvore da vida, meramente uma questo de perspectiva do que se pode escolher e viver, com resultados diferenciados, mas que, ao final, voltam sempre ideia de eterno ciclo, j que podemos, diuturnamente, ser sementes ou frondosos carvalhos...

Do entrelaado de vrios caules advm a confluncia de nossos vrios caminhos nessa linda rvore celta da vida. Todos os trilhares esto conectados, interligados e interdependentes, pois a copa s se sustenta quando o caule bem forte e firme. No caso da rvore celta, a copa alicerada por toda essa harmoniosa miscigenao de caules. No se trata de fuso, pois cada qual desponta em seu caminho. Ao final, contudo, na fora do tranado, ergue-se a firme corda, cuja trao o bastante para que a rvore suba, enfim, magnitude de seu destino.

A copa o divisor de mundos em nosso caminho de celticidade, pois, ao mesmo tempo em que encobre o cu, o sol e a lua - signos sagrados do desconhecido invisvel para a semente que est nas entranhas e o caule que est abaixo das folhas, conecta o organismo ao Todo, compartilhando, assim, os sagrados segredos que aparentemente se escondem por trs das folhas.

Afinal, as folhas quedadas ao solo, um dia, viram a abboda e penetraram, ali, na morada sacral dos deuses e das deusas, trazendo, assim, um pedacinho de cada um deles consigo, na mais completa transposio da noo de apartao para a percepo de que, de fato, somos UNOS! Na dimenso mtica celta inexiste religare, porquanto a vivncia no caminho dirio de uma austeridade conectada aos desgnios sagrados aponta para a superao da polaridade, bem como para o encontro da unidade consagrada nos andarilhos que se lanam na observao de si.

Nesses dias de intensa experienciao do sagrado contido em mim, conecto-me ao ciclo da rvore da vida, celebrando o advento das pequenas mortes em minha vida como renascimentos providenciais de novos arroubos de crescimento.

Eis-me, talvez, por horas, minutos, segundos - no importa, pois o tempo memria emocional vvida dentro do corao - no cumprimento eterno do caminho da semente, alimentando-me do que a Terra gentilmente oferta, de bom grado, e tentando crescer, em cada um dos impactos - ou talhos - que, no caminho, se apresentam para meu caule.

Cada vergalho leva a cicatriz que, ao final, apenas mostra que da morte exsurge a vida, assim como o na nobreza que brota da rvore celta da vida. Vivenciamos, pois, dias de morte, dias de luto e dias de renascimento e, com isso, despontamos, em cada momento, em passos - que ora damos larga, ora timidamente - em direo glria de apenas viver... J o bastante para que o corao se acalme e encha de plenitude e, com isso, nosso destino se perfaa, na sutileza de uma semente que, apesar de pequena e frgil, ergue-se, pouco a pouco, rumo grandiosidade do Infinito!

Hey ho!

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtbero.

Citao:
"Conectada aos mistrios da ancestralidade da terra."
Sagrados Segredos da Terra
www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com.br

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