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Equinócio de Outono

Enviado em 29/09/2012 (5660 leituras)

"Vamos aproveitar para brotar no outono,
Estar no outono da vida,
Na meia-idade,
Passar frias de outono em algum lugar.
Enfim... Precisamos outonear."
(Marta Felipe)


Diferente do que, geralmente, acontece em outras regies do Brasil ou do mundo, o Outono uma estao muito bem-vinda no norte brasileiro, e recebido com alegria, festas e alvio. Alvio porque finalmente o calor intenso e o sol massacrante comeam a ceder o lugar para as chuvas, o cu nublado e um clima mais ameno.

Mesmo que no tenhamos aquele cenrio clssico dos filmes e pinturas, das rvores amareladas, as folhas cadas formando um belo tapete no cho e o vento frio anunciando a proximidade do inverno, ainda assim amamos essa poca. Bem, pelo menos eu. No temos esse cenrio, mas temos as chuvas serenas, que pouco a pouco se intensificam, o cu nublado, que ainda assim no impede que a luminosidade e o calor do sol nos aqueam, e o friozinho gostoso que fica depois de uma madrugada de chuva. Sem muito calor, mas tambm sem o dia inteiro de chuva, o outono para ns representa o equilbrio. como se a natureza mostrasse-nos sua face mais calma, mais serena e madura, e como se esse seu aspecto nos chamasse para fazer um momento de pausa, reflexo e descanso.

E de fato fazemos essa pausa, o ms de setembro e principalmente o de outubro o ms que mais tem feriados no calendrio paraense, por causa do Crio (festa popular catlica em honra a N. Sra. de Nazar, padroeira do Par, dos pescadores e considerada senhora das guas). Por ser uma festa que mobiliza boa parte da populao chamada de o Natal Paraense, e tradio reunir a famlia em um almoo, cujo principal prato o pato no tucupi, na casa do parente mais velho, geralmente a matriarca da famlia.

Essa festa popular lembra um pouco o Dia de Ao de Graas, comemorado nos EUA em novembro e no Canad em outubro e que, por sua vez, recorda os banquetes dos povos de outrora da antiga Europa em comemorao a poca da colheita. Essas festas coincidem com o perodo do outono, que para as populaes antigas e agrrias o momento da grande colheita e representa fartura da Terra, a maturidade da Natureza, o recolhimento e descanso depois de longo tempo de plantio e cuidado com a terra, aspectos esses que se refletem nos seres humanos. O outono a maturidade no apenas da natureza, mas tambm dos humanos (macro e microcosmos). um tempo de, sobretudo, agradecimento pela fartura da Terra e pelas bnos alcanadas ao longo do ano.

O Equincio de Outono era largamente celebrado pelos povos antigos (e ainda o hoje, mas claro, no da mesma forma). Na Anatlia ocorriam festas em honra a Cibele; na Grcia e outras regies eram realizados os ritos eleusianos ou os mistrios de Elusis, em honra a Demter e Persfone; em Roma era comemorado o festival de Ceres, deusa dos gros e da agricultura; na Lusitnia cltica (em especial na regio da Galcia) realizavam-se ritos para Nbia e tambm para Aetegina; na Irlanda o Equincio de Outono era a ampliao e finalizao das festas de Lnasa, dedicados a Lugh e Tailtiu; na Esccia, o ltimo feixe de gros era ceifado de formas ritualsticas e amarrado em uma figura de palha que seria chamada de Rainha da Colheita e estaria repleta de poder fertilizador.

Na Irlanda h um monumento neoltico, o Loughcrew (que tive a ddiva de conhecer em julho deste ano) que existe desde 5000 anos antes de nossa era e conhecido no s por sua beleza (pois fica no cume de uma grande colina) e complexidade, mas tambm por estar intimamente relacionado aos Equincios de Primavera e Outono.


H um desenho, um smbolo (dentre muitos outros) esculpido na pedra central de Loughcrew que se assemelha a uma roda do Sol, e lembra a roda de uma carruagem. Esse smbolo aparece em vrias pedras do interior desse monumento, mas os que esto na pedra central, e h quatro desenhados ali, so particularmente especiais, pois nos dias 23 de maro e 23 de setembro eles so exatamente iluminados pelo sol no instante em que ele nasce. Nesses dias equinociais a luz do Sol, ao entrar na tumba, forma um quadrado nessa pedra, iluminando desenhos especficos que, infelizmente, hoje no sabemos o significado que eles trazem e medida que o Sol vai subindo no cu, sua luz vai fazendo um percurso na pedra central at, finalmente, sumir.


Rodas do sol e outros smbolos na pedra central de Loughcrew.


Sol iluminando a pedra central no Equincio da Primavera, em maro de 2005.
Fonte: www.knowth.com


Sol iluminando a pedra central no Equincio de Outono, setembro de 2011.
Fonte: Loughcrew Equinox - 22nd Sep 2011

Esses eventos to marcantes em Loughcrew s podem nos confirmar uma coisa: que os Equincios, definitivamente, tinham grande importncia para os povos da Idade da Pedra na Irlanda e muito provavelmente, tambm, para os povos na Idade do Ferro, os Celtas que entraram em contato com esses primeiros povos, influenciaram-nos e com certeza foram influenciados por eles.

Em vrias regies do mundo cltico, como a Esccia, Gales e a Cornualha, o ltimo feixe da colheita que era ceifado reunia em si um grande poder da Deusa Terra. Alex Kondratiev, em "The Apple Branch", descreve alguns costumes tradicionais relacionados ao Outono ou a ltima Colheita. Transcrevo aqui alguns trechos que so muito interessantes sobre os ritos e festas outonais:

Ento, o ltimo feixe era pregado a uma figura, um boneco de milho, representando o esprito que era planejado a morar. Este era, frequentemente, um animal, fortemente associado com a Deusa da Terra a lebre, que poderia se esconder entre os gros, era um animal favorito, bvio. Na Cornualha ocidental o ltimo Feixe ou pescoo era chamado de "penn-yar" (o pescoo da galinha). Mas em Gales a transformao da Deusa em uma gua era um tema to importante e bem conhecido que a figura feita do ltimo feixe era chamada "caseg fedi" (colheita da gua). Quando a boneca era uma figura humana, ela sempre era a representao da Deusa-Terra, como um agente da fertilidade ou da seca. Em partes da Esccia os dois aspectos eram muito claramente diferenciados: se a colheita era julgada como uma boa colheita, a figura era dita como sendo de uma mulher jovem (a Rainha da Colheita, a Deusa como um ser frtil e amigvel), mas se a colheita tinha sido ruim, a boneca era chamada Cailleach (a velha infrtil, hostil s necessidades humanas). A maioria das comunidades mantinham a figura por um ano inteiro, queimando-a ritualmente na concluso da colheita seguinte, to logo a nova boneca havia sido feita. Nesse meio tempo, ela seria guardada em um espao significantemente relacionado com a terceira funo: numa rvore (retornando parcialmente, para a Terra), em uma cozinha, na igreja (onde os instrumentos de colheita eram abenoados), ou entre o estoque de semente que era mantido para ser semeado na primavera seguinte, onde era esperado que fosse ensinar aos novos gros o poder do crescimento, passando para alguns deles a sua essncia.

(...)

A concluso da colheita do gro era celebrada com uma festa na comunidade, o ancestral das festas da colheita domstica - que ainda subsiste em reas rurais, normalmente, como atos de agradecimento sob o auspcio da parquia. Na Cornualha isso era chamado de "Goeldheys" ou Festa das pilhas de palha. A boneca de milho, originalmente, presidia nestas festas como um convidado de honra. Em vrias comunidades as cenouras - porque elas eram juntadas neste tempo - caracterizavam proeminentes como um ritual de comida; e na Esccia sua aparncia flica era invocada em magia de fertilidade, conforme as mulheres as desenterravam com espadas (associadas com simbolismo vaginal) enquanto cantavam:

Torcan torrach, torcan torrach
Sonas curran corr orm!
Micheal mil a bhi dham chonuil
Brde gheal dham chmhnadh.
Piseach linn gach piseach,
Piseach dha mo bhroinn;
Piseach linn gach piseach,
Piseach dha mo chloinn!

Frtil fenda, frtil fenda
Que a boa fortuna das cenouras pontudas esteja sobre mim!
Bravo Michael [i.e. Lugh] vai me doar,
Brilhante Brigit ir me ajudar.
O aumento de uma gerao seja cada aumento,
Aumento para meu tero,
Aumento de uma gerao seja cada aumento,
Aumento para minhas crianas!

(...)

Depois do recolhimento da colheita o ano pode ser dito como vindo para seu prprio "clabhsr" (encerramento), tanto em termos da relao da Tribo/Terra no ciclo agrcola quanto em termos do ciclo "samos/giamos" dentro da Terra. Com o equincio a escurido, novamente, ganha o controle, a energia "giamos" fica ainda mais proeminente nos ritmos dirios do mundo natural e as energias da Tribo humana, devem lutar para se realinharem com a mudana da ordem das coisas. O prprio ato de recolhimento, de se voltar para o interior a caracterstica principal do "giamos" (como oposto qualidade expansiva e mudana externa de "samos"), e uma vez as atividades de coleta e armazenamento da colheita tenha sido completada, a estao da escurido pode se estabelecer completamente, presenteando o mundo com um perodo necessrio de inao, contemplao e descanso.

Alm desses temas simblicos, havia outro muito presente em alguns costumes mencionado em mitos celtas a disputa do rei do vero com o rei do inverno pela unio da rainha da primavera ou a Deusa-Terra. Em outras palavras, era a peleja entre o inverno e o vero pela primavera, que dependendo da estao, ou do momento da Roda do Ano, um ou outro saa vencedor. Os equincios so conhecidos pelo equilbrio (em termos de durao) do dia e da noite e, simbolicamente, entre o vero e o inverno, mas passado o momento de equilbrio um ou outro ganhar mais durao e intensidade com o passar dos dias. No caso, a partir do equincio de outono, a noite (e o inverno) ser mais longa do que o dia. E a partir da primavera, ocorrer o contrrio. Claro, isso pensando no contexto dos pases clticos ou em lugares onde as quatro estaes, de fato, so definidas, o que no o nosso caso (que moramos no norte do Brasil). Mas era - e - dessa forma que os celtas compreendiam e - o mais importante - honravam a natureza e o desenrolar de seus ciclos.

Na regio norte a durao entre o dia e a noite no se altera ao longo do ano, mas evidente a mudana do clima. De maro a setembro o calor e o sol reina. o perodo que chamamos aqui de Vero Amaznico. E nos outros meses a chuva e o tempo quase sempre nublado que domina, sendo portanto, o Inverno Amaznico.

A batalha entre o Rei Azevinho (inverno) e o Rei Carvalho (vero), disputando pela soberania na natureza, ou entre Gwynn e Gwythyr, disputando pelo amor de Creudiladd, ou ainda entre Brde e Beira*, disputando pelo reinado e o amor do sempre jovem Aengus (o Sol), encarnam um tema mtico muito significativo relacionado a mudana das estaes e ao ciclo anual (a Roda do Ano). Por essa razo, acredito que esse tema tambm deva estar presente em um rito de celebrao de equincio.

Pontuando o que escrevemos at aqui, sugiro trs aspectos que devem estar presentes, de alguma forma, em um rito de Outono.

1. Agradecimento Me Terra pela colheita: ou seja, por todas as coisas boas que te aconteceram ao longo do ano, pelos frutos, simbolicamente falando, colhidos e pelos aprendizados adquiridos.

2.Um banquete: tendo como convidada de honra a Rainha da Colheita, que pode estar representada em uma boneca de palha (ou feita com razes de patchouli, muito encontrada em feiras de artesanato em Belm), e que no prximo outono, ser queimada e uma nova dever ser confeccionada ou adquirida (representando o fim de uma colheita-ciclo e incio de outra).

3. A disputa entre o Inverno e o Vero: sendo que a vitria ser do Inverno ( interessante que esse mesmo tema tambm ocorra no equincio da primavera, e nesse caso, a vitria ser do Vero). Duas pessoas podem represent-los e fazerem uma dramatizao da batalha. Se houver uma terceira pessoa, preferivelmente, do sexo feminino, ela poder representar a Deusa-Terra, a Soberania, que entra em cena no pice da batalha e presenteia o Inverno com uma ddiva (pode ser uma espada, ou uma coroa de folhas secas tpicas da poca, um cetro ou cajado, ou um simples toque, que simboliza a sua escolha), que dar fora e o ajudar na vitria sobre o Vero. Para dar um aspecto mais regionalista, as duas pessoas podem ser denominadas: o Sol e a Chuva, que corresponderia ao Vero (Rei Carvalho, Gwythyr ou Brde) e ao Inverno (Rei Azevinho, Gwynn ou Cailleach), respectivamente, tendo em vista que Sol e Chuva so atores marcantes em nossa regio amaznica e, constantemente, esto em dana de guerra ao longo de todo o ano.


Rei Azevinho | Rei Carvalho

Bom, essas sugestes podem ser obviamente adaptadas para cada contexto e realidade. Pode funcionar muito bem em um grupo drudico ou pago cltico, mas com algumas modificaes. Pode ser que tambm funcione em uma celebrao individual. A vai depender de sua vontade e criatividade. Espero que essas sugestes e esse texto tenham lhe inspirado de alguma forma, caso voc utilize algumas ideias aqui expostas para sua celebrao de equincio, depois me conte como foi!

No mais, desejo um Feliz Outono ou Primavera (para quem est na Roda Sul) para todos!

* Mitologia escocesa: Deusas que disputam pela soberania e de certa forma pelo amor de Aengus, o Sol. Para saber mais, leia: Wonder tales from scottish myths and lengends - Donald Alexander Mackenzie, disponvel em: www.sacred-texts.com

Sobre Loughcrew, acesse:
Loughcrew Spring Equinox 2005
Loughcrew Equinox - 22nd Sep 2011

Por Mayra n Brighid
Sonhadora, amante de msica, poesia, cultura e mitologia Celta. Nascida em terras amaznicas, na cidade beira do rio (Belm), mas com a alma cuja raiz remonta as terras clticas, alm-mar.

Citao:
"Druidismo, cultura celta e espiritualidade feminina."
O EnCanto do Cisne
http://encantodocisne.blogspot.com

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