Início Login     

Vivenciando o Sagrado nos caminhos da prática solitária

Enviado em 01/12/2008 (4845 leituras)

As primeiras palavras de um escrito so um comeo. Disso ningum duvida, at mesmo porque, antes das letras, fisicamente no existe artigo. Mas, poucas e afortunadas almas sensveis indagam sobre a anterioridade do que se concretizou nas letras justapostas, trazendo o brotamento e a exploso do rico e denso contedo da alma de quem est imantando de sua mente o que escreve.

O que est por trs disso tudo verdadeiramente mais importante, tanto para quem escreve - autntica doao de suas entranhas - como, tambm, para quem, de alguma forma, procura absorver a delicadeza transmutada em prosa, verso, conto ou relato. No seria exagero afirmar ser o caminho solitrio do escritor at a concretizao na aparncia do real mundo fsico o mais importante, por conta das marcas que agregam o esprito e que podem ser partilhadas com quem se encontra tambm na busca.

Assim sendo, no importa o fsico paginado na grotesca bidimensionalidade achatadora da alma porque na invisibilidade do mundo etreo que a vida se processa. Tamanha riqueza e complexidade, lente alguma pode desnudar, pois, como diria Exupry, o s se v bem com o corao, o essencial invisvel aos olhos.

O caminho do corao a linguagem mais perfeita para a traduo dos anseios da alma e do esprito, no podendo ser substitudo pelos labirintos de uma racionalidade tortuosa que, no suspiro pelo domnio e poder, empacotou milnios de conhecimento intuitivo em frmulas mgicas, designadora de possveis rascunhos que um Ser Superior utilizou em Sua aquarela criadora.

Qual , portanto, o ato divino de gnese, a mais pura demonstrao de arbtrio criador a dar origem s nossas conversas? Por que, dentre tantas opes, iniciei buscando razes, justificativas para algo to aparentemente bvio? No seria mais fcil revelar detalhes tcnicos, dados objetivos, ou, ainda, apelar para o aveludado era uma vez?

Simples. Porque esse artigo j teve vrios incios, todos rapidamente apagados da memria do computador, por no representarem o que minha alma busca incessantemente: recolhimento de fragmentos e reminiscncias, ao longo de um percurso repleto de cores, amores e dores. Dentro do recolhimento feito em anos e anos de vivncia pude, finalmente, colocar num papel toda a incandescente flmula de experimentao, em vrios nveis, do caminho no Sagrado Feminino.

Fui de um ceticismo cego at a mais pura demonstrao de misoginia travestida de paganismo proselitista, coberto de dogmas, para mergulhar em mim e na intensidade do que significa o viver a Bruxaria, e no reproduzi-la em receitas ritualsticas.

Por isso, no tenho pretenso de recolher almas, ceifar squitos, ou, ainda, retirar das livrarias cifras mercadolgicas. Tambm no tenho a menor inteno de fazer um tratado em auto-ajuda, talvez porque no saiba, ainda, o que auto e ajuda poderiam significar para outra pessoa, que no para mim! Muito menos almejo virar autora de um best seller, pois meu propsito, at aqui, muito mais simples: escrever para quem, de alguma forma, sente-se identificado com as marcas em meu caminho.

Portanto, se voc estiver esperando uma frmula completa e fechada de acesso felicidade - miraculosa anestesia para as desventuras de todas as almas perdidas - aconselho a fechar imediatamente esse artigo: esses escritos no servem para voc, pois no quero ou posso ajud-lo. Meu compromisso limita-se a repartir a curiosidade que envolve a mente para algumas questes sobre a vida, os mitos e os discursos que esto em nossas vidas h tempos e que tentaram, a todo custo, aniquilar a sacralidade do feminino.

No caminho de lembranas dessa vida, aportei no dia 27 de maro de 1973, prximo a Mabon, tendo como ascendente ries, Sol neste mesmo signo, na casa 12, para onde vai tambm minha Vnus, tambm em ries.

Desde cedo ouvia minha querida me numa mgica conversa com as plantas e os animais, percebendo na intrnseca conexo com a Natureza o engate para um revelador mundo sistmico de reciprocidade e implicaes mtuas de causa e efeito, tal qual intuiu Fritjof Capra em sua vasta bibliografia.

Percebo e vivencio o Sagrado Feminino como herana do que foi violentamente retirado pelo sopro conquistador de um astuto poder patriarcal, mas que foi salvo, de alguma maneira, pela transmisso hereditria de prticas, transformadas em histrias, mitos e fbulas.

Tambm partilho a idia que o pensamento avassalador guiou o Imprio Romano ao aniquilamento das antigas culturas antigas, estando tambm presente no decorrer de todo o processo de monoplio de conhecimento produzido at a Idade Mdia, encerrando tudo em seus monastrios e encaminhando os questionadores s chamas das fogueiras.

Eis o motivo essencial da ligao entre o resgate da Antiga Religio e a contestao de uma estrutura de poder intolerante, violento e perseguidor, j que este trouxe, ao longo de nosso passado histrico e espiritual, inmeras demonstraes de mentiras e impropriedades que precisam ser desnudadas no terceiro milnio, sob pena de continuarmos na ignorncia e no preconceito.

Faz sentido, agora, a ausncia de pretenso quanto ao dogma? Busco reformular em minha mente sucateada de posturas, os pensamentos e as valoraes da vida e da realidade, num suceder geracional que se preocupa em pesquisar suas origens. Esse tem sido meu caminho: a busca de uma identidade, a partir das reminiscncias gravadas do inconsciente coletivo para minha parcela de existncia.

Sempre permaneci um pouco alheia quilo que se definiu como realidade [1], pois alm de ser filha nica e ter construdo um mundo excntrico e particular, apreciava viver isolada de meus colegas na escola, pois as brincadeiras no me interessavam muito. Gostava de brincar com alquimia e magia, enquanto a meninada
ficava na clssica queimada.

O contato com o universo simblico mgico veio cedo. Minha av, a matriarca do cl, levava-me para brincar com umas coleguinhas na casa de uma vizinha como uma vida muito, muito peculiar. Logo na entrada da casa, havia um corredor, embaixo de um tnel de plantas, uma espcie de caramancho.

O jardim de dona Maju[2] tinha uma coletnea das mais belas e diversificadas plantas e flores, todas com um colorido espetacular, completado por anes de loua no centro. Eu achava o mximo, principalmente por no ver a chata da Branca de Neve por l!

A porta de entrada da casa ostentava um sino dos ventos a tilintar, anunciando o interior de um aquecido lar, algo to surpreendente, que as lembranas ainda agora me so ntidas, mesmo depois de 30 anos j passados! Basta fechar os olhos para a cena retornar ao meu corao com nitidez solar.

Ao fundo havia uma sala de jantar, separada do restante do ambiente por uma cortina de miangas de conchinhas. A parede desta sala era feita de pedra, encerrando, logo atrs, uma lareira a ostentar um grande corno de cervo! Ai, ai, so descries que nunca esquecerei.

Ah, e tinha mais! Desta sala partia uma porta lateral que desembocava num mini-jardim com musgos, plantas, trepadeiras e um sapo deitado prximo a uma escadinha que nos levava para uma laje, para tomar sol.

Deleitava-me neste imenso palcio de poder com meus amiguinhos, em brincadeiras que no poderiam ser diferentes do ambiente, pois viajvamos para outros mundos, sentindo e enxergando realidades que adulto algum seria capaz de entender.

Estvamos, num momento, na Grcia, danando com Terpscore, a semideusa ou musa - grega da dana; em outro, numa fazenda. Nossas bicicletas de rodinhas eram motos, cavalos, naves espaciais. A casa era um portal dimensional que nos levava para terras longnquas, cujo retorno somente era possvel quando nossas avs chamavam-nos para as refeies. Como explicar esse toque inventivo? Mgica.

Tudo isso era pactuado com minha adorvel me, pois, afinal, era ela quem mais me estimulava nessa vida. Sou-lhe muito grata por ter me proporcionado uma infncia livre, e uma vida igualmente livre, por meio da conscientizao quanto s responsabilidades!

Pois bem. Voc acredita que ela at me vestiu de Princesa? Em pleno Ostara! Lembro-me da fantasia: uma saia de tule branco, com apliques de fores coloridas, feitas por ela, de papel crepom. Na cabea, um adorno com essas mesmas flores. Achei legal, pois todo mundo vestido da fadinha e eu, super diferente, de Princesa da Primavera!

Poderia gastar ainda mais palavras falando sobre todas essas histrias que servem de fundamentao da minha herana, mas acho que o livro no teria mais espao para outros assuntos igualmente interessantes. Eis o motivo pelo qual falarei logo do download aos dezesseis anos, que fez com que eu me voltasse para a Arte.

Havia, sem xito, tentado freqentar cultos e reunies de algumas religies, vindo a insatisfao com a ausncia de respostas e o simplrio maniquesmo de se dividir tudo e todos em conceitos to banais de bem e mal[3], catlogos perigosos e eugensicos, ambos definidores do destino de quem rotulado.

Um belo dia estava a contemplar uma agenda presenteada por um amigo egpcio de minha me, quando fui arrebatada por uma tremenda vontade de escrever. Quando terminei, simplesmente havia registrado a estrutura de um coven completo, composto por graus e hierarquia: primeira sacerdotisa, segunda sacerdotisa, sacerdote, rainha e rei!

Decidi, ento, chamar minhas vizinhas para iniciarmos nossa sociedade secreta! Claro que no deu certo, pois as jovens meninas acharam minhas idias muito malucas, e acabaram no dando qualquer credibilidade. Hoje, depois de muito tempo, vim a compreender que aquele toque do Universo foi direcionado apenas para mim, no havendo qualquer sentido para outras pessoas. Segui, ento,
sozinha, o trilhar.

Tempos depois, fui aprovada no vestibular de Fsica, pois desejava ser
astrofsica e contemplar os astros e a Lua. Na Universidade, meu pensamento voou longe.

Penso ter cursado o suficiente da Fsica para descobrir em Albert Einstein um grande Iniciado, em Fritjof Capra um vanguardista e em David Bohn um revolucionrio.

Quando percebi outros vos possveis, mudei para o Direito. Pxa, voc poderia dizer, o que tem a ver o Direito com a Fsica?

Ah, por favor! No toa que tudo que tem sido at aqui exposto veio de toda uma histria de vida pregressa essencialmente mgica! No desejo ficar explicando em termos lgico-racionais o que est alm deste vu de iluso que insistimos em colocar em nossas frontes!

o sentir que verdadeiramente importa. Sentir com cada elemento que compe nossa imensa cadeia interacional, tanto em nvel subatmico, com, tambm, em termos cosmognicos!

Vivencio hoje a prtica solitria, pois minha querida me reside em outra cidade. Tentei participar de grupos, ou, ainda, de encontros em torno de egrgoras[4], celebrando a Lua Cheia, mas minha veia lupina sempre me encaminhou para o retiro e recolhimento.

Cheguei a conhecer alguns grupos interessantes, com pessoas adorveis, mas nunca permaneci muito tempo em coletividade, porque a sensibilidade em relao ao Sagrado veio apenas a partir do exato instante em que vivenciei a experincia sozinha, ouvindo a vibrao de cada partcula do meu corpo.

Sinto o caminho solitrio como uma via muito interessante de senda conectiva aos mistrios da Natureza e do Saber. No afirmo isso porque me encontro na solitude, mas por extrair do aprendizado por tentativa e erro a necessidade de escutar os anseios do corao, pois a alma canta melhor na calmaria do esprito que foca sua essncia. Dessa maneira, no de fora para dentro que se revelam os
mistrios antigos, mas, antes, da pulsao do que vem do fundo de nossa natureza que o Universo se revela.

No seria prepotente de afirmar que o caminho assim, parecido com uma experincia no laboratrio do Dr. Maluco, porque no tomo a Natureza como objeto de estudo num sistema em que o controle dos dados est ao meu jugo! Ao contrrio, neste cenrio, antes da pesquisa exgena, o que procurei fazer foi construir as bases do caminho, a partir da auto-reflexo integrada ao Todo. A Natureza? Mestra, claro.

Resumindo: no conheo a verdade, no gosto de estruturar uma sistematizao do pensamento, no obrigarei os leitores a seguir meus ritmos e ritos, pois a conscincia quanto ao arbtrio e manipulao impedem-me de agir de outra maneira.

Apenas desejo uma boa leitura que pode ser feita na varanda ou em outro lugar aprazvel, com uma boa xcara de chocolate quente com canela e cravo!!! O Sagrado Feminino e a bruxaria so o extraordinrio contido nas singelas mincias da vida, o pedao mgico soterrado nos aspectos abscnditos do inconsciente primitivo de um mundo que est carente de contato com a Natureza de que parte integrante.

Neste sentido, peguei meus grimrios sagrados e escrevi tudo que experimentei e vivenciei dentro do caminho em que sempre estive. O resultado estar disposto nas conversas seguintes, que espero serem de grande valia para os que procuram respostas.

Assim, a solitude apenas aparente, porque advm, logo a seguir, a profuso da completude, que exatamente a (re)conexo ao Universo, eterno bero de nossas trajetrias!

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtbero.

Citao:
"Conectada aos mistrios da ancestralidade da terra."
Sagrados Segredos da Terra
www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com.br

Para ler os artigos de Audrey Donelle Errin, clique aqui.


[1] Ao falar de realidade, refiro-me estrutura que nossos sentidos fsicos depreendem estado de percepo. A integralidade do viver, contudo, no se limita delimitao corprea, pois o Universo interacionalperpassa nossos invlucros, para abranger uma srie incognoscvel de dimenses.

[2] Dona Maju para preservar a identidade de minha querida e doce senhora, envolta em suas batas e vestidos indianos, ostentando uma longa piteira!

[3] Claro que no desconsidero ou desrespeito as religies que me dispus a estudar. Igualmente no desconheo uma existncia dual de mundo. Questiono a maneira simplista de reducionismo com que certas verdades so apenas transmitidas, de maneira dogmtica e pouco intuitiva, em relao a como o
Universo delimita todo um sistema de foras e de energia.

[4] O que so egrgoras? Acho que a egrgora a atmosfera psquica que se d como resultado de aglutinao de idias-fora, motivadoras de uma massa, ou melhor, de uma projeo resultante de pensamento ou de voluntariedade projetada.
Direitos Autorais

A violao de direitos autorais crime: Lei Federal n 9.610, de 19.02.98. Ao compartilhar um artigo, cite a fonte e o autor. Todos os direitos reservados ao site Templo de Avalon : Caer Siddi e seus autores. Referncias bibliogrficas e endereos de sites consultados na pesquisa, clique aqui.

"Três velas que iluminam a escuridão:
Verdade, Natureza e Conhecimento." Tríade irlandesa.

Go raibh maith agat... Obrigada!
Rowena A. Senėwėen