Início Login     

Macha: a Deusa Celta dos Cavalos

Enviado em 29/12/2008 (12351 leituras)

Embalava-me na rede da varanda, contemplando o rosceo cu de um pr-do-sol tpico de cerrado, quando, num desses sbitos relances que a memria astral traz ao corao, veio tona o momento em que montei a cavalo, pela primeira vez, aos quatro anos.

Foi em uma estncia da famlia no Sul do pas, localizada bem no corao do pampa, onde moramos por dois anos. A proximidade com a Natureza veio cedo em minha vida, porque passei parte dela observando a tosa das ovelhas, ou, ainda, brincando com galinhas, gansos e patos. Por conta de toda essa afinidade com Dana desenvolveu-se em nosso cl grande paixo e respeito devocional por cavalos, que reinavam soberanos nos campos verdes cobertos pelo fino trigo dourado que danava ao som do Minuano.

O nome da minha amiga era Tobiana: alva como a mais pura nuvem despretensiosa, a gua era um doce, mesmo ciente de todo seu poder. Quando me aproximava dela, Tobiana, imponente, deixava-se acarinhar, roando seu focinho em minhas mos e repartindo comigo um torro de acar.

Enquanto galopvamos, o cuidado com que a amiga me conduzia trazia segurana e conforto, pois, no auge das passadas largas que deixavam para trs as serras que se preparavam para o inverno - a maciez do galopar denunciava a proteo com que ela me cercava. Jamais esqueci os momentos maravilhosos que passei ao lado dela, pois sentia ali uma forte amizade, que me acompanhou por muitos e muitos anos!

Hoje percebo e sou muito grata amiga gentil as lies que a convivncia com Tobiana trouxe para mim. A maior delas, talvez, seja o respeito Soberania Sagrada, atributo que um cavalo ostenta como nenhum outro ser, e que, no raro, to esquecido por ns, Mulheres maravilhosas de Anu! Tobiana foi, e sempre ser - no universo da roda de minha vida - a expresso maior de desprendimento e liberdade devotada aos mistrios da Natureza reinante, fluindo na memria como a brisa forte do Minuano a percorrer, de ponta a ponta, os meldicos pastos do Sul.

Com essa lembrana ainda bem vvida, gostaria de compartilhar a bela histria de Macha, a Deusa-Rainha celta dos cavalos: uma narrativa repleta de ensinamentos para todos ns, j que envolve amor, cumplicidade, Soberania, confiana e poder.

No meio das andanas pela mitologia celta irlandesa, Macha desponta como uma complexa Deusa, a comear pelo fato do Leabhar Gbala ireann apontar uma tripla identidade na Rainha eqina. Isso, sem deixar de mencionar o fato de ser Macha componente essencial de outra lista trplice de entidades mticas, Mrrgan e Badb, confirmando o significado do triskle para a cultura celta, em termos de respeito ao simbolismo da Trindade (vida-morte-vida) anteriormente mencionada.

Eis, portanto, uma entidade complexa, dotada de mltiplas caractersticas e egrgoras contidas nas trs personalidades, arquetpicas: a primeira Macha a esposa do invasor Nemed, heri descrito no Lebor Gabla; a segunda, conhecida como Mong Ruadh (cabelos ruivos), a viva de um rei de Ulster, viajou para a Provncia rival de Connacht disfarada de lebre. A terceira traz um deleite especial: a histria da prpria Deusa encarnada que desposou Crunniuc Mac Agnomain.

Eis o mito...

Em um passado remoto, cuja beleza transmitida por geraes e geraes que atravessam o ciclo dos tempos, viveu na Irlanda setentrional Crunniuc Mac Agnomain, um rico senhor de terras, pai de quatro filhos desolado pela morte da esposa. A vida, para ele, havia perdido muito do sentido, do colorido, e - sobretudo para um celta - da poesia.

Com o vazio ocupando o lugar do corao pulstil da alma enamorada de outrora, Crunniuc deixou mngua suas terras e sua morada: parte do gado definhou e morreu, quase toda a plantao secou e quedou estril e o antigo lar do casal passou a abrigar apenas uma fantasmagrica sombra do que foi, em algum longnquo momento, o espelho da luz e do amor que embalava o jovem casal.

Em um final de tarde - quando o Sol acena um adeus descomprometido - Crunniuc, sentado em frente sua casa, observou a aproximao da figura de uma formosa mulher, despontando no horizonte e estampando os cus com suas voluptuosas curvas. O agricultor j no conseguia mais discernir se a luz que vinha por trs da mulher era um feixe reticente do astro-Rei, ou se era o maravilhoso cabelo vermelho que adornava, em cachos, a cintura da maravilhosa figura: no importava, porque, ao final, sentia em seu peito ora, quem diria! Enamorado outra vez! - o retumbante pulsar da paixo.

A exuberante mulher silenciosamente se aproximou de Crunniuc, selando a comunicao com o vazio das palavras: a ternura e o sentimento eram, ali, naquele momento, a linguagem entre eles. Ela adentrou o lar e, numa familiaridade fora do comum, imediatamente comeou a colocar tudo na ordem em que se encontrava antes, quando ali ainda habitava uma alma feminina.

Com muita calma, pacincia e humildade, a mulher dirigiu-se at o canto da cozinha, pegou a vassoura que ali se prostrava coberta pelo p da falta de uso e comeou a limpar o local. Varreu, varreu, varreu e, de tanto varrer, baniu todo o passado que insistia em assombrar a alma solitria de Crunniuc.

Depois de tudo limpo, brilhante e revigorado, a bela ruiva acendeu o corao da casa e preparou o mais suculento jantar nunca antes degustado na Terra de Ulster. Crunniuc se fartava, ainda sem entender direito o que estava acontecendo. Satisfeito aps o banquete de rei, Crunniuc deixou-se conduzir pela mulher at o quarto. Ele se deitou na cama e a mulher, aps dar uma volta completa em torno da cama, selou, ao final, com Crunniuc, o encontro sagrado da deusa com o mortal.

Crunniuc prosperou como nunca... Os campos verdejavam ao som da melodia harmoniosa que a mulher entoava em seus cantos ancestrais. O gado, outrora magro e estril, agora reproduzia o que a bela ruiva trouxera quele homem: o esplendor da fecundidade, presente na barriga proeminente de cada animal das terras de Crunniuc. O imprio de sombras e trevas, enfim, cedeu espao luminosidade que cingia a mulher e tudo que ela tocava.

A roda do ano girou na espiral do tempo de Crunniuc e, com isso, a felicidade se estabeleceu em cada pedao de cho naquela morada entre-mundos. Ele nunca indagou da formosa mulher sua origem, bem como jamais questionou o que ela fazia ali. Apenas amou. Amou e confiou naquela silenciosa mulher, depositando ali seu nobre corao. Com isso, foi feliz, fez-se feliz, sentiu-se feliz e, coroando a felicidade, eis que a formosa mulher dos cabelos cor-de-fogo trouxe a Lua para seu ventre, brindando Crunniuc com a alegria de, dali a nove ciclos de lunao, ser pai.

Algum tempo depois, boas novas chegaram ao reino de Ulster, pois o rei convidara todos para um festejo do Rei Conchobar, no Condado de Armagh. Crunniuc prontamente respondeu ao chamado, sendo advertido por sua mulher: Voc falar sobre ns durante as festividades e isso trar infortnio para nossa morada. No v. O fazendeiro insistiu - No proferirei uma s palavra e, com isso, vestiu seu mais belo traje e se dirigiu ao festival.

Chegando l, Crunniuc admirou-se diante da fartura e da riqueza coroando o refinado cntico dos bardos do Rei Conchobar. Contente por estar ali, Crunniuc, sem perceber, ficou embriagado. Ao escutar uma estrofe do trovador a respeito da velocidade dos cavalos do monarca Nunca antes foram vistos cavalos como esses. No h em toda Irlanda animais mais rpidos que os cavalos do rei! Crunniuc antecipou-se e afirmou: Minha esposa mais rpida! e, com essas palavras saindo ainda intrpidas de sua boca, foi levado presena do rei.

Prendam-no e tragam minha presena a esposa, para que confirme o que esse homem acabou de dizer- ordenou Conchobar aos mensageiros, que rapidamente dirigiram-se casa de Crunniuc, encontrando a esposa no estgio final de gestao. Ele falou levianamente afirmou a mulher Como podem ver, no posso ir com vocs porque estou prestes a dar luz, explicou aos mensageiros. Se a senhora no vier conosco seu marido ser um homem morto advertiu um dos mensageiros. Ouvindo isso, a esposa de Crunniuc no teve escolha: buscou seu casaco e foi ter com o Rei do Ulster.

Chegando ao festival, a jovem senhora de cabelos ruivos foi um espetculo parte, por conta da proeminncia de seu ventre. Gargalhadas encheram o local de sons estrondosos, que assustaram a esposa de Crunniuc. Constrangida, humilhada e ameaada, ela suplicou: No posso correr nesse estado! Os senhores devem ter me, por favor, tenham clemncia!. Conchobar, impiedoso, desprezou completamente o pedido desesperado da mulher, ordenando aos soldados que trouxessem os cavalos, bem como Crunniuc, para que assistisse corrida.

J sentindo as dores do parto, a mulher colocou-se em posio de corrida e, to logo foi dada a largada, no foi difcil para ela sair na dianteira, mantendo essa posio at o final da corrida: Crunniuc estava, com isso, salvo da morte iminente.

Logo que cruzou a linha de chegada, a esposa de Crunniuc entoou um lacerante grito de dor, ouvido por todos no Ulster, colocando-se em trabalho de parto e dando luz gmeos. Ainda entorpecida pela dor, a mulher reuniu suas foras, voltando-se para todos, em altos brados: Desse dia em diante, durante cinco dias e cinco noites , por nove geraes, nos momentos em que todos os guerreiros do Ulster mais precisarem de suas foras, todos sero cometidos pelas mesmas dores de meu parto , pois Eu sou Macha, filha de Sainrith Mac Imaith , e para enaltecer meu nome, esse lugar ser chamado, para sempre, de main Macha .

Dizendo isso, a Deusa retirou-se do local, levando seus filhos e deixando todos os convidados atnitos com a revelao de sua identidade. Crunniuc nunca mais viu a Deusa ou os filhos, voltando, desolado, para suas terras, que nunca mais, a partir daquele momento, seriam prsperas como outrora foram, quando Macha l habitava, trazendo luz e prosperidade ao lar e ao corao do fazendeiro.

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtbero.

Citao:
"Conectada aos mistrios da ancestralidade da terra."
Sagrados Segredos da Terra
www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com.br

Para ler os artigos de Audrey Donelle Errin, clique aqui.


Referncias bibliogrficas:

BIERLEIN, J. F. Mitos Paralelos. Trad. Pedro Ribeiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.
CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. So Paulo: Editora Palas Athena, 1990.
CLMENT, Catherine, KRISTEVA, Julia. O feminino e o sagrado. Trad. Rachel Gutierrez. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
CURTIN, Jeremiah. Myths and folks tales of Ireland. New York: Dover Publications, 1975.
GUEST, Lady Charlotte (translation). The Mabinogion. New York: Dover Publications, 1975.
HESODO. Teogonia: a origem dos deuses. Traduo de Jana Torrano. Edio bilnge. So Paulo: Iluminuras, 1991.
MACKILLOP, Lames. Myths and Legends of the celts. New York: Penguin Books, 2005.
May, Pedro Pablo. Os mitos celtas. Trad. de Maria Elisabete F. Abreu. So Paulo: Editora Angra, 2002.
NOGUEIRA, Carlos. Bruxaria e histria. Bauru: EDUSC, 2004.
ROBLES, Martha. Mulheres, mitos e deusas: o feminino atravs dos tempos. Trad. William Lagos. So Paulo: Aleph, 2006.
ROCHA, Everardo P. Guimares. O que Mito. So Paulo: Brasiliense, 2006.
QUINTINO, Claudio Crow. O livro da mitologia celta: vivenciando os Deuses e as Deusas Ancestrais. So Paulo: Hi-Brasil, 2002.
SQUIRE, Charles. Mitos e lendas celtas. TRad. Gilson Soares. Rio de Janeiro, 2003.
VARANDAS, Anglica. Mitos e lendas celtas na Irlanda. Lisboa: Grfica Europam, 2006.
Direitos Autorais

A violao de direitos autorais crime: Lei Federal n 9.610, de 19.02.98. Ao compartilhar um artigo, cite a fonte e o autor. Todos os direitos reservados ao site Templo de Avalon : Caer Siddi e seus autores. Referncias bibliogrficas e endereos de sites consultados na pesquisa, clique aqui.

"Três velas que iluminam a escuridão:
Verdade, Natureza e Conhecimento." Tríade irlandesa.

Go raibh maith agat... Obrigada!
Rowena A. Senėwėen