Início Login     

Morrighan: A incompreendida Deusa Celta

Enviado em 09/01/2010 (13878 leituras)

As deidades celtas esto longe, muito longe daquele maniquesmo cosmognico construdo no discurso do Bem e do Mal, pois no existem Deuses e Deusas puristas, que personifiquem apenas um lado desse tratado dialtico de unilateralidades com que parte das tradies religiosas e filosficas cataloga o mundo e sela o destino de seus habitantes, enviando para os confins do mundo (limite de Hades, Inferno etc.) aqueles que ousam contrariar a ordem.

Nesse sentido, a mitologia celta mostra-se catica, libertria e contestadora, porque no se prope a reproduzir uma percepo de moral higienizante e angelical, tpica da predileo dual com que boa parte das tradies religiosas se fundamenta.

As deusas celtas, em particular, so o retrato fiel da complexidade humana tangida pela imortalidade, materializando a consistncia existencial que nos coloca, no aqui e no agora, a questionar nossas condutas e atitudes, em cima de uma reta razo que somente poderia acenar para um, dentre os dois caminhos a seguir: cu e inferno, bem e mal, na desptica dualidade poltica do iderio teolgico ocidental que empunha armas para a destruio do outro.

Passamos boa parte do tempo na preocupao em conduzir nossas vidas de acordo com princpios ticos absolutos, que levam medonha escolha entre dois caminhos, como se fosse muito simples, fcil e cmodo o despojamento de todo rol de informaes imemoriais que trazemos de outras existncias, onde o bem e o mal nem sempre so visveis.

Sempre existe uma metfora para a estrada bifurcada nas escolhas que selam nosso futuro para cima ou para baixo de algum lugar que-no-sabemos-qual-dentro-desse-critrio (de propsito o grande hfen).

Quando me deparei com Morrighan, a incompreendida Deusa do Viver e do Morrer, desisti de negar em mim a densidade e a complexidade presentes na alma e gravadas com sangue, suor e lgrimas: paguei, muitas e muitas vezes, um preo existencial muito grande em negar em mim a ira, a raiva, bem como o desejo e o amor, por achar que os sentimentos podem ser segregados em compartimentos estanques de nossas almas e que, assim, no se comunicam. Engano, porque a racionalidade catalogadora no consegue lidar com o vendaval emocional que, ao invs de segregar, unifica, as polarizaes.

Morrighan a contramo da dualidade puritana, porque encerra em sua fecunda personalidade a complexidade e a riqueza de uma entidade que se compe de unidade, profundidade e latncia.

Acredito, inclusive, que a polarizao em torno da expresso Morte-Vida tambm seja, ao final, um simples trocadilho semntico que induz ao erro de crermos na existncia de situaes definidas de mundos (mundo dos vivos, dos mortos) quando, no simbolismo celta, o material e o espiritual constituem a mesma essncia, tendo por elo a Natureza e seus mistrios.

Morrighan ama, odeia, fere, cura e mata, colocando, assim, em xeque-mate a compreenso de um mundo dual, em que as qualidades ms so colocadas embaixo do tapete, enquanto a suprema bondade revelada e enaltecida.

James Mackillop traduz o nome Morrighan (ou Mrrgna) por great queens, ou seja, grandes rainhas, no plural, para lembrar da dimenso trplice da deusa contida na referncia trina de Macha, Badb e Morrighan, divindades que irradiam, ao mesmo tempo, fertilidade, soberania e beligerncia.

Ao mesmo tempo em que a amante ardorosa de Dagda e a ptonisa que aparece para Lugh, uma Morrighan contrariada aparece em cena diante da rejeio de Cchulainn. Mais uma vez, trs aspectos distintos aparecendo diante de trs heris celtas, por meio dos encontros mgicos com cada uma das trs faces da Grande Rainha.

Alis, a trindade no novidade na mitologia celta, porque o trs invoca o triquete ou triskle, no simbolismo da perpetuao da roda da vida e da morte (dentro da qual no existe distino). Isso indica, mais uma vez, como a perspectiva separatista de mundo mantm a iluso de dualidade, criando a sensao de antagonismos e, a partir da, alimentando a perspectiva de distino entre razo e emoo, corpo e mente, homem e mulher, natureza e homem. Ou seja, novamente, nossa interpretao condicionada limitando nossa percepo de mundo, que uno, holos.

Numa das famosas batalhas contra os Fomoire (especificamente na segunda batalha de Moytura), Morrighan aparece para Lugh, profetizando a vitria mediante a conclamao potica para que o heri tome seu lugar de direito e guie os Tuatha para a guerra.

Como orculo, Morrighan estabelece, naquele momento, a soberania do conhecimento alm-mundo e, revestida de poder, concita o Deus-Sol a chamar para si a tarefa de guiar o povo. Deusa e Deus, ali, compondo a harmonizao e a unidade, para lembrar da complementaridade entre gneros, e no da competitividade.

Em outro episdio, a Grande Rainha une-se sexualmente com Dagda na vspera de Samhain no rio Unshin, em meio aos corpos ensangentados daqueles que, no dia seguinte, iriam ser mortos em combate. Interessante refletir sobre a percepo oracular e meta-temporal do evento, por conta do encontro se dar num momento fora-de-tempo, j que, de fato, a guerra iria ser travada no dia seguinte. Amorosa, a Rainha forneceu ao Deus importantes informaes sobre o combate, alm de inform-lo que tambm iria tomar parte na luta.

A histria que acho mais intrigante, porm, relaciona Morrighan a Cchulainn, o heri que despreza a deusa e, assim, atrai sua ira eterna, ao ponto de aguard-lo ao final da jornada mtica. Reza a lenda que a Rainha enamorou-se do heri, prometendo-lhe o mundo se ele com ela se casasse.

Cchulainn, porm, no auge de sua determinao guerreira, recusa a oferta, dizendo que not have time for a womans backside (no tenho tempo para uma traseira de mulher), menosprezando os favores da rainha e, com isso, produzindo sua ira.

Depois disso, Morrighan ainda apareceu, em luta, para o guerreiro, sob a forma de um lobo, uma enguia, de uma novilha vermelha descornada e, por ltimo, de um corvo, que iria aguardar o fim da agonia de um moribundo Cchulainn. Mais uma vez, a trindade, pois a deusa encarnou trs animais de poder para, por ltimo, incorporar o corvo, guardio eterno dos segredos do Alm-vida. Detalhe: ela a negou, por trs vezes, porque, a cada momento de sua apario para o jovem, a deusa fora por ele ferida. Mesmo assim, continuou esperando por ele at o final...

O corao possui razes das quais a prpria razo desconfia? No, sei, ao certo, porque, lendo a histria da deusa, passo, cada vez mais, a desconfiar que a razo tenha razo, pois acredito que o corao, ao final, detm todos os segredos do mundo. Apenas sei porque sinto, no porque saiba que a transcendncia da polarizao a chave para a compreenso da mitologia celta, de suas deidades e, para ns, humanos e humanas, mortais, de nossa prpria histria e jornada.

Referncias bibliogrficas:

BIERLEIN, J. F. Mitos Paralelos. Trad. Pedro Ribeiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.
CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. So Paulo: Editora Palas Athena, 1990.
CLMENT, Catherine, KRISTEVA, Julia. O feminino e o sagrado. Trad. Rachel Gutierrez. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
CURTIN, Jeremiah. Myths and folks tales of Ireland. New York: Dover Publications, 1975.
GUEST, Lady Charlotte (translation). The Mabinogion. New York: Dover Publications, 1975.
HESODO. Teogonia: a origem dos deuses. Traduo de Jana Torrano. Edio bilnge. So Paulo: Iluminuras, 1991.
MACKILLOP, Lames. Myths and Legends of the celts. New York: Penguin Books, 2005.
May, Pedro Pablo. Os mitos celtas. Trad. de Maria Elisabete F. Abreu. So Paulo: Editora Angra, 2002.
NOGUEIRA, Carlos. Bruxaria e histria. Bauru: EDUSC, 2004.
ROBLES, Martha. Mulheres, mitos e deusas: o feminino atravs dos tempos. Trad. William Lagos. So Paulo: Aleph, 2006.
ROCHA, Everardo P. Guimares. O que Mito. So Paulo: Brasiliense, 2006.
QUINTINO, Claudio Crow. O livro da mitologia celta: vivenciando os Deuses e as Deusas Ancestrais. So Paulo: Hi-Brasil, 2002.
SQUIRE, Charles. Mitos e lendas celtas. TRad. Gilson Soares. Rio de Janeiro, 2003.
VARANDAS, Anglica. Mitos e lendas celtas na Irlanda. Lisboa: Grfica Europam, 2006.

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtbero.

Citao:
"Conectada aos mistrios da ancestralidade da terra."
Sagrados Segredos da Terra
www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com.br

Para ler os artigos de Audrey Donelle Errin, clique aqui.
Direitos Autorais

A violao de direitos autorais crime: Lei Federal n 9.610, de 19.02.98. Ao compartilhar um artigo, cite a fonte e o autor. Todos os direitos reservados ao site Templo de Avalon : Caer Siddi e seus autores. Referncias bibliogrficas e endereos de sites consultados na pesquisa, clique aqui.

"Três velas que iluminam a escuridão:
Verdade, Natureza e Conhecimento." Tríade irlandesa.

Go raibh maith agat... Obrigada!
Rowena A. Senėwėen