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Imbolc a renovação solar da Cultura Celta

Enviado em 30/07/2010 (5006 leituras)

Filte, Imbolc! Dia 1o. de Agosto celebramos Imbolc, a festa do despertar da Terra, adormecida durante o inverno. J repararam que a temperatura est diferente? Ou, ainda, que o ngulo de incidncia dos raios solares torna tudo mais "iluminado"?

No? Sugiro, ento, uma parada para contemplao disso...

A Terra est se preparando, em Imbolc, para a chegada das flores e para o recomeo da polinizao em Ostara, Primavera. O Sol est banindo a escurido (escurido sem a noo de trevas crist), lanando novos projetos, novos planos, fecundidade.

Daqui a pouco os ips amarelos propiciaro um espetculo parte em Braslia... Momentos de plenitude! De felicidade! De gratido ao que a Terra oferece...

o momento de traar emocionalmente os planos de nossas almas, que estavam hibernando, em silncio, durante o frio.

Momento de festejar, comendo, bebendo (cevada, malte, gros de fecundidade!) e, sobretudo, celebrando. A vida uma celebrao contnua!

O sc. XXI traz o multiculturalismo como resultado de um processo de globalizao que, a despeito de pretender unificar, fez eclodir a centelha da vivncia mltipla de diferenas. Irlanda do Norte, do Sul, Estado Basco, Galiza, Catalua, Balcs, Oriente Mdio, sikhs, bengalis, punjabs, Nigria, Sudo.

Viva a diferena!

Tudo exala diversidade, assustando a mente arredia ao que novo (nem to novo assim), diverso e "perigoso" para a zona de conforto em que fomos adestrados nos processos de socializao escolar. Basta lembrar que o mapa mndi foi providencialmente "interpretado" de cima a baixo, para que o hemisfrio norte fique acima do sul e, com isso, na diferena etnocntrica, o colonialismo (espacial ou ideolgico) possa encontrar seu gancho de atuao.

Encontrar as razes, portanto, a mxima desse Milnio, diante de tamanha crise no que foi at ento valor vigente como produto pasteurizado de um colonialismo para l que decadente. Basta um passeio nos Estados Unidos - numa grande metrpole, como NY - para observar os sino-americanos, talo-americanos, latino-americanos.

Qual a sua? Qual a sua raiz? De onde brota seu sangue? J pensaram nisso?

Enquanto isso, o puritanismo sabtico na terra do tio Sam est com os dias contados pela pura e simples diluio cultural, trazendo tona o colorido de culturas diferenciadas (que foram at queimadas por eles, n?).

H quem professe a encarnao coletiva do Imprio Romano (cujo smbolo o mesmo do Tio Sam, uma guia) no povo estadunidense, para que, agora, possa aprender a conviver com o diferente sem pretender extirp-lo...

And, teorias parte, o ser humano ps-moderno est desconfortvel com sua busca interna de identidade. No se v em nada. No se encaixa.

Falta o solo providencial da identidade multicultural que est transformando o mundo uma imensa "aldeia", composta por vilarejos intercomunicantes, que gesticulam, s vezes lutam, para que, ao final, as massas compactas da imperializao sejam dissolvidas.

Como parte integrante da cultura imanente de um povo, a expresso religiosa encontra-se, de igual maneira, pulverizada nas diferenas.

No Mxico, a busca da identidade sodomizada pelo europeu trouxe aos descendentes a necessidade de busca dos maias e da compreenso do Universo a partir do calendrio pontual (exatamente esse que aponta para o fim do ciclo em 2012 e que est sendo confundido com o Armagedon cristo... por favor, nada a ver).

Solstcios so celebrados, calendrios lunares de ciclos de 21 dias passam a regrar o ciclos biolgicos internos. Tudo se encaixa no desencaixe de uma matriz normogentica, que se enfacela em pleno ar!

Nas tradies orientais, sempre a sabedoria antiga de saudao devocional aos ciclos internos e conexo ao Todo. Muito a compartilhar e, ns, a humildemente aprender.

Na tradio crist... Nessa que eu quero chegar!

Todo o calendrio cristo est compilado em cima das festividades pr-crists ou proto-crists, que fazem parte dos ritos e das liturgias pags dizimadas pelo Imprio Romano nos ciclos de avano para quase toda a Europa, frica, sia etc.

Depois da converso em massa, Roma precisava de uma forte propaganda para sustentar a transposio do calendrio lunar para o juliano. No bastava o estupro das mulheres estrangeiras, ou o casamento multi-cultural forado guisa de abatimento tributrio. Era necessrio tambm dominar cultural e religiosamente cada pedao de continente.

Mas os povos conquistados no se rendiam facilmente e, cada vez mais, pessoas mantinham seus cultos Natureza, ao mesmo tempo em que Roma, sob a batuta dos escritos paulinos, insistia em submeter a natureza como fonte de alimento para o homem ps-queda (do Paraso).

Lembram disso? Antes do fruto da rvore, homem e Natureza mantinham a comunho, mas, depois, Deus "condenou" o homem a "reinar sobre a Natureza" e tirar dela, com suor e lavor, o fruto para sua mantena.

And! Descobrimos o subjugo de Gaia!

Pois bem, como convencer os pagos que semeavam na Lua Nova e vertiam mel e leite sobre as sementes, entoando cnticos Grande deusa, que, doravante, isso seria errado?

Simples. Chamando a Deusa de Lilith, taxando-a de "prostitutua de Sat", transformando Cernunnos (o deus da fecundidade com chifres - que nada mais so, para quem estuda Fsica, eixos de poder, poder de pontas) em Lcifer e, somando a esse profuso caldeiro (ops, caldeiro coisa de bruxa) a transposio de datas dos sabbats e esbats pagos em datas "crists", de modo a higieniz-las.

Mas as tradies hermticas se mantiveram, ao final, no espao privado dos lares, nas reunies secretas em volta dos caldeires repletos de desejos, alimentos e sonhos, sob a chama (para quem leu Colanges - A cidade antiga) do fogo sagrado dos ancestrais...

Eis a o grande papel dos "bruxos" e das "bruxas" queimados todos em vrios momentos da histria. Manter impoluto o conhecimento ancestral sobre essa realidade, para transmitir s geraes vindouras o relato de tudo que extra-oficialmente aconteceu no mundo. Hey, ho! Ento?

Ah, ento o culto a Eostre (uma deusa terrena cujo animal totem um coelho) virou Easter (Pscoa). No sistema de translao-rotao, dia e noite e dia so iguais (mas no percebemos isso porque no olhamos ou sentimos mais os ciclos, preferindo o tic-tac do relgio ao tic-tac do corao conectado aos segredos da Terra). a poca (hemisfrio norte) em que Sol aumenta em poder (em face da angulao) e a terra comea a florescer (fecunda como o ... coelhinho).

Assim como o Yule (nascimento do deus a partir da deusa-me-esposa) coincidiu com o Solstcio de inverno no hemisfrio norte (por volta de 21 de dezembro, sendo "puxado" providencialmente para o dia 25... por que ser?).

Sem deixar de mencionar o Dia de Todos os Mortos, aqui sendo celebrado e confundido, s vezes, com Finados, que marca Samhaim na cultura celta (no hemisfrio norte - nossa, tudo gira em torno do Norte, n?), no dia 31 de outubro, data em que o vu entre os mundos tnue e o contato, ldico contato, propiciado por uma egrgora de energia incomum.

Carnaval? Ah, festa solar, afinal, o Sol sempre esteve relacionado fecundidade. Imbolc na tradio da roda de l... festas solares, vinho, lcool, festa! Na verso cristianizada, a procisso de Candlemas (outro nome) honra a Virgem Maria. No Mxico corresponde ao Ano Novo Asteca. Nossa!

Poderia ficar aqui escrevendo o dia inteiro que no esgotaria os argumentos para apontar a sangria cultural provocada pelos Conclios romano-cristos que tentaram aniquilar culturas, dentre as quais, a celta, rica em termos de conexo, cientificidade e catalogao dos fluxos da Natureza, datando de um perodo correspondente a (10.000 a 4.000 a.C.) como foco de expresso matrifocal.

Por favor, no pensem, a essa altura, que estou fazendo um tratado de 'feminismo' embrionrio. Estou at a tampa de tanta abobrinha que tenho escutado (no raro, calada) sobre -ismos, -istas, em todos os nveis, de todos os lados, em todos os ativismos. Como insistimos (eu tambm, claro) na ignorncia!

No essa a questo!

Estou mencionado algo muito complicado para ns, no sculo XXI, que a superao da dualidade que coloca homens e mulheres em guerra. Nas religies matrifocais, os complementos eram venerados com patamar de igualdade. Mas isso incompreensvel porque a vo 10.000 anos de propaganda, moldando nossa memria o bastante para ficarmos naquela de "homens so de Marte, mulheres so de Vnus".

Sobretudo, estou apresentando, em doses no to homeopticas assim, a dimenso secreta do conhecimento que ficou guardado em minha famlia h geraes.

Penso que o momento de compartilhar seja agora mesmo, afinal, j me perguntaram o que minhas tatuagens significam, porque minha me tem um pentagrama tatuado, porque l em casa (quando morava com ela), providencialmente as festas eram regadas a muita comida nos dias de equincios e solstcios. Por que "sou isso, aquilo e aquilo outro"? Enfim, os porqus. Afinal, so os porqus que nos comandam, ainda...

Porque somos muito mais brbaros do que romanos, simples. Por que?

Os celtas so originrios da etnia indo-europia e ocuparam a Europa Central e Ocidental, entre V e VI a.C., em regies que hoje vo desde a Espanha, passando pela Turquia, Irlanda, Frana e Alemanha, apresentando uma diversidade muito grande de ramos, o que dificultou a unio poltica e facilitou sua conquista pelo Imprio Romano.

Falar em "cultura celta" pode ser um reducionismo perigoso, j que no existe apenas um tronco tnico que se possa unificar culturalmente. Esse o segredo que une famlias na Galiza, Catalua a, por exemplo, irlandeses, russos, italianos do sul. Um panteo pulverizado de prticas (Stregheria, por exemplo, na Itlia).

Muito organizados, os "cabeas-quentes" desenvolveram a cultura agropastoril, destacando bastante a ourivesaria e os trabalhos em cobre, ferro, ouro, que reproduziam nos adereos a importncia da Trindade para o povo celta: triskles ou triskeles, espirais solares que surgem de um ponto comum, de onde partem os trs braos que suavemente se espiralam, cada qual, em torno de si.

Quem j viu "A Rainha da Era do Bronze", "Asterix" e outras prolas, j observou a trindade.

Os trs braos so o ciclo eterno de suceder das estaes, ou, ainda, as faces da Deusa (donzela, me e anci), as fases mais perceptveis da Lua (crescente, cheia e minguante) ou, ainda, a trade corpo, mente e esprito. Contudo, so meros aspectos simblicos, relacionados a correspondncias com as marcas anacrnicas de nosso tempo (ou seja, no deixam de ser representaes resgatadas pelo neo-paganismo da modernidade).

O mais importante, porm, no compreender o simbolismo de tais fases ou suas correspondncias, mas saber que a espiralizao reflete um continuum temporal, dentro do qual no cabe espao para a bruta separao que a mente analtica faz em relao a processos.

Eis a diferena... Os celtas no faziam correspondncias ou representaes: o triskle ERA o ciclo em si, e no o que significava. Isso muito complexo para nossa sucateada mente-analtica-que-mente-e-nem-sente, porque, muitas vezes, insistimos nas representaes e no as experienciaes da vida celebrada em magia.

Esse o pulo-do-gato na bruxaria: inserir-se no mundo dos Deuses, Deusas e Natureza e vivenci-lo, no apenas tentando encontrar significados e simbolismos, porque isso racional, e no intuitivo! Qual o sentido de jogar "um punhado de alecrim num caldeiro"?

Para os celtas, a vida era fluxo perptuo de vida-morte-vida e, como tal, no poderia ser entendida, sentida ou experiencida como etapas estanques (e, para ns, cronolgicas): horas, minutos, segundos, dias, meses e anos, tomados, um a um, retiram a compreenso potica de infinito! O triskle est presente em tudo: o TODO. Os ciclos, as lunaes, os corpos, o humano.

Na mitologia celta, um detalhe interessante: o trs est represente nas peregrinaes, como um caminho que marca a ida, o rito de passagem e o retorno.

Em nossas vidas? Ciclos que se renovam mas que ficaram imperceptveis porque no usamos mais a mente primitiva (onde est gravada a memria), optando pelo conforto da analtica que segrega e discrimina, quase sempre desejando exterminar o que diferente.

Os smbolos realizam essa ponte ao mundo mgico do inconsciente, ao revelar, em certo sentido potico, a beleza misteriosa do que est encoberto pela nvoa da superficialidade com que insistimos em olhar o mundo ao redor, sem nos conectar a ele.

Para Jung[1], a simbologia desperta centelhas inconscientes, reaquecendo referncias gravadas em nossas memrias, soterrada pela racionalidade ao longo do tempo[2]. Segundo Greenwood, o contato com aquilo que ele (Jung) designava por inconsciente coletivo simbolizado pelos deuses levava ao acesso sabedoria e experincia humana universal (1999, p. 182), a partir da busca a um passado ancestral, marcado pelo mergulho na profundidade daquilo que est entranhado nos aspectos mais profundos da mente.

Gatilho para o mundo do inconsciente...

Bom, se vocs sobreviveram at aqui, esse e-mail apenas para desejar a todo mundo um excelente Imbolc, com renovao de ciclos! Para quem desejar, basta escrever num papelzinho o que imanta para si e me entregar, pois no sbado irei fazer a tradicional "queima dos pedidos", regada, claro, a muita comida gostosa e o nctar dos brbaros, po lquido!

Hey ho... Slinte!

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtbero.

Citao:
"Conectada aos mistrios da ancestralidade da terra."
Sagrados Segredos da Terra
www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com.br

Para ler os artigos de Audrey Donelle Errin, clique aqui.


[1] Alis, uma referncia de perda de conexo entre o homem e a natureza expressa pelo prprio Jung, ao mencionar que acabou-se o seu contato com a natureza, e com ele foi-se tambm a profunda energia emocional que esta conexo simblica alimentava. (1977, p. 95). Essa perda da ligao essencial poderia ser atribuda, em escala de proporcionalidade, ao incremento da racionalidade derivada de um sentido meramente cientfico, destinado a demonstraes irrefutveis e absolutas, num Universo que, irnica e surpreendentemente, no se submete ao alvedrio humano, constituindo um vasto manancial de descobertas.
[2] Uma referncia sobre a importncia dos trabalhos de Jung no campo mgico feita por Susan Greenwood, no Manual enciclopdico de magia e feitiaria (Lisboa, Editoria Estampa, 1999).
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