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Ação e reação na Bruxaria

Enviado em 30/09/2010 (4113 leituras)

Em minhas andanas por a sempre escuto a invocao da lei trina, segundo a qual desejamos a outra pessoa sempre o triplo do que nos deseja. Tambm chamada de Lei Trplice, pode ser compreendida como uma espcie de Lei do Retorno aplicada trs vezes - em nvel causal - para cada ao ou pensamento direcionados de uma pessoa a outra.

J li e escutei de tudo.

Que o nmero de foras do Universo trino, que o desejo de triplicidade diz respeito ao triskle, o ciclo de espiral csmica de renascimento. Que a trs so as faces da Deusa criadora que, com sua fora, envia poder de ao e reao triplicado. Ou, ainda, j ouvi que a lei trplice "porque ", numa mope percepo que apenas se reveste de dogmatismo, como se a vida, em si, bem como o Universo, seguisse algum dogma, ainda mais revelado por ns, humanidade. So, enfim, percepes que mostram o quanto somos criativas em nossas crenas.

Acho importante, porm - deixando a brincadeira um pouco de lado - compreender e situar espao ocupado pela lei trina como dogma apenas da expresso religiosa e prtica de wicca, que se distingue, em muitos aspectos, da bruxaria.

No sou expert em liturgia e religiosidade wiccana (ou wiccaniana), mas, dentro do que me proponho a fazer em termos de bruxaria (como prtica, arte e conhecimento hermtico familiar), pretendo, por contraste, articular algumas diferenas a partir da minha percepo.

De antemo, no concordo com as denominaes "bruxaria tradicional" ou "bruxaria familiar", apesar de usar essas categoria para apresentar e diferenciar meu lugar de fala a partir do panteo da minha linhagem ancestral, como "marcao de territrio" dentro de tantas linhagens e tradies.

Da entendo existirem muitos "troncos" de bruxaria, cerimonial, tradicional, familiar etc. que, na miscelnea a-crtica, podem dar a falsa sensao de pertencimento a uma religio especfica, ou, ainda, confundirem- se com a wicca. Essa distino, contudo, no traz o propsito de denegrir ou criticar a wicca, pois respeito a diversidade religiosa - que at preceito constitucional - bem como o maravilhoso trabalho de estabelecimento institucional da wicca no Brasil.

Situo, ainda, com respeito, o trabalho wiccano como resultado de um movimento maior de restaurao do Sagrado Feminino, bem como da movimentao das primeiras ecofeministas, a exemplo de Starhawk no famoso A dana csmica das feiticeiras, obra de importante respaldo aos movimentos feministas de cunho religioso da dcada de 70.

Mas o argumento que pondero diz respeito prtica ancestral no constituir religio em termos institucionais, mas, antes, concentrando em sua essncia a tradio do conhecimento transmitido geracionalmente, ou seja, transmitido de me para filha, sobretudo nos locais de cultos antigos em que o conhecimento herbal e hermtico da transformao do real permaneceu intacto (Dinamarca, Irlanda, Inglaterra, Esccia, Pas de Gales, Glia, Espanha, Portugal e Itlia).
Religio, no sentido de (re)conexo, pressupe distanciamento da Natureza (Physys), de modo que, pela liturgia consensuada e transmitida pela ancestralidade sacerdotal feito o vnculo, no sem que o praticante se vincule e adira ao dogma.

Importante dialogar, aqui, com a clssica distino entre sagrado e profano, assunto bastante corriqueiro na literatura antropolgica, principalmente a partir da articulao feita por mile Durkheim, pois entendo que, a partir da, equivocadas compreenses foram lanadas a respeito da vivncia na seara da bruxaria.

Segundo ele, sagrado e profano so gneros opostos" (2000, p. 19), que refletem mundos distintos, numa dicotomia que marca a incomunicabilidade entre os assuntos ligados, de um lado, religio, magia, bem como aos mitos e s crenas, virtudes e, de outro - campo do profano - ao que no est inserido nesse mundo extra+ordinrio e metafsico.

Mais adiante, para ele, fenmenos que so tratados como fatos "naturais", biolgicos e "normais" Quando o processo tratado como um fato natural, biolgico, normal, estamos no campo do profano, de tudo aquilo que no sagrado.

Numa percepo consensualmente tida como pag (que no incorpora o sagrado - no sentido de extra+ordinrio ou transcendente) a bruxaria no seria religio, mas prtica profana, situada no aqui e no agora. Isso porque, no tendo havido rompimento de vnculo com a Physys (Natureza), no existiria a necessidade de estabelecimento de ligao, conexo, elo ou vnculo algum. Dentro disso, liturgias so desnecessrias, bem como os dogmas questionados.

Uau! Como assim? A bruxaria, dentro disso, no seria "sagrada"? Ou, ainda, no atuaria no sentido de modificar realidade?

Simples.

Muito simples, bastando lembrar que Durkheim analisou ritos a partir de uma viso dualista de conhecimento, que separa humano e Natureza, tpico do movimento que a cincia tomou no sculo XIX. Nunca demais lembrar que o dualismo comeou a integrar a maneira de pensar e fazer cincia, bem como, mais profundamente, marcou a separao entre cincia, filosofia e religio, desde a embrionria ciso sofstica na Grcia.

Dentro disso, a cincia passou a catalogar e segregar observador e objeto, tendendo, com isso, para segregaes do mundo, da vida e, sobretudo, do humano e suas prticas. Estando, portanto, dentro de um modelo dual, religio assunto relacionado ao que se convencionou chamar de sagrado apenas porque se relaciona com o domnio do que incompreensvel para a mente racional em termos de causa e efeito.

Da o sentido de conexo outrora perdida. O profano, por seu lado, residiria no campo do conhecido e visvel em termos causais, o imanente, em contraponto transcendncia religiosa, que nos transpe de um mundo material para a sutileza do etreo.

Com isso, receio, toda a compreenso de culto Grande Gaia, Anu, Danu, Mater etc. como tentativa de "religao" apenas reproduziria a dicotomia que apartou a humanidade de um Todo muito mais amplo, mais especificamente em relao Natureza. Dentro disso no concebo ou vivencio a bruxaria como religio, mas, antes, como prtica de vida, modus vivendi.

Mas, quando se observa outras perspectivas, mudando-se o paradigma cartesiano para uma dimenso holista de mundo - sem fronteiras entre "observador e objeto", no faz mais qualquer sentido a apartao de galerias.

A bem da verdade, a "descoberta" da fsica sub-atmica, mais precisamente a fsica quntica vem sedimentar o caminho da superao de divises entre religio e cincia, por meio da reinveno de novas concepes, que demandam, de um lado, a cincia se reinventar no holismo e, de outro, a religio no mais pretender religar o que j est ligado. Eis oa arautos do Milnio de crise endmica nas religies... Por que, ento, manter a dualidade?

Bom, diante disso, enfim, como observar a lei da ao e reao?

Na bruxaria no existe lei trina ou trplice, porque o Universo - material e etreo - composto de uma s substncia, energia, que se comporta em regime de coexistncia de "possibilidades qunticas", partculas (matria) e onda (etreo).

Esses estados qunticos por sua vez, revelam a paridade de foras presentes no Universo, pois, grosso modo, se o nmero de foras do Universo fosse trino - e no dual - haveria desequilbrio suficiente para implodir o caos, mais precisamente, a entropia (medida do grau de agitao atmica e desagregao). Tudo bem que ainda estamos falando de dualidade at mesmo porque nossa formao cartesiana de separao entre mente e corpo ainda forte, mas lembro que, na fsica quntica, essa "dualidade", na verdade, perspectiva, e no realidade.

Ou seja, no existiria nada alm de puro caos, o parece contrariar a existncia factvel e visvel de no-caos. Eis a razo pela qual entendo que a perspectiva da Lei Trina encontra-se muito equivocada, alm de no fazer parte da temtica "bruxesca". Ela pode, quando muito, ser um reforo mtico de simbolismo em relao cosmogonia celta, mas que nada tem a ver com energia e fora triplicada, e sim aspectos no ciclo de vida-morte-vida, ou seja, de processos naturais de nascimento, crescimento e morte.

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtbero.

Citao:
"Conectada aos mistrios da ancestralidade da terra."
Sagrados Segredos da Terra
www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com.br

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