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O Mabinogion

Publicado por Rowena em 11/1/2013 (2728 leituras)

Que o Mabinogion? O ttulo O Mabinogion foi usado pela primeira vez por Lady Charlotte Guest em sua traduo de doze contos medievais galeses publicada entre 1838 e 1849.

A forma Mabinogion surge no fim do conto Pwyll, Prncipe de Dyfed (Ac yuelly y teruyna y geing hon yma o'r Mabynnogyon, Aqui termina este ramo do Mabinogion, frase que tambm encerra os demais Ramos), mas, comumente, admite-se que o sentido do termo mabinogi, na origem significando apenas "infncia", tenha depois sido ampliado para abranger um conto sobre a infncia de um heri em geral. Mabinogion seria o plural de mabinogi.

Antes das tradues de Lady Guest, somente os quatro primeiros dentre os doze contos eram conhecidos como Pedeir Ceinc y Mabinogi, "Os Quatro Ramos do Mabinogi". Desde ento, a palavra Mabinogion tem sido usada como um termo conveniente para designar todos os contos, com exceo de Hanes Taliesin, "A Histria de Taliesin".

Os textos annimos foram preservados no "Livro Branco de Rhyderch" (Llyfr Gwyn Rhydderch), escrito entre 1300 e 1325, e no "Livro Vermelho de Hergest" (Llyfr Coch Hergest), escrito entre 1375 e 1425, embora fragmentos desses contos j tenham sido encontrados em manuscritos do sc. XIII e acredite-se que tenham existido muito antes sob a forma oral. A questo da data de composio do Mabinogion importante, pois pode demonstrar que anterior "Histria dos Reis da Gr-Bretanha" (Historia Regum Britanniae) de Geoffrey de Monmouth, sendo a evidncia de que o folclore e a cultura galeses seriam muito mais antigos e resistentes.

O Mabinogion, desconhecido fora de Gales at a poca de Lady Charlotte Guest, uma parte da longa, consistente e gloriosa tradio da poesia galesa que merece ser melhor conhecida. Mesclada em seu contexto est a magia dos druidas, esses misteriosos "sacerdotes" clticos que mantinham as antigas tradies e fizeram com que o Mabinogion sobrevivesse conquista saxnica e ao triunfo do cristianismo alcanado pela igreja romana e, depois, pela anglicana.

As lendas do Mabinogion

O Mabinogion propriamente dito consiste de quatro lendas, tambm chamadas "Os Quatro Ramos do Mabinogion". Essas lendas so:

1. Pwyll, Prncipe de Dyfed (Pwyll, Pendeuic Dyuet, Primeiro Ramo): durante uma caada, Pwyll encontra Arawn (Lngua Prateada), Senhor de Annwn (o Outro Mundo da tradio cltica) e, como compensao por um insulto no intencional, oferece-se para trocar de lugar com Arawn e lutar contra seu inimigo Hafgan (Vero Branco). Pwyll passa um ano sob a forma de Arawn e ganha sua amizade graas a suas boas maneiras e pelo sucesso em sobrepujar Hafgan, assim obtendo o ttulo de Penannwn ("Senhor de Annwn"). Ele se casa com Rhiannon, mas somente depois de derrotar Gwawl, o antigo pretendente. O casal vive feliz at o nascimento de Pryderi.

2. Branwen, Filha de Llyr (Branwen uerch Lyr, Segundo Ramo): Branwen casou-se com Matholwch, rei da Irlanda, e deu luz Gwern, mas os irlandeses, que tinham sofrido um grave insulto feito por Efnyssien, meio-irmo de Branwen, quando a comitiva de Matholwch estava na Gr-Bretanha, vingaram-se obrigando Branwen a servir na cozinha do castelo, onde era agredida pelo cozinheiro. Ela criou um pssaro e enviou uma mensagem a Bran, seu irmo, rei da Gr-Bretanha, que veio com um frota para resgat-la. Efnyssien lanou Gwern numa fogueira e seguiu-se uma batalha entre britanos e irlandeses; ela morreu de tristeza e foi supultada num "tmulo de quatro lados" nas margens do rio Alaw, em Anglesey. Seu mito, que tem uma forte semelhana com o de Cordlia, filha de Lear, um tipo de Soberania, como fica bvio quando sua histria investigada com profundidade. Quanto Irlanda, ficaram vivas na ilha somente cinco mulheres grvidas, cujos filhos foram os fundadores dos Cinco Reinos.

3. Manawyddan, Filho de Llyr (Manawydan uab Llyr, Terceiro Ramo): Manawyddan ap Llyr mencionado no conto Culhwch e Olwen como um seguidor de Arthur, mas, originalmente, um deus marinho que corresponde ao irlands Mnannan mac Lir. No Mabinogion, irmo de Bendigeid Fran ("Bran, o Abenoado"), ficando sem terras depois da morte deste e tornando-se marido de Rhiannon. Ajudou a quebrar os encantamentos lanados por Llwyd sobre Dyfed como vingana pelo tratamento violento dado a Gwawl por Pwyll, primeiro marido de Rhiannon. Manawyddan um homem engenhoso e um mestre arteso, capaz de ganhar seu sustento enquanto a terra est enfeitiada. Como instrutor e homem de poder, ele fica no lugar do pai de Pryderi e herda as qualidades de Pwyll.

4. Math, Filho de Mathonwy (Math uab Mathonwy, Quarto Ramo): o filho de Mathonwy tio de Gwydion, Gilfaethwy e Arianrhod e irmo de Penardun. Ele era onisciente, possuindo, entre outras habilidades, o estranho dom de ouvir tudo que era dito em seus domnios to logo as palavras fossem transportadas pelos ventos. Era muito sbio, um grande rei. Neste conto, ele somente pode viver enquanto seus ps estiverem no colo de uma virgem, Goewin, a no ser em tempo de guerra. Como Gwydion provoca uma guerra entre Math e Pryderi, Math deixa-a temporariamente, sendo Goewin violada por Gilfaethwy, que nutria por ela uma paixo secreta. Para aliviar a vergonha da jovem, Math casa-se com ela e pune seus sobrinhos, Gilfaethwy e Gwydion, transformando-os em vrios animais. com a ajuda de Gwydion que Math cria Blodeuwedd com flores como noiva para Llew Llaw Gyffes, seu sobrinho-neto.

Sete outros contos foram associados aos Quatro Ramos:

O Sonho de Macsen Wledig: um imperador romano, Magnus Maximus (383-388 d. C.), conhecido na tradio galesa como Macsen Wledig. Geoffrey de Monmouth, que o chama Maximianus, diz que ele fez de Conan Meriadoc o governante da Bretanha Menor, na atual Frana. Neste conto, o imperador sonha com uma mulher desconhecida por quem fica apaixonado. Por fim, mensageiros finalmente informam que esta realmente existe em Cymru (Gales), de forma que Macsen deixa Roma para casar-se com ela. Seu nome Elen. O Maximus histrico, subjacente lenda, realmente serviu na Gr-Bretanha, mas levou muitas tropas da ilha em sua luta contra Gratianus, imperador do Ocidente, assim deixando a Gr-Bretanha sem proteo. Traos dos fatos permanecem nas lendas: os galeses retiveram seu nome, que aparece em vrias genealogias de famlias nobres como uma conexo imperial. Os soldados romanos que partiam tomaram esposas estrangeiras, mas, conta a lenda, cortaram suas lnguas para que no pudessem corromper o idioma britnico de seus filhos. Vemos assim como antiga e poderosa a devoo dos Cymry (galeses) a sua linguagem.

Lludd e Llefelys: Lludd filho de Beli e irmo de Llefelys. Foi o rei da Gr-Bretanha que reconstruiu a cidade de Londres, cujo nome vem do rei: Caer Lludd, Caer London. Trs pragas caram sobre a ilha: uma raa chamada Coranianos (genedyl y Coraneit, a raa dos Coranianos), que podia saber tudo que era dito; um grito que era ouvido a cada Vspera de Maio e que fazia murcharem as lavouras, matava os animais e crianas e deixava as mulheres estreis e o desaparecimento dos mantimentos do rei. Lludd procurou conselhos junto a seu irmo, Llefelys, que lhe disse que os Coranianos seriam vencidos depois de beberem uma infuso de insetos esmagados em gua; que o grito era provocado por drages que seriam vencidos depois de se embebedarem com hidromel forte, sendo necessrio enterr-los exatamente no centro da Gr-Bretanha, e que o ladro das provises era um homem de poder capaz de lanar um feitio de sono sobre a corte e, ento, roubar toda a comida. Lludd venceu as trs pragas e a paz da ilha foi restabelecida.

Culhwch e Olwen: Culhwch o filho de Celyddon Wledig e sobrinho de Arthur. Sua me, Goleuddydd (Dia Brilhante), deu-o luz depois de ficar apavorada com a viso de uma vara de porcos, de modo que ele foi chamado Culhwch, ou "Chiqueiro". Seu pai casou-se outra vez depois da morte de Goleuddydd. A madrasta de Culhwch lanou um feitio sobre ele para que no pudesse casar-se seno com Olwen (a dos rastros brancos), filha de Yspaddaden Pencawr (espinheiro, chefe dos gigantes), o gigante. Na corte de Yspaddaden, Culhwch recebeu trinta e nove anoethu ou tarefas impossveis, que deveriam ser cumpridas antes de casar-se com Olwen, todas as quais foram cumpridas com a ajuda dos cavaleiros de Arthur. A principal tarefa era caar o Twrch Trwyth, um javali gigante, para o que seria necessrio o auxlio de vrios cavalos especficos, ces de caa e homens, incluindo Mabon, o jovem miraculoso, cujo encontro narrado nesse conto. Outras misses incluem a viagem de Arthur ao Outro Mundo para obter alguns dos Objetos Sagrados, ou Treze Tesouros da Gr-Bretanha - um feito que tambm relatado num poema gals do sc. IX, o Preiddeu Annwn, "Esplios de Annwn", atribudo ao bardo Taliesin. O poder de Yspaddaden vencido e Culhwch casa-se com Olwen.

O Sonho de Rhonabwy: Rhonabwy adormece a sonha que Arthur e Owain esto jogando gwyddbwyll (um jogo de tabuleiro cltico) ante um campo de batalha. Durante o jogo, os cavaleiros de Arthur lutam com os corvos de Owain, mas os jogadores apenas continuam com seu passatempo, at que Arthur, impaciente por comear a perder, esmaga as peas. O jogo talvez simbolizasse uma batalha pela soberania.

Os contos "Culhwch e Olwen" e "O Sonho de Rhonabwy" despertaram o interesse dos estudiosos por preservarem tradies mais antigas do que o material arturiano. A narrao de "O Sonho de Macsen Wledig" uma histria romntica sobre o imperador romano Magnus Maximus.

Trs dos contos so verses galesas de romances arturianos que tambm aparecem no trabalho de Chrtien (ou Chrstien) de Troyes. Os crticos do sc. XIX acreditavam que os contos baseavam-se nos prprios poemas de Chrtien, mas as opinies mais recentes inclinam-se a afirmar que as duas colees so independentes, mas tm um ancestral comum:

A Dama da Fonte: Owain, inspirado pelo conto de Cynon (na tradio galesa, o filho de Clydno - um dos guerreiros de Arthur - e amante de Morfudd, irm gmea de Owain), sai em busca do Castelo da Fonte, que era guardado pelo Cavaleiro Negro. Ele atravessou o mais belo vale e viu um brilhante castelo numa colina. Depois de entrar nesse lugar sobrenatural, Owain derrota o Cavaleiro Negro e casa com sua viva. Aps um comeo difcil, ele vence seu ressentimento e guarda o reino at que sua sede por aventuras o faz partir, deixando para trs a esposa. Dama da Fonte tambm o ttulo da condessa misteriosa no Yvain, de Chrtien de Troyes.

Peredur, Filho de Efrawg: na mitologia galesa, Peredur era o stimo filho de Efrawg e o nico do sexo masculino a sobreviver. Seu pai e irmos morreram antes que ele atingisse a maioridade. Isso no impediu Peredur de tornar-se um dos cavaleiros de Arthur e suas muitas aventuras formaram a base para o Sir Percival posterior. Talvez por causa de sua posio como stimo filho, Peredur era particularmente adepto de matar bruxas, que, em Gales, compareciam ao campo de batalha trajando armaduras completas. No fim de seu conto no Mabinogion, Peredur enfrenta a lder das bruxas e, com sua espada, rompe elmo e armadura em duas partes, enquanto as demais feiticeiras fogem.

Gereint, Filho de Erbin: Gereint o rei de Dumnonia (reino que, no, perodo ps-romano, abrangia Devon, a Cornualha e outras reas do sudoeste da Inglaterra) cujas aventuras so contadas nesta narrativa. No romance francs, o heri deste conto Erec, mas, como este no comumente conhecido em Gales, substituram-no por Gereint. Este pode ser uma figura histrica, um primo de Arthur. Embora seja listado como contemporneo desse rei, pode ter pertencido a uma gerao anterior, pois o conto "O Sonho de Rhonabwy" diz que Cadwy, seu filho, era um contemporneo de Arthur. O nome do pai de Gereint citado como Erbin, mas, na Vida de So Cyby, Erbin chamado seu filho. Em Culhwch e Olwen, encontramos os nomes de dois de seus irmos, Ermid e Dywel. Gereint, suspeitando que sua esposa infiel, fora-a a acompanh-lo numa exaustiva jornada de aventuras para testar seu amor e obedincia a cada passo do caminho. Como outras fortes heronas clticas, ela suporta calmamente sua provao, permanecendo leal e amorosa durante todo o tempo. Gereint finalmente sentiu duas tristezas, do remorso por ter desconfiado de sua esposa e por trat-la to mal.

Lady Guest tambm incluiu em sua traduo um oitavo conto (removido das tradues inglesas posteriores, que, no entanto, continuam a usar o termo Mabinogion), no encontrado nem no "Livro Branco de Rhyderch", nem no "Livro Vermelho de Hergest", mas em um manuscrito do sc. XVII:

Taliesin: seu nome significa Testa Brilhante. Foi um bardo gals e, de acordo com o mito, a primeira pessoa a adquirir a habilidade da profecia. Em uma verso da histria, ele o servo da feiticeira Cerridwen, uma deusa da fertilidade, me de Afagddu, o homem mais feio do mundo, e chamava-se Gwion Bach. Cerridwen preparava uma beberagem mgica que, depois de um ano fervendo, produziria trs gotas que dariam a quem as bebesse toda a sabedoria do mundo. Essa pessoa conheceria todos os segredos do passado, do presente e do futuro. Ela queria d-las a Afagddu como compensao por sua feira. Enquanto Gwion Bach cuidava do fogo sob o caldeiro, uma parte do lquido quente caiu em seu dedo e ele a sorveu ao sentir a dor. Eram as trs gotas da sabedoria. Todo o lquido restante era veneno. A furiosa Cerridwen empregou todos os seus poderes mgicos para perseguir o menino. Durante a caada, ele se transformou numa lebre, num peixe e num gro de trigo, que Cerridwen, metamorfoseada em galinha, engoliu, descobrindo-se ento grvida. Mais tarde, Gwion, renascido de Cerridwen, foi jogado ao mar e apanhado numa armadilha para peixes, quando passou a chamar-se Taliesin por causa de sua testa brilhante.

Os "Quatro Ramos" so, essencialmente, histrias medievais e seus personagens comportam-se, falam e vivem de modo muito semelhante a sua audincia do sc. XIV. Suas maneiras so (em geral) corteses e refinadas, invocam freqentemente o deus cristo e suas roupas incluem brocados, sedas, toucados e outros itens medievais. Contudo, ainda que sejam produto de uma sociedade crist da Idade Mdia, os Quatro Ramos baseiam-se tambm numa viso de mundo profundamente pag, proveniente de tradies e crenas das culturas neolticas e da Idade do Bronze, bem como da Idade do Ferro cltica e da era romano-britnica.

O Mabinogion verdadeiramente uma pea encantadora da literatura galesa, que abre caminho a fantsticas narrativas dramticas capazes de encher a mente do leitor com a vibrante e imaginativa natureza do povo cltico. As duras realidades histricas so transformadas por uma sensibilidade sonhadora, que submete a mente com um imaginrio antigo e primitivo, verdadeiro para a percepo mtica dos celtas.

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