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Divindades e o Ogham

Publicado por Rowena em 17/5/2021 (486 leituras)

OLiber Ar(d)machanus(Livro de Armagh), tambm conhecido comoCanoin Phatraic(Cnon de Patrcio), um manuscrito irlands do sc. IX que contm textos em irlands antigo e latim.

Um desses textos chama-se Collectanea (Colees), de autoria do bispo Trechn (sc. VII), em que se narra a vida do bispo Patrcio. Nesse texto, a palavra irlandesasde traduzida pelo latimdei terreni, deuses da terra, pois se contava que residiam em palcios subterrneos, ocultos nas profundezas de colinas encantadas (tambm ditassde, de onde receberam o nome).

Mas no apenas nas entranhas da terra habitavam os deuses da Irlanda, pois aVita tripartita Sancti Patriciiregistra o nome da divindadeCenn Cruaich, correspondente ao topnimo galsPenn Cruc(Pennocruciumem latim, agoraPen-y-crug), Cabea/Chefe da Montanha. H tambm as colinas gmeas conhecidas comoDa Chich Anand/D Chch Anann, Dois Seios de Anu, em Kerry; a Montanha da Cailleach,Sliabh na Cailleach, na verdade uma srie de colinas, localiza-se em Meath, antigo centro cerimonial da Irlanda.

Nesse aspecto, a ligao das deidades geografia no nenhuma inovao irlandesa. Antes dos registros irlandeses, feitos na Idade Mdia, j as culturas clticas do continente europeu veneravam principalmente divindades tpicas (isto , ligadas a um local determinado) ou regionais, com destaque para os lugares elevados, os picos dos montes.

O pico do Ger (Garrus deus), nos Baixos Pireneus, permaneceu como ente divino at o fim da dominao romana, enquanto outras montanhas desceram pouco a pouco da posio de deuses para a de moradas de deuses. Por exemplo,Dumias, nome do deus tutelar de Puy de Dme, acabou por tornar-se um simples epteto ligado a Mercrio, cujo templo e esttua localizavam-se nesse cume.

No entanto, a religio praticada pelos celtas continentais, considerando-se o testemunho gauls, dava maior nfase ao culto das guas (rios, poos, fontes).Diua,Deua,Diuona, a Divina era uma designao frequente dos rios gauleses que ainda permanece em nomes atuais: Dive, Divone, Deheune.Nemausus, deus tutelar da cidade de Nmes, era o gnio de sua fonte;Icaunus, o de Yonne etc. Numerosos eram os gauleses da Blgica que se orgulhavam do nomeRhenogenus, filho do Reno.Boruo,BormoouBormanus(o Borbulhante), deus das fontes termais, deu seu nome a muitas estaes termais na atual Frana: La Bourboule, Bourbonne, Bourbon-Lancy ou LArchambault.

Ligado de perto sacralidade das guas, estava o culto das rvores e florestas.Vosegusfoi o deus tutelar dos Vosges silvestres;Arduina, a deusa das Ardennes;Abnoba, a da Floresta Negra. Na regio dos Pireneus, muitas inscries latinas do-nos a conhecer os deuses-rvores:Robur(Carvalho-Branco),Fagus(Faia),Tres Arbores(Trs rvores),Sex Arbores(Seis rvores),Abellio(Macieira),Buxenus(Buxo). rvores sagradas, bosques habitados pelas divindades de sua prpria flora, templos naturais que o conquistador romano lembrava-se de derrubar para quebrar a resistncia gaulesa.

Um eco distante da venerao arbrea aparecer na hierarquia das rvores registrada peloAuraicept na n-cese confirmada pelos tratados jurdicos (com a imposio de multas crescentes conforme a classe da rvore ilegalmente derrubada):

Asberat immorro araile co nach o dhainibh itir ainmnighter fedha inn n-ogaim isin Gaedhelg acht o chrandaibh gen gu haichinter anniu araile crand dibh. Air atat ceithiri hernaile for crandaib .i. airigh fedha 7 athaig fedha 7 lossa fedha 7 fodhla fedha; 7 is uaithibh sin a ceathrur ainmnighter fedha in oghaim. Airigh fedha quidem .i. dur, coll, cuileand, abhull, uindsiu, ibur, gius. Athaig fedha .i. fern, sail, bethi, lemh, sce, crithach, caerthand. Fodla fedha andso .i. draighen, trom, feorus, crand fir, fedlend, fidhat, finncholl. Lossa fedha .i. aitean, fraech, gilcach, raid, lecla .i. luachair 7rl.

Outros, porm, dizem que no de homens as vogais ogmicas foram em galico nomeadas, mas de rvores, embora algumas dessas rvores no sejam hoje conhecidas. Pois h quatro classes de rvores, a saber, rvores chefes tribais [airigh fedha] e rvores camponesas [athaig fedha] e rvores arbustos [lossa fedha] e rvores ervas [fodhla fedha] e dessas quatro [classes] que as vogais ogmicas recebem seus nomes. As rvores chefes tribais certamente [quidem] so o carvalho [dur], a aveleira [coll], o azevinho [cuileand], a macieira [abhull], o freixo [uindsiu], o teixo [ibur], o abeto/pinheiro [fir]. rvores camponesas, a saber, o amieiro [fern], o salgueiro [sail], a btula [bethi], o olmo/ulmo [lemh], o evnimo [sce], o lamo/choupo [crithach], a tramazeira [caerthand]. As rvores arbustos aqui, a saber, o espinheiro-negro [draighen], o sabugueiro [trom], o evnimo [feorus], o choupo-tremedor [crand fir], a madressilva [fedlend], o pado [fidhat], a aveleira-branca [finncholl]. As rvores ervas, a saber, o tojo [aitean], a urze [fraech], o canio [gilcach], o mirto [raid],lecla[?], juncos (?) [luachair]etc.

A venerao do carvalho profusamente conhecida e dispensa elaborao. Basta lembrar que, no dizer de Mximo de Tiro, o Zeus gauls (ou seja, Taranis), era adorado no sob a forma humana, mas como um carvalho: ?????? ?????? ??? ???, ?????? ?? ???? ???????? ????? ???? (os celtas sem dvida adoram Zeus, porm honram-no sob a forma de um alto carvalho). O Senhor do Cu era venerado como rvore, no em forma humana.

Os celtas inevitavelmente perceberiam as importantes qualidades de numerosas espcies animais, fossem domesticadas ou silvestres, nelas reconhecendo carter tutelar ou divino. Podem-se citar:Epona, a gua, Me Primordial;Damona, a Vaca;Taruos, o Touro (no topnimo Taruisium, hoje Treviso; no antropnimo Deiotaros, rei glata; Taurisci, Tribo do Touro);Lugus, o Corvo ( uma interpretao possvel, Lugudunum seria assim a Fortaleza do Corvo);Brannovices(os que vencem pelo Corvo);Eburones(Tribo do Javali/Teixo);Artio, a Ursa, venerada pelos helvcios da regio de Berna;Cernunnos, o deus com galhadas de cervo, e tantas outros.

Toda essa informao leva-me a concluir que os deuses dos celtas continentais (conhecidos pela iconografia e menes em autores clssicos) e insulares (desprovidos de iconografia, mas com fontes literrias relativamente abundantes, embora tardias) eram digo-ocontraa minha preferncia pessoal concretos, visveis, presentes aqui e agora. No o deus da montanha, mas a montanha que o deus; no a deusa da floresta, mas a floresta que uma divindade; rios e fontes so os corpos lquidos de divindades, entes dotados de poder e inteligncia, passveis de emoo e que podem ser aproximados. Sol e vento so divindades que tocam o rosto; a terra, um nume terrvel que pode assumir todos os humores imaginveis.

Os mesmos irlandeses, que ocasionalmente conservaram traos mais antigos que seus primos continentais, fornecem indicaes da vitalidade, vontade, conscincia e poder dos elementos que compem a paisagem onde se desenrolam as nossas vidas:Gran ocus Esca, Usci ocus er, L ocus Adaig, Mir ocus Tr (Sol e Lua, gua e Ar, Dia e Noite, Mar e Terra) foram os poderes que o rei Loegaire invocou como garantes de suas promessas ao ser feito cativo pelos homens de Leinster; Cchullainn pronuncia um encantamento contra Medb:Adeocho-sa inna h-usci do chongnam frinn: ateoch Nem ocus Talmuin ocus Cruinn intrainrethaig. Gaibid crn-choidech friu: nisleicfe muirthimiu, corroirc monar Fne is int slib tath Ochine!(Invoco o Cu e a Terra e o rio Cronn especialmente. Que duramente batalheis contra eles: possa o mar de ondas abundantes no os abandonar at que o esforo dos Fne esmague-os ao norte da montanha de Ochaine!).

Para essa percepo do Sagrado, o mundo est vivo e consciente, saturado de Presena, todas as coisas esto cheias de deuses. No somos os donos desta Terra, tampouco os primeiros a castig-la com nosso peso; como emprstimo que a ocupamos, gerao aps gerao de homens mortais. Somos hspedes que podem ser despachados se nos tornarmos excessivamente molestos.

Bellouesus Isarnos
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"Três velas que iluminam a escuridão:
Verdade, Natureza e Conhecimento." Tríade irlandesa.

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Rowena A. Senėwėen