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O Vale Druídico

Enviado em 23/11/2011 (1603 leituras)

Este texto que não é um fato real ou baseado em documentos históricos. Nem todas as populações e tribos celtas dominavam a escrita Oghâmica e não há relato algum de escritos antigos druidas, pois praticavam a oralidade cultural. Celtas e Romanos não viveram unidos, a não ser por pactos burocráticos e políticos, e um ritual druídico nunca foi frequentado por romanos. O que sabemos dos druidas, proveio de relatos greco-romanos, de monges cristãos e arqueólogos modernos. Este artigo foi baseado em um sonho, vivido em uma noite pelo autor do mesmo.

“O jovem druida cerrou os olhos
Para o mundo daqui
E ele adentrou no outro mundo
De confusos espíritos.”

Um vale druídico a sua frente se apresentou, com o bosque mais verde de todos os lugares sagrados que já haviam existido. Uma floresta densa, de árvores retorcidas pelo tempo e alento, de paredões de rochas monstruosas e pequenas lagoas alimentadas por pequeninos riachos. As árvores eram tão velhas, que os que viviam lá diziam que elas foram as primeiras sementes a germinar na terra, e que cada árvore representava uma avó da humanidade. Elas também eram tão altas, que mal se podia ver o céu. A sombra e o frescor tomavam conta de cada pedaço sagrado daquele local. A luz do Sol adentrava pelas folhagens por pequenos e cálidos raios de luz eterna. Os galhos eram tão pomposos, que somente os deuses poderiam imaginar quebrá-los. As raízes se entrelaçavam em sintonia e os troncos pareciam colunas de um templo. Havia uma clareira ao centro do bosque e do vale, da onde uma luz intensa adentrava, tanto nos dias de verão, quanto na lua cheia. Todo o céu podia ser visto naquele ponto, toda estrela podia ser entendida e toda inspiração podia ser presenciada. Pedras pequenas circundavam uma pequena fogueira. Entretando, o vale possuia mais segredos: seus habitantes.

Eles se vestiam de um linho puro, branco e perfeito. Carregavam uma foice na cintura. Alguns portavam chapéus estranhos, feitos de plantas e galhos. Outros cobriam sua cabeça com o mesmo tecido de suas túnicas. Haviam aqueles também que não tinham nada na cabeça, além do seu cabelo. Eles colhiam ervas, erguiam seus braços e mãos aos céus, faziam profecias, proferiam cantos antigos e fortes. Cada um vivia de uma forma, dentro bosque. Eram tão livres, que seus rostos passavam uma imagem selvagem e inocente. Mas o que é selvagem? O que é inocente? Eles somente se encontravam nos rituais, na clareira principal, onde praticavam seus sacrifícios e adorações. Se mantinham afastados, porque acreditavam que haviam dois complexos a serem respeitados: o indivíduo e o coletivo. Além disso, acreditavam que a irmandade continuaria se e se somente fosse possível amar aquele lugar e para isso foi preciso que cada um cuidasse de um pedaço.

Contudo, sempre que o Sol ou a Lua davam o sinal, eles se encontravam no centro do vale para discorrer e cultuar. Era tão forte a ligação deles com aquele lugar, que nenhum traia os seus propósitos de responsabilidade e honra. E todos possuiam uma função, bardo, ovate e/ou druida. Todos viviam em plena harmonia, até que os estrangeiros chegaram: os romanos.

Os romanos desejavam algo daquela terra, estavam a procura de algum tesouro. Rederam os reis e rainhas locais com sua força. Os romanos sabiam que os druidas conheciam aquela história. Afinal, catarolavam ela para o povo da região. Os romanos então desceram até o vale e ficaram deslumbrados com tanta beleza natural. Sua paisagem mediterrânea não tinha proporcionado tanta inspiração. No bosque ecoou um corno. Os druidas estavam se reunindo. O general e sua tropa marcharam com suas armas pontiagudas e mortais, sedentos de vermelho, como suas roupas. Os druidas já haviam precebido que algo estava errado no bosque, os passaros estavam cantando diferente e as cobras rastejavam com medo. O equilíbrio tinha sido afetado. Aos romanos adentrarem na floresta, viram a clareira e caminharam até o encontro com os druidas. Todos estavam posicionados em uma das pedras, vestidos com seu linho puro e com seus olhares de curiosidade e desconfiança. Os romanos, sem entederem o ritual druida, adentraram o bosque sagrado sem permissão prévia, o que causou grande ira.

O branco e o vermelho se misturaram, mas o sangue continuou a pulsar tanto nas veias druidas, quanto nas romanas. Os romanos, com seu terror, enfrentaram os druidas e muitos correram para o bosque. O arquidruida permaneceu forte. O general romano ordenou que seus soldados voltassem a posição e não atacassem os druidas, pois o tesouro que tanto esperavam encontrar, somente os druidas sabiam onde estava. O olhar do arquidruida era bravo e o general comunicava-se sem gentileza. Os estrangeiros prometeram não destruir nem o vale e nem as aldeias próximas, se os druidas ajudassem a desvendar o mito. Então foi feito um pacto de não violência. Os dois lados aceitaram: a sentença foi dada.

Druidas e romanos passaram a conviver e se suportar juntos, no vale. Os romanos começaram a escrever o que eles acreditavam que os druidas pensavam e exerciam. Escreviam os romanos: “Eles se vestem de branco, eles vivem na floresta, ensiam uns aos outros, celebram com cantos antigos e cultuam a terra e as estrelas”. E mais: “O olhar deles é selvagem e passa uma sabedoria desconhecida e uma disciplina incontestável”. Vendo os romanos escreverem, os druidas começaram a discutir a possivel preservação de seu conhecimento. Não pelas mãos dos romanos, claro, e sim pelas suas próprias mãos. Eles sabiam que o preço que pagariam por aquela união, um tanto estranha, com os estrangeiros, traria grandes sacrifícios. Os druidas começaram a descobrir na propria floresta uma forma de escrever.

Eles sabiam escrever o Ogham, a linguagem das árvores. Produziram tinta natural, suas canetas eram galhos e pedras, seu papel era casca de árvore. Usando de seu conhecimento ancestral, escreveram tudo o que podiam e escondidos dos romanos. Por entre fendas de árvores, eles guardavam seu precioso conhecimento. Enquanto isso, eram forçados a ajudar os romanos a construir seu acampamento, seu maquinário e sua ganância pelo tesouro. As aldeias em volta do vale, forneciam o suprimento.

Os romanos escreviam: “Os druidas são fortes e bons trabalhadores, o povo que vive ao redor do vale são bons para nossos propósitos escravos”. E quanto mais os romanos procuravam insandecidos pelo “ouro invisível”, os druidas escreviam seus conhecimentos. Os druidas revisavam e estudavam a fundo seus escritos, guardavam em segredo por todo o vale. Então, numa linda noite de lua cheia, eles estavam preparando o seu ritual na clareira principal. Acenderam a fogueira ao centro, se sentaram cada um numa pedra em volta. A lua cheia concedia uma luz azul intensa. Os romanos já sem esperança de encontrar o seu tesouro, foram participar do ritual com os druidas, pois precisavam afogar seus pedidos de bons augúrios para algum deus. Blasfêmia, pois o plano romano era outro. O Arquidruida aceitou o pedido, algo que nenhum outro druida esperava (os druidas nunca aceitariam a presença dos romanos em seus ritos sagrados). Os bardos ficaram muito desconfiados e medrosos de algo acontecer naquela noite sagrada. Após algumas reverências do arquidruida, pediu-se para que os bardos cantassem as músicas antigas. Um canto triste se fez por todo o vale, arrepiando todos que ali estavam presentes. Um canto forte e profundo, que todos começaram a entoar, menos os romanos. Já loucos e um tanto famintos de sangue, os romanos, ignorantes, tiraram suas espadas das bainhas e partiram para o enfrentamento. Acreditavam que estavam no direito de derramar o sangue dos druidas, por não encontrarem nenhum tesouro.

O Arquidruida levantou sua voz e disse em algum idioma esquecido algo como “aceitem, óh espíritos e deuses ancestrais, este sacrifício”. O linho que um dia foi branco, agora é manchado de vermelho. Os gritos de dor ecoaram pelo bosque, os cantos se transformaram completamente. As foices quebraram-se no chão, os corpos cairam em agonia. As espadas tingiram a terra. Alguns correram para a floresta, outros enfrentaram com bravura. O arquidruida foi lançado ao fogo, seus gritos tiveram fim com o ultimo suspiro. Parte do exercito romano começou a vasculhar o bosque e o vale, enquanto que outra parte passou a atacar as aldeias vizinhas. O preço estava sendo pago. O sacrifício estava sendo concretizado. Tudo para guardar o tesouro. As arvores eram tão grandes, que os romanos não conseguiram atear fogo algum em suas folhagens. Os druidas sobreviventes ainda corriam e se escondiam. Muitos das cascas escritas pelos druidas foram encontrados e os romanos atearam fogo. Mesmo alguns dos sabios do carvalho tentando defender as cascas de árvore com escrituras preciosas, morreram ensaguentados aos pés de seus inimigos.

Quando os romanos acreditaram ter dizimado tudo e todos, eles foram embora sorridentes e triunfantes. Um druida que sobreviveu, chorava em lamentação, todo o trabalho que tinha sido destruído. Ele viu as cascas de arvore com a escrita Oghâmica queimadas, os seus amigos mortos e o bosque desfeito. O vale não era mais um lugar sagrado. No topo do paredão, o espírito do Arquidruida apareceu e disse ao jovem druida choroso: “Não se preocupe com o que foi destruido, com o que foi queimado e dizimado, o sacrifício foi feito. Os homens do futuro saberão cultuar o céu e a terra como nós, mesmo que nossas vozes tenham desaparecido e que nosso conhecimento original tenha sido consumido pelo tempo. O verdadeiro tesouro foi preservado com nosso suor e sangue. Os novos druidas serão diferentes de nós, por isso nunca deveriamos ter nos atrevido a escrever seu futuro”. O jovem druida chorão partiu sozinho pelo que restou do bosque. Outros druidas se encontraram depois com ele. Todos foram a procura de um novo espaço sagrado. E o passado, se tornou lenda. O “ouro invisível”, permaneceu transparente e valioso. Os druidas nunca mais escreveram nada.

“Foi em algum dia deixado
Que vivemos em algum lugar como esse,
Mas esquecemos, sacrificamos
Para poder viver de novo.”

O Arquidruida ainda disse, por fim:

“O linho branco e puro, agora se fez manchado.”

/|\ Awen

Druida do Vento
Eu sou um jovem druida, andarilho de um velho caminho, que vive em um vale, entre os bosques retorcidos e pântanos mágicos. Escrevo o que é despertado pela Awen.

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