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Danças Circulares Sagradas

Enviado em 23/11/2011 (5615 leituras)

Cura, espiritualidade e celebração da vida com as Danças Circulares Sagradas.

"Dá-me a mão e dançaremos,
Dá-me a mão e me amarás.
Como uma flor seremos,
Como uma flor e nada mais...
O mesmo verso cantaremos,
No mesmo passo bailarás.
Como uma espiga
Ondularemos, como uma espiga
E nada mais.
Rosa te chamas e eu Esperança,
Teu nome porém esquecerás.
Porque seremos uma dança na colina, e nada mais..."

(Gabriela Mistral)

Desde tempos imemoriais o ser humano utiliza a música e dança para celebrar, brincar, meditar (no sentido de meditação ativa), se comunicar e se relacionar com o Sagrado. É muito provável até mesmo que a música, e consequentemente a dança, tenham surgido ao lado das primeiras formas de religiosidade do ser humano.

Ao observar a natureza viu que ela produzia sons, e esses sons poderiam ser muitas vezes a voz dos Deuses, espíritos e antepassados. O trovão, o cair das chuvas, o vento, a onda do mar, o canto dos pássaros, os sons emitidos pelo tigre, o elefante, a baleia, a serpente... Tudo e todos emitem sons. Pois som é vida, e a vida é sagrada.

Em diversas tradições xamânicas quando o(a) xamã realiza um ritual de cura ou uma viagem ao mundo espiritual ele dança e canta, e em sua dança imita o movimento de animais sagrados, os Totens, reproduzindo o voo da águia, a corrida do gamo, a caçada da onça, o rastejar da cobra... Ele canta e entoa músicas para chamar e pedir auxílio aos ancestrais, entrando em comunhão (“comum união”) com eles.

Dançando e cantando o xamã entra em transe, visita outros mundos, mundos espirituais – superiores e inferiores -, recebe conhecimentos e os transmite a sua comunidade.

Não é só no xamanismo que a música e a dança são meios de alcançar o transcendente. A música e a dança são fenômenos universais e estão presentes em todas as culturas, todas as religiões e espiritualidades. Seja num sentido sagrado ou profano, ou ambos juntos. Pois sagrado e profano não estão separados, são dimensões que se relacionam, se interligam constantemente. Os Deuses se comunicam e se fazem presentes em nossa realidade, e nós nos comunicamos com os Deuses e Deusas, vamos ao encontro deles, em sonhos, em preces, em rituais...

Nas religiões de matriz africana, o Candomblé e Tambor de Mina por exemplo, a dança é um aspecto fundamental do ritual e dos ensinamentos da tradição. “Não conheço um deus que não dance”, diz um provérbio afro-religioso. Há também a dança rodopiante dos Dervixes, uma tradição mística do islamismo; a dança energizante e alegre dos povos ciganos; a dança em círculo nas culturas indígenas brasileiras; o bailado nos rituais do Santo Daime; as danças na cultura japonesa, algumas representando o cultivo e colheita do arroz; as danças hindus, tendo como o Deus Shiva Nataraja, o senhor dançarino, um dos símbolos máximos; as danças espirais em vertentes do neopaganismo; dança do ventre; dança tribal ou Tribal Fusion como também é chamada; as alegres danças irlandesas; danças modernas em louvor ao Espírito Santo em igrejas protestantes; o simples balançar da folhinha de domingo nas missas de domingo... Enfim, a lista seria interminável.

Isso nos mostra que além da música e a dança serem presentes em diversas, se não em todas, as culturas e religiões, elas são uma das formas mais expressivas de ligação com o Sagrado. E não só com essa dimensão. A dança, sobretudo a circular ou dança de roda, nos liga com Outro (ser humano e a natureza a nossa volta) e também com nós mesmos, nossa essência, nossa individualidade, proporcionando-nos auto-conhecimento.

Foi isso que Bernhard Wosien percebeu em seus estudos. Nos anos 50 e 60, quando o dançarino, coreógrafo e pedagogo nascido na Alemanha, começou a viajar pela Europa e pesquisar a cultura através das danças folclóricas de várias comunidades, ficou fascinado pelas danças tradicionais e iniciou um trabalho que se difundiu rapidamente pelo mundo.

Adaptou parte dessas danças a forma circular e desenvolveu trabalhos, seminários que utilizavam a dança como meio de educação, terapia e sociabilidade, destacando seu caráter sagrado. Em 1976, Wosien foi convidado a ensinar as danças em uma comunidade na Escócia, a Fundação Findhorn, criada com base no desenvolvimento humano e numa nova proposta de vida para o ser humano e o planeta. O trabalho de Bernhard Wosien cresceu e se estendeu pelo mundo, ganhando cada vez mais adeptos dessa metodologia educativa e terapêutica, e mais do que isso, de uma forma de vida. Depois que faleceu, sua filha, Maria-Gabrielle Wosien continuou o trabalho do pai com as Danças Circulares, se dedicando especialmente ao estudo da dança dos Dervixes e as danças gregas.

No Brasil diversas organizações, grupos e indivíduos realizam vivências e cursos de Danças Circulares, com a proposta de que a música e a dança transformem positivamente as pessoas, a sua relação consigo mesma, com o outro e com o mundo.

A dança circular atua como uma meditação ativa, uma oração dançada e/ou cantada que nos religa com nosso Eu divino, despertando-nos para a Vida e nos fazendo reconhecer a beleza que há em todos os seres e culturas. Nesse sentido, as danças circulares valorizam a diversidade cultural do planeta, trazendo danças tradicionais e contemporâneas de diversos povos e reconhecendo a sabedoria presente nessas tradições. Reconhece e valoriza também as singularidades de cada indivíduo que traz para a roda sua história de vida, seus sonhos, anseios, dificuldades e habilidades.

Na roda o importante não é acertar o passo, “fazer bonito”. E sim sentir a música, deixar-se guiar por ela, libertar o corpo e a mente do medo de errar. Confie em seu corpo, acredite que ele tem uma sabedoria, sabendo dos passos da dança apenas deixe a música guiar seus pés e brinque... Como no tempo em que brincava de ciranda na rua ou na praça. Aquele sentimento de liberdade e alegria tão puros nos fazem falta hoje em dia. Ao estendermos a mão para encontrar a mão do outro, cria-se um sentimento de comunidade, de que não estamos sós no mundo, e que somos uma grande família.

A dança também tem o poder criativo, pois cria em nós pensamentos positivos e harmônicos, a partir do qual nossas atitudes são transformadas, e também nosso mundo. A transformação acontece de dentro para fora.

Em mitos antigos a dança é retratada com esse poder de criação, e não somente a dança, como também a música, o som. Na mitologia hindu, Brahma criou o mundo a partir do som primordial: OM. Portanto, nós e tudo no universo nasceu da música. Shiva é o deus da destruição, necessária para uma nova criação. Ele nos ensina que precisamos morrer para que uma nova vida surja, a lua nova que ele traz em sua cabeça em muitas de suas imagens simboliza esse renascimento. Através de sua dança sagrada, que realiza a cada pôr-do-sol no alto do Himalaia, como acreditam os hindus, o Deus destrói o universo para em seguida construí-lo novamente.

Os mantras, frases-oração, muito usados no Budismo e Hinduísmo, têm o poder de elevar a mente, proporcionar paz, proteção e sabedoria.
Na mitologia grega, a Deusa criadora do universo é Eurínome, que através de sua dança cria a serpente Ofíon com quem se relaciona, criando o Ovo universal, que dá origem a todas as coisas. No Islamismo, o livro sagrado, Al Corão, deve ser lido de forma quase cantada, recitando os versos. Na cultura celta, os bardos ou fíli, eram os guardiões da memória do povo, cantavam as grandes histórias dos deuses, deusas, heróis e heroínas. Acredita-se que a natureza toda é mantida e nascida da Grande Canção (Oran Mor) que emana de todos os seres. O Dagda, o Bom Deus, ao tocar sua Harpa faz a roda do ano girar, mudando as estações, influenciando no Tempo.

Na tradição tupi-guarani, Tupã Tenondé, O Grande Som Primeiro, criou o universo ao se desdobrar de si mesmo, e criou o ser humano, que foi chamado de Tupi, que quer dizer som (tu) em pé (pi) ou som andante. Uma pesquisa mais ou menos recente da astronomia descobriu que o Sol emite um som devido as atividades solares e magnéticas em sua superfície.

Como vemos, o universo todo é som, é música e é dança!

Mas obviamente que não existem só danças com caráter sagrado ou ritual. Muitas danças folclóricas ou tradicionais atentam para o aspecto lúdico da vida. Músicas e danças que celebram o cotidiano, os acontecimentos comuns da vida, o amor, a amizade, o casamento, a alegria das crianças... Mas será que o lúdico está realmente separado do sagrado? Eu acredito que não, ou pelo menos não deveria. Sagrado e profano, divino e humano, prazer e espiritualidade, razão e intuição... são coisas que devem caminhar juntas, em equilíbrio, para o nosso equilíbrio, para a nossa harmonia. Nossa, e do mundo.

Com tudo isso é que as danças circulares sagradas proporcionam a Cura, do corpo, mente e coração. Cura, espiritualidade, transformação, alegria, meditação, interação, harmonia, celebração...

Por todos esses benefícios e características da dança é que desde tempos antigos ela se faz presente em rituais, festivais e até nos momentos mais comuns ou banais da vida. Dessa forma acho interessante aplicarmos as danças circulares na celebração dos festivais e ritos pagãos, em nosso caso os ritos druídicos. Para isso é recomendável que a pessoa tenha uma formação de focalizador em danças circulares ou um mínimo de conhecimento das danças e organização da roda e o centro. De qualquer forma, seja num contexto ritual ou não, as danças circulares sagradas, danças circulares dos povos ou simplesmente danças de roda, são uma ótima maneira de celebrar a vida. Pois para dançar não precisa de um motivo ou momento especial, basta estar vivo!


Rodas de Gaia - danças circulares no parque ambiental de Ananindeua/PA, organizada pela Ong Mana-Maní, em maio de 2011.

“A dança de roda em círculo doa-nos a onipresença que nela habita,
de maneira que, na atuação conjunta de ritmo, melodia e compasso,
as camadas mais antigas do fundo do poço da alma possam ganhar nova vida,
e como, por um toque de mitos de outrora,
fecundam criativamente o momento.
Assim nós dançamos na meditação da dança,
os sonhos que nos reencontram,
como nossas saudades do além.
Dançando participamos de sua transformação,
mudando a nós mesmos” (B. Wosien).

Sugestão de leituras sobre as danças circulares:

WOSIEN, Bernhard. Dança: um caminho para a totalidade. São Paulo: Ed. Triom.
WOSIEN, Maria-Gabrielle. Danças Sagradas: deuses, mitos e símbolos. São Paulo: Triom.
RAMOS, Renata (org.). Danças circulares sagradas: uma proposta de educação e cura. São Paulo: Triom.

Por Mayra ní Brighid
Sonhadora, amante de música, poesia, cultura e mitologia Celta. Nascida em terras amazônicas, na cidade à beira do rio (Belém), mas com a alma cuja raiz remonta as terras célticas, além-mar.

Nemeton Samaúma
www.nemetonsamauma.blogspot.com

E-mail:
mayrafaro@yahoo.com.br

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