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O Caminho do Bardo

Enviado em 30/03/2012 (2274 leituras)

Estou desejando, estou pensando
Em levantar-me e sair cantando...
Cantar minhas canções e dizer minhas palavras
Tocar com harmonia os hinos ancestrais
Saber de cor poemas imortais.
Em meus lábios as palavras vão se derretendo,
E os dizeres transbordando
Apressados à minha boca eles chegam...
Para cantarmos belas canções,
Entoarmos nossas melhores lendas,
Para o ouvido de nossos amados
E todos aqueles que de nós desejam ouvir
Mágicos versos temos a reunir,
Iluminados pela inspiração...
Feitiçaria a Sampo nunca faltou
E a Loubi nunca faltaram encantamentos
Existem outras palavras mágicas,
Feitiços eu aprendi
Pelos caminhos por onde passei...
Então, versos o gelo entoou,
E rimas a chuva recitou
O vento com outros nomes chegou
Canções nas ondas do mar flutuavam
Magia e feitiço os pássaros trouxeram
E encantamentos no cume das árvores puseram.

(Kalevala, poema finlandês escrito há aproximadamente 3000 anos - imagem: Jenny Dolfen Art.)

Apesar do poema acima ser finlandês e, portanto, da cultura nórdica, suas palavras e ideias contidas em muito se assemelham as ideias presentes na cultura celta e no caminho do bardo. Não me considero, ainda, uma bardisa, acredito que estou engatinhando nesse caminho, mas gostaria de compartilhar alguns pensamentos, alguns lidos em livros e textos, outros intuídos em meus momentos de meditação ou nos minutos antes de adormecer (para mim, os mais inspiradores). Meu intuito é dar sequência a esse texto, falando depois sobre os outros caminhos no Druidismo (vate, druida, guerreiro, artesão, devoto). Esse texto não é para ser um padrão ou modelo a ser seguido por pessoas que seguem o caminho do druidismo ou o caminho do bardo, é mais um conjunto de palavras e pensamentos que tenho sobre os bardos e bardisas, e sua sabedoria. Por isso, o texto pode parecer meio “solto”, pois escrevi mais ou menos dessa forma, deixando que meus pensamentos e inspiração fluíssem.

O Bardo. Eis a primeira etapa na jornada dos que desejam trilhar o caminho do sacerdócio no Druidismo. Os bardos e bardisas, devem conhecer profundamente a mitologia celta, e de forma geral, a mitologia. Além disso, precisam conhecer a história dos povos celtas.

O primeiro passo rumo a sabedoria de todo aquele que segue o Druidismo, seja ele um bardo, guerreiro ou devoto, é o silêncio. No silêncio, encontram-se as respostas para muitas perguntas, pois é na voz do silêncio que se manifesta a voz dos Deuses. O bardo ou bardisa, deve aprender a ouvir o silêncio. O seu silêncio...

O bardo de grande sabedoria possui dois olhares, ao mesmo tempo. Um olhar voltado para o horizonte, e outro, voltado para dentro de si. Ele(a) tem o dom de transformar em música e poesia o que sente, ouve, observa e aprende da Natureza. Dessa forma, a música e a arte, em geral, são sagradas e sendo sagradas, têm o poder de curar, abençoar e inspirar.

A harpa é o instrumento por excelência dos antigos bardos celtas, mas nada impede que hoje o instrumento musical do bardo ou bardisa seja uma flauta (como a irlandesa Tin Whistle), o bódhran, o violino ou outro que seja. O importante é aprender música e conhecer o poder que ela exerce na vida cotidiana e espiritual do ser humano, pois a música participa tanto da dimensão do sagrado, quanto da dimensão profana.

Quatro são as coisas que o bardo deve conhecer e desenvolver: os mitos, a música, a poesia sagrada e a boa fala.

Os mitos porque nos contam sobre os Deuses, os ancestrais, a cultura e a vida dos celtas. Aquele que diz seguir o Druidismo sem conhecer os contos e mitos celtas, caminha por solo desconhecido e pode cair em armadilhas de sua própria ignorância. Os que conhecem os mitos e entendem seus mistérios tornam-se mais próximos dos Deuses e ancestrais.

A música porque é uma das melhores maneiras de nos comunicarmos com os Deuses, ancestrais e espíritos. Que celebração triste seria se não houvesse a melodia de uma harpa, flauta ou bódhran, e a cantiga proferida pelos lábios de um bardo ou bardisa. Quando faltar palavras para dizer uma oração, deixai que os Deuses sejam agraciados por uma bela canção. E isso será o bastante, acredite!

A poesia sagrada vai além de palavras rimadas ou combinadas. A poesia sagrada é um encantamento que, sendo inspirado pelos Deuses, emerge da alma do bardo. Quando palavras forem insuficientes para descreverem uma experiência mística ou conhecimento sagrado, deixe sua alma falar ou cantar, mesmo que as palavras pareçam sem sentido num momento, elas serão muito mais profundas e intensas do que você imagina.

A boa fala, de jeito gentil e sem palavras grosseiras, é uma característica do Sábio. É preferível ouvir uma voz gentil e clara, do que hostil e vulgar. Quando conversares com os Deuses e não-deuses, falas dessa forma, com a boa fala, e sem dúvida, serás ouvido e muito provavelmente, atendido.

Lembra-te da tríade irlandesa: “Quatro elementos da sabedoria: paciência, docilidade, sobriedade e polidez no falar. Pois toda pessoa paciente é inteligente, toda pessoa dócil é sábia, toda pessoa sóbria é generosa e toda pessoa que fala com polidez é tratável.”

O bardo também é um contador de histórias. Ele transmite à tribo o conhecimento contido nos mitos e é ele quem mantém a memória da comunidade viva. Alguns bardos de hoje, recorrem às técnicas de contação de histórias e isso, pode ser muito válido.

Mitos são para além de histórias sobre a origem das coisas. Os mitos sagrados nos contam sobre nossa história, são reflexos da alma humana, seus anseios, sonhos e medos. Contam sobre acontecimentos que ocorreram fora do tempo que conhecemos, em realidades no limiar do tempo-espaço, da matéria-espírito. Mitos não falam de uma verdade única e literal, pois os Deuses não são unilaterais. O mito é uma verdade que nunca foi, mas que sempre é.

Da mesma forma que o bardo pode encantar e abençoar com suas palavras, poesias e canções, ele também pode amaldiçoar. Pois as palavras possuem poder, carregam intenção e transformam a realidade a nossa volta. Esse tipo de arte poética é conhecida como sátira, e sabemos muito bem que os antigos bardos a realizavam contra os inimigos da tribo, seja esse inimigo um romano cruel ou um rei sem honra. Mas tenhas cuidado ao proferir palavras e intenções que não conheces o poder que elas podem alcançar. E, não proclames sátiras aos quatro ventos a qualquer criatura que te desagrada. Antes de qualquer coisa, pese as consequências de teus atos e reflita se é justo o que irás fazer. Palavras podem ser flores perfumadas, mas também podem ser facas afiadas, que se mal manuseadas ferem duramente aos outros e por vezes, a ti mesmo.

Por fim, a música é o maior dom e a principal lição do bardo. Ele(a) se torna o verdadeiro bardo/bardisa quando ouve, compreende a Música da Natureza e aprende a caminhar nos passos que ela dita. O bardo quando alcançar um grande conhecimento da música e poesia, ele(a) se torna a própria Música, e se harmoniza, enfim, com a Grande Canção.

Um exercício para o caminho do Bardo:

Feche os olhos, relaxe seu corpo e sua mente. Pronuncie uma palavra, pode ser “Awen” ou outra que desejar, lenta e claramente. Visualize, enquanto pronúncia a palavra, cada letra saindo de sua boca e se espalhando pelo ar. Cada vez que pronunciar essa palavra, veja-a saindo de sua boca... As letras se transformam em coisas e cores, de letras elas tornam-se flores, animais, luz dourada, prateada, azul, esverdeada ou outra qualquer. Perceba como o ambiente fica diferente a medida que você pronuncia essa palavra. Como você fica diferente. Desenvolva essa meditação e deixe que a visualização siga seu próprio ritmo. Esse é um exercício que dará força às suas palavras, e uma palavra que carrega força mobiliza e transforma realidades.

Darona Ní Brighid /|\
Sonhadora, amante de música, poesia, cultura e mitologia Celta. Nascida em terras amazônicas, na cidade à beira do rio (Belém), mas com a alma cuja raiz remonta as terras célticas, além-mar.

Nemeton Samaúma
www.nemetonsamauma.blogspot.com

E-mail:
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