Céad mille fáilte!

CONSULTA DO ORÁCULO

Pesquisa
Menu Principal
LIVRO

BRUMAS DO TEMPO
Poesias, pensamento e ritos druídicos - livro na versão impresso ou e-book.

Informações: clique aqui.
Links

Agradecimentos:
Aon Celtic Art
Licença Creative Commons


A contemplação do tempo

Enviado em 23/08/2012 (1442 leituras)

Atento-me ao ponteiro e a cada segundo que passa, estou à frente de um relógio. Acontecerá que o seu mecanismo entrará no número 11. Quase chegando, no momento que transcrevo. Paro e olho, ponteiro a rodar. Engrenagens pequeninas vão fazendo um cálculo, eu já não sei contar. Os ponteiros vão se movendo e tão lentamente, que a paciência é colocada a prova. Mesmo o que mostra os segundos, contar 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, parece uma eternidade. Faltavam 5 voltas do ponteiro dos segundos para chegar no 11. Faltavam 300 segundos. Não tenho paciência para escrever até trezentos.

E não sei por que parei igual um louco a frente de um relógio para admirá-lo. Mas, como dizem os druidas por ai, a vida é uma contemplação. Como minhas costas já estavam incomodadas (o sono me assolava), eu tomei em minhas mãos aquele relógio de parede. Ao invés do relógio, agora eu era um homem de parede. Encostei-me em uma delas para ficar olhando os ponteiros. Ainda bem que o tic-tac não era a voz desse relógio. Fiquei refletindo sobre o tempo.

É óbvio que eu não definirei o tempo nessas minhas palavras bobas. Se eu pudesse fazer isso, seria considerado um gênio por todas as gerações. Entretanto, vos digo que nunca se apresentará o “gênio do tempo”, em nenhuma era ou milésimo de segundo. Haverá vários loucos, como eu e você, tentando entender esse amigo invisível. E ninguém terá uma resposta exata, como os cálculos matemáticos por trás de um relógio. Mesmo os que tentaram definir o tempo, chegando próximo, ou quase, ou nada do seu objetivo, mesmo considerados eruditos, vieram outras gerações e lhes quebraram as engrenagens. Por isso ninguém chegará a um consenso do que é o tempo.

A nossa sociedade pensa no tempo como uma linha. Engraçado, porque seus relógios são circulares. E quando o ponteiro dos segundos termina uma volta, começa outra. É como se o relógio fosse a voz do tempo, que é invisível, intocável e extremamente ignorado. O relógio nos lembra que a cada volta do ponteiro, mais uma chance e mais outra são dadas. Será o tempo o mesmo ou, então, ele é diferente?

Eu não sei. O tempo parece muito anti-social. São os homens que querem conversar com ele. Mais do que isso, são os homens que agem por conta dele e desejam sempre que ele os recompense. O tempo não é um juiz, nem um galanteador. Ele somente está ali, agora, ontem, depois, amanhã, já era. E nós ficamos aqui querendo defini-lo, como se isso fosse levar-nos a viver em algum paraíso. Quem sabe estão todos querendo saber o que o tempo é para poder pará-lo.

Uma pessoa surge e me vê com o relógio na mão, hipnotizado. Então, diz assustado: “O que foi? O relógio parou?”. Eu respondo tranquilamente: “Não. Ao contrário, foi o relógio que me parou”. O espanto da pessoa foi tão grande, que me faz refletir no tempo parado. Se o ponteiro do relógio estagnado por falta de pilha lhe causa medo, imagine a confusão que seria (ou não) se o tempo parasse? Veio-me a cabeça, se neste instante o tempo parasse e eu... não pudesse terminar. Não foi o relógio que parou, fui eu que parei. Fiquei quieto por alguns minutos, para perder minutos num mundo que nos ensinam que não se deve perder. Eu, o freio da roldana do meu relógio.

Mas o relógio não é o tempo propriamente dito. É uma representação matemática, material e histórica de um hábito de calcular e controlar. O relógio é uma forma da tal conversa entre homem e tempo. É como se fosse o véu que equilibra (não separa) o corpo e a alma. O nosso mundo e o outro mundo. O relógio é o intermediário e os homens tentam entender o tempo por ele, como tentam entender suas vidas pelos outros e não por si próprios, e como tentam chegar a paraísos paralelos, esquecem de viver neste mundo.

O relógio, sim, pode ser o juiz e o galanteador dos homens. Ora ele te aponta com lei o “certo” momento, ora ele te fala as paixões e o romantismo do presente. E os homens são escravos dele. O tempo não é senhor de ninguém, porque não é humano. O tempo é um estrangeiro, do qual a sua língua é difícil de traduzir. O relógio é o que detém conhecimento daquela língua, ainda que distorcida, ele consegue transmitir algo. E controla os homens com esse poder.

E como os homens amam esse mecanismo! Criaram vários monumentos para cultos a este. Erigiram seus impérios e ideologias, pensando nele. Invocaram seus calendários como deuses e profetas. Na areia que desce de uma âmbula a outra, na ampulheta, danças que se confundem. Afinal, se o relógio é o intermediário entre homem e tempo, de alguma forma ele traz a conversa entre os dois.

Ah, o progresso! Fruto das interpretações de uma linha temporal. Não se pode perder. Não tem ninguém a recorrer. Você só pode avançar, não será ensinado a lidar com a sua derrota. Oras, o ponteiro por acaso volta? Ai que mora o veneno que embriaga os mais malucos homens, porque o tempo é sábio. O ponteiro nunca volta, para que você faça “correções”. Jamais isso acontecerá. Mas o ponteiro volta, quando ele terminar de dar a circunferência, ele vai te dar mais uma chance. Logo, não há progresso e nem retrocesso, mas sim, um contínuo acesso à vida. Ou como preferem os druidas, o fluxo da inspiração.

Mesmo depois da morte, o tempo estará transcorrendo e transcendendo. Podem se passar milhares de anos, eras, civilizações e os menores cálculos matemáticos possíveis em um relógio, mas o tempo não vai parar por causa dos ponteiros ou de quem os fez funcionar. O único que pode parar é você, diante do tempo. E mesmo assim, ele ainda não estará preparado para lhe escutar, porque é você que tem que escutar o tic-tac interior. Esse sim, tic-tac, tic-tac, terá algum dia, um fim.

Mas esse fim ou destino, é somente seu.

Mas não nos iludamos pelo relógio, seus números, ponteiros e parafusos. Não saberemos jamais definir o tempo pelo relógio, porque esperar em si mesmo é o verdadeiro trabalho. A hora neste mundo é o sonho em outro lugar do universo. O tempo não é o mesmo, e também não é tirano, contudo pode ser o que quisermos se vivermos o seu silêncio em nosso tic-tac interior.

Voltei o relógio para a parede, pois não poderia quebrá-lo como em meus desejos. Não importa. O relevante em nossas vidas é poder parar no tempo ao invés de desejar parar o tempo. Toda forma ansiosa de contar o tempo, essa sim eu desejo que se repare.

O homem diz: “Eu não sei esperar.”
O relógio diz: “Então, não espere.”
O tempo diz: “Espere em você.”

Isso foi uma meditação. Veja como é simples. Só precisa conceder-te um tempo.

/|\ Awen

Druida do Vento
Eu sou um jovem druida, andarilho de um velho caminho, que vive em um vale, entre os bosques retorcidos e pântanos mágicos. Escrevo o que é despertado pela Awen.

Druida do Vento:
www.druidadovento.blogspot.com
E-mail:
druidadovento@yahoo.com.br

Para ler os artigos de Druida do Vento, clique aqui.
Direitos Autorais
A violação de direitos autorais é crime: Lei Federal n° 9.610, de 19.02.98. Todos os direitos reservados ao site Templo de Avalon e seus respectivos autores. Solicitações para reprodução devem ser feitas por e-mail. Ao compartilhar um artigo, cite a fonte e o autor. Obrigado!

Comentários:

Fáilte... Cadastre-se para comentar | Login

Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Go raibh maith agat... Obrigado!