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Terra sagrada, corpo sagrado

Enviado em 28/08/2012 (1743 leituras)

Incrível como a inspiração é maravilhosa e vem, quase sempre, repentinamente, nos surpreendendo nos momentos mais cotidianos e nos tirando da rotina alucinógena de todos os dias. Depois de tempos, meses, sem escrever nada para ser publicado, eis que hoje, 27/08/12, há mais ou menos 20 minutos atrás, os Deuses mais uma vez sopram sua sabedoria em meus ouvidos.

Enquanto lavava a louça, senti de repente uma pontada debaixo do dedão do pé esquerdo. Sem parar de enxaguar o prato, me abaixei e, com a mão direita, cocei onde havia sentido a pontada. Mas ela continuou como se estivessem a alfinetar aquele lugarzinho debaixo do dedão. De repente, pensei que deveria escrever alguma coisa, pois estava em débito com os leitores (e comigo mesma), se é que alguém me lê! rsrs... E, então, mais que de repente ainda, começaram a surgir palavras, ideias em minha cabeça sobre o corpo, o nosso corpo e sua relação com o sagrado. Terminei de lavar a louça, ainda com os pensamentos brotando em minha cabeça e me sentei na frente do computador. Eis as ideias que me foram sopradas...

Muitas religiões valorizam demais o espírito, a mente, em detrimento da matéria e do corpo. Isso, para mim, provoca um desequilíbrio, porque simplesmente não podemos ignorar nossos corpos. Temos sensações, sentimentos, prazeres e dores que, se ignoradas, às vezes, dessacralizadas, nós adoecemos e nos desequilibramos emocional e fisicamente.

No Druidismo e, também, em muitos ramos do paganismo e espiritualidades ligadas à Terra, procura-se valorizar tanto o espírito quanto o corpo. Na verdade, dentro do Druidismo, temos uma visão de que corpo e alma não estão profundamente separados, ou melhor, que o Divino e o Mundano não são oponentes. Eles são “lados da mesma moeda”, são faces da mesma realidade.

É através de nosso corpo, de nossos sentidos e sensações que o sagrado se comunica conosco. No voo dos pássaros, no canto de um bem-te-vi, no barulho do vento, no cair da chuva, no sonho no meio da noite, os Deuses e ancestrais falam conosco, nos inspiram e nos aconselham a todo o momento.

Nosso corpo deve ser cuidado, deve ser mantido saudável, pois ele é sagrado. Uma prece à Epona diz: “como a terra é minha carne, pedra os meus ossos, cada erva é meu cabelo, o mar meu sangue, o Sol é minha pele, minha alma a Lua, as estrelas meus sentidos, minha razão as nuvens e o vento é minha respiração”. O nosso corpo, portanto, é a Terra e a Terra é sagrada.

Nosso corpo possui uma linguagem, uma fala e ele está o tempo todo nos dizendo algo. Se pararmos para pensar, temos órgãos, células, neurônios, que funcionam perfeitamente e divinamente bem (quando estamos saudáveis, claro, e mesmo quando não, pois ainda assim ele luta para restabelecer a saúde), sem a nossa “vontade”, ou seja, sem a nossa autorização consciente. E o nosso corpo faz isso o tempo todo. Não acho loucura pensar que ele tenha uma consciência própria. Quando algo está errado em nosso organismo, ele tenta de todas as formas nos avisar disso, seja por meio de dores, sensações estranhas, irritação e até mesmo de sonhos ou insônia. Nós é que, ocupados demais com os afazeres e, principalmente, com as distrações da vida moderna, ignoramos essa voz, essa fala do corpo. Mas ela está lá, ou melhor, aqui, dentro de mim, e aí dentro de você, o tempo todo se comunicando com sua consciência. Resta-nos parar um pouco, silenciar a mente e escutar.

No xamanismo de influência maia, existe um conceito chamado “a fala do sangue”, como explica Tedlock no livro “A mulher no corpo de xamã” (2010), que é na verdade uma forma de sabedoria, por vezes se aproximando de um tipo de oráculo, em que o/a xamã sente uma pontada, fisgada, calafrio ou sensação de calor em determinada parte do corpo e dependendo da região do corpo, existem interpretações e significados diferentes.

A dança, caminhada, ioga, exercícios físicos em geral, atrelados a uma boa alimentação, são ótimas formas de fortalecer, não só a nossa saúde, como também a conexão entre mente e corpo, espírito e matéria. E estando essa conexão bem harmonizada, podemos ser capazes de ouvir a voz e a canção dos Deuses, e sermos por ela inspirados...

Na mulher, durante os dias que antecedem a menstruação e durante esta é um bom período para perceber e se conectar com o seu corpo. Perceber as mudanças que ocorrem nele, como seios inchados, pele oleosa, sonhos mais vívidos. Enfim, percepções que irão aos poucos nos (re)despertar para a consciência do próprio corpo.

No homem, bem, não sou homem, mas imagino que nos momentos de excitação o corpo é tomado por sensações de êxtase, e mais do que em qualquer outro momento, o corpo “fala” e age por si. Esta é a hora em que se deve abrir à percepção para o corpo, sentir e ouvi-lo.

Entre todas as formas, penso que a dança seja a mais incrível de nos fazer despertar para a percepção do corpo, e mais do que isso, de nos conectar com o sagrado. Seja na dança do ventre, tribal fusion, flamenco ou na dança circular (que é a que eu mais tenho afinidade e carinho), sentimos que naquele instante tudo pára, as preocupações, as responsabilidades, a correria e só sentimos o momento presente, a música, o chão sobre nossos pés, o ar que enche nossos pulmões, a sensação de bem-estar, leveza, paz... E é nesse momento, quando paramos para o mundo de fora e nos voltamos para o nosso interior, que sentimos nosso corpo, e que ouvimos nossa alma.

Experimente fazer uma coisa: ponha uma música que gosta muito, aquela que te faz viajar nos pensamentos. Feche a porta, a cortina, não deixe ninguém te atrapalhar. Feche os olhos, respire fundo e lentamente. Sinta seus pés, suas pernas, suas raízes, sustentando seu corpo. Comece a movimentar seus braços no ritmo da música e, então, os pés. Enquanto movimenta os braços no ar, olhe para eles, veja-os cortando o ar, liberando faíscas, lançando luzes no ambiente. Movimente seu corpo, solte-o, sem tensões, sem vergonha, seja uma criança de novo. Brinque, ria, chore, pule, gire! Sinta a música! E quando seu fôlego faltar, pare um pouco e respire fundo... Sente seu coração bater? Sente o suor cair na face? Sente o sangue quente sob a pele? Sente o Espírito pulsar em seu Corpo? Quando você sentir isso, sentirá então o riso dos Deuses no seu riso, e ouvirá a voz da natureza lhe falar aos ouvidos.

E isso é sagrado.

Abençoado seja o caminho que me conduz aos Deuses e ancestrais.
Abençoados sejam meus pés que trilham este caminho sagrado.
Abençoadas sejam minhas pernas, minhas raízes, que sustentam meu corpo.
Abençoado seja meu sexo e meu sangue, símbolo de meu poder feminino na Terra.
Abençoado seja meu ventre, que guarda e germina as sementes de nova vida.
Abençoados sejam meus seios, que produzirão o leite cujo os filhos se alimentarão.
Abençoadas sejam minhas mãos, que elas levem a Cura para o doente,
O afago para o ser carente e a benção para tudo o que tocarem.
Abençoados sejam meus braços e toda a produção que venha deles.
Abençoados sejam meus lábios, que eles somente profiram a sabedoria e a verdade.
Abençoada seja minha mente, que nela haja o bem e pensamentos de paz.
Que haja benção, proteção e saúde em mim e em meu lar.
Todo o dia e toda a noite.
Os Deuses acima para me inspirar.
Os Nobres ao lado para me guiar.
E os Ancestrais abaixo para me proteger.
Assim seja!

Benção da plenitude /|\

Por Mayra ní Brighid
Sonhadora, amante de música, poesia, cultura e mitologia Celta. Nascida em terras amazônicas, na cidade à beira do rio (Belém), mas com a alma cuja raiz remonta as terras célticas, além-mar.

Nemeton Samaúma
www.nemetonsamauma.blogspot.com

E-mail:
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