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Morgana, vilã ou heroína?

Enviado em 16/10/2008 (6648 leituras)

Desde os autores da Idade Média aos da literatura contemporânea nada se apresenta mais controverso do que a figura de Morgana , onde em algumas versões ela é tida como a grande vilã no enredo enquanto outros designam a ela o papel de fundamental aliada de Arthur.

No principal documento que a cita historicamente, a saber, o livro intitulado ´´Vita Merlini ´´ (Vida de Merlin) de autoria de Geoffrey of Monmouth (1100 - 1155) , Morgana é apresentada como uma das nove irmãs que governavam um lugar mágico a que chamavam ´´ Ilha das Maçãs´´ e que homens conheciam pelo nome de "A Ilha Afortunada" (a mesma é citada em ´´ Navigatio Sancti Brendani´´ por São Brandão na narrativa de suas lendárias viagens aum Paraíso Perdido), pelo fato de que ali a Mãe Natureza nutria seus habitantes com tamanha abundância que nem havia necessidade de cultivar a terra e nela passar o arado.

Morgana é aqui chamada de ´´Morgen´´´por Geoffrey , sendo descrita por ele como tendo notável beleza, extraordinários conhecimentos e incríveis poderes de mudar a sua própria forma.

Seria ela uma espécie de líder e mentora de suas irmãs. Porém, a importância que dá a ela no ´´Vita Merlini ´´é secundária já que o texto concentra mais em falar de Merlin (praticamente só um parágrafo é gasto para mencioná-la) que encerra uma espécie de trilogia que deu inicio com ´´Prophetiae Merlini´´ (Profecias de Merlin) e passa por ´´ Historia Regum Britanniae ´´ (Histórias dos Reis da Britania).

Posteriormente a mesma personagem com certas mudanças é citada com um pouco mais destaque como ´´Morgawse´´ (vemos outros autores menos renomados a chamá-la também de ´´ Anna´´) por Sir Thomas Malory (1405-1471) em seu livro ´´Le Morte d´Artur´´ onde é compilado para o francês as sagas arthurianas. Porém, seja qual fosse o nome o fato é que Morgana e outros personagens femininos figuram como secundários em face Arthur, Merlin e os Cavaleiros da Távola Redonda.

Tempos depois já no século XX a escritora norte-americana Marion Zimmer Bradley (1930-1999) tem a iniciativa de criar uma versão sob o ponto feminino das lendas arthurianas em seu livro ´´ As Brumas de Avalon ´´ onde Morgana é finalmente elevada a condição de quase personagem central da estória só que assumindo a alcunha de ´´Morgana Le Fey´´ no enredo.

Ocorre que seja como Morgen, Morgawse, Anna, Morgana Le Fey ou qual for o nome, tomada como personagem principal ou mero coadjuvante na trama bem como também encarando seu papel como vilã ou heróina na vida de Arthur, o fato é que toda esta narrativa não passa de uma espécie de ´´releitura´´ de lendas bem mais antigas.

Nesta perspectiva, centrando a obra de Geoffrey of Monmouth como grande paradigma na criação da mitologia arthuriana, pelo o qual outros escritores vieram depois para se inspirar pelos século afora, a tese mais aceita é que ele fez uma versão ´´franco-normanda ´´ de mitos célticos e o mesclou com ficção histórica, ou seja, pegou lendas ancestrais e procedeu uma ´´revisão´´ nos eventos históricos de modo que lendas e fatos se misturassem como sendo uma só coisa.

Seja quem for Morgana como personagem histórica, partindo é claro do pressuposto que ela tenha de fato existido, não resta dúvida que Morrigan é a principal base de inspiração para Geoffrey compor a sua personagem.

Evidências que comprovam esta ascendência mítica sobre Morgana são inúmeras que vão desde sua descrição física, seus poderes e atitudes que são bem típicos daqueles vistos em Morrigan. Por exemplo, o poema ´´Morgan le Fay ´´ de autoria de Madison Julius Cawein ( 1865 -1914 ) e vejam se ´´a sombra de Morrigan´´ não aparece lá:

"De *Samito era feito o seu leito,
No seu cabelo um aro de ouro,
Como luminescência orgânica, no amarelo-torrado da luz do luar,
Era luzente e fria.
Com olhos cinzentos claros, ela olhava ameaçadora e fixamente;
Com lábios vermelhos claros cantava uma canção:
Qual era o cavaleiro que ao olhá-la,
Não a receava?"

*Obs: samito era uma espécie de tecido pesado de seda usado na Idade Média.

Sendo assim, Morgana, nem tão vilã mas muito heroína.

Por Ioldanach
Ioldanach se define como auto-didata e celtista amador que tem como linha de pesquisa tratar o assunto de maneira objetiva e da forma mais científica possível.

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