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O Saber de Si no Sagrado Feminino

Enviado em 08/06/2009 (5250 leituras)

A emancipação da Deusa encarcerada e a importância dos mitos celtas

O título é sugestivo e até mesmo paradoxal: como pode uma Deusa estar encarcerada? Tanta fluidez no ir e vir de sua sacralidade daria à Grande Morrighu, Brighit ou Cerridwen mobilidade para além do bem e do mal, transitando, etéreas, na plenitude de suas essências...

A prisão a que me refiro, contudo, é aquela à qual nos condicionamos, quando inconscientemente construímos - nós - grandes deusas-guerreiras, cada parede gélida de uma cadafalso invisível, encerrando ali nossas almas sacrais. Impelimo-nos, pouco a pouco, nessa prisão mental, emocional e espiritual, para a estagnação de nossas essências, arrebatadas nos atropelos desse mundo em que ainda se insiste em pretender ferir a Grande Mãe!

Tenho muitas reservas em relação a Nietzsche (principalmente quanto à misoginia de seu discurso e ao desconhecimento preconceituoso dele quanto às expressões religiosas... mas, enfim, um desconto a ele e à sua época misógina!), mas, na Genealogia da Moral, uma célebre frase vem à mente: “não nos conhecemos, somos desconhecidas de nós. Nunca nos procuramos e, por conta disso, como, então, poderíamos nos encontrar?”. Como podermos, então, conhecer nossa identidade sagrada se, no cotidiano de nossas vidas, não conseguimos celebrar internamente a Divindade que habita em nós?

Estudar o Sagrado Feminino e celebrar os giros das rodas faz parte da minha trajetória. Sagrado, sacralidade, Feminino, Feminismo, antes de serem conceitos tão criticados – geralmente por quem nada deles sabe – sempre foram um prolongamento do que estou (ou sou, sei lá) nessa existência magnífica.

Talvez por conta disso eu tenha certa reticência quanto aos rótulos: bruxa, pagã, wiccana, wiccaniana etc. Eis-me aqui, nessa configuração corpórea, como simplesmente... eu, nascida na Divina Essência da Grande Mãe. Se, por qualquer vã tentativa, pretender compartimentar esse “eu” em diminutos espaços com significação, não mais seria esse “eu” a plenitude da Grande Mãe!

Um problema sério (não para mim, mas, nas conversas de corredor, para as pessoas que concebem outras realidades e não suportam a diferença): Não sigo dogmas ou liturgias pretensamente forjadas porque, tomando-me como expressão máxima da Natureza (Physis), a Ela me atrelo, sem re + ligare, pois entendo estarmos conectadas e conectados, todas e todos que, em nossas vidas, celebramos os ciclos na própria carne.

Não que isso seja uma crítica a quem celebra as faces da Deusa por meio de atos litúrgicos e cerimoniais. Respeito-os. Todos. Isso porque, minha essência é de respeito inquebrantável, mesmo diante do que considero aberração. Não, não pretendo aqui polemizar o que já se discute – há tempos – na Arte – pois acho que, fazendo isso, sem nos darmos conta, reproduzimos acriticamente as antigas discussões que enviaram tantas e tantos de nós às fogueiras.

Não poderia, entretanto, ficar alheia ao que acontece no mundo em termos de agressão ao Feminino e de encarceramento da Deusa. Essa é a conversa de hoje...

Participei, um dia desses, de um encontro muito interessante sobre gênero e feminismo, envolvendo, claro, a mitologia celta, bem como as expressões literárias sobre o arquétipo da bruxa, desde personagem secundário nos contos de fadas (pois a “princesa” dócil e submissa é a figura aglutinadora) até o resgate contemporâneo da adoradora da Natureza (muito bem lembrado por Marion Zimmer Bradley nas Brumas de Avalon).

Observando o movimento do Universo, peguei-me, num desses momentos de pura contemplação silenciosa, refletindo sobre minha identidade, bem como sobre os valores em que acredito e os quais cultuo e pratico, descobrindo meu papel no mundo a partir do papel que EU escrevo em meu caderninho do viver...

Nesse ir e vir dentro da mitologia celta, percebi – como, aliás, percebo, o quanto a misoginia ainda se reafirma nos discursos, nas práticas, na vida. Mas, aparentemente, a anestesia da alma impede que seja desbloqueado o desconfiômetro, porque, afinal, parece que estamos a viver na constância dos nefastos contos de fadas, que nos transformam em eternas "princesas" à espera de príncipes. Ou seja, espectadoras do viver alheio e objetos de satisfação da alteridade. Eis a sentença de confinamento para a Deusa.

Dentro disso, esquecemos que somos Deusas e, no esquecimento, nossas lindas almas de deusas-guerreiras reverberam, infelizmente, em torno do “rei da casa”, porque, sem ele, a vida nada tem de sentido! Acordemos!

Em cada letra de música que nos reifica – nós, deusas-guerreiras-mulheres - deslocando-nos de sujeitas de nossas existências para objetos de alheio bel-prazer. Em cada modelo anoréxico cultuado na televisão, em cada técnica de "embelezamento" agressivo à alma, tudo mostra o quanto chegamos ao fundo do poço, na contramão de nossas histórias.

As rugas, estrias e os seios que amamentam a vida deixam espaço para a violência indireta que assolam nossos corpos mutilados pelo sentido de busca de aceitação na alteridade. Por que nós, Deusas, precisamos tanto da referência do outro em nossa afirmação? Afinal, somos plenas, cheias, lunas! O culto, ao final, inverteu-se: de referência, passamos a referidas, moldadas e, portanto, encarceradas dentro de nossas divindades!

As rugas, essas tão antigas marcas da existência, são artificialmente apagadas, porque, quando não mais menstruamos, quando não mais temos sexo e, sobretudo, quando nos destacamos da costela de Adão, não mais valemos para esse discursinho falso e pobre que, em algum momento da História, afirmou o primado misógino que nos empurrou ao segundo plano da narrativa...

E não me venham, aqui, Grandes Deusas, com pactos: "vamos tomar o poder", "sejamos como eles". O que é isso? Empoderamento? Ou seria apenas a lógica ao inverso, com a mesma arrogância que nos trouxe até aqui, destruindo a Natureza, matando uns aos outros e gerando teorias que apenas sustentam a desigualdade?

Nos EUA, na África do Sul e na Austrália, o atentado mais crescente tem sido o estupro: encarceraram, pois, a sacralidade de nosso sexo, assenhorando-se de nós, Grandes Deusas, como se toma um continente de assalto (afinal, assim como os territórios, temos curvas!). No momento em que estamos lendo este artigo, a cada 12 segundos, uma mulher é estuprada no Hi-Brasil (sim, aqui).

Nunca antes o ódio contra a mulher e a necessidade de empoderamento estiveram tão presentes num modelo de masculino misógino que pretende se apropriar de algo que toma como tributo natural – nossos corpos sagrados de Deusas. Em cada desqualificação do feminismo e dos femininos reside o esquecimento da Deusa, a amnésia em relação à realidade plúrima que nos une aqui, resultado das materializações do que historicamente construímos, vivenciando nossas MARAVILHOSAS DIFERENÇAS!!!!

Ontem uma alma perdida em seu desalento, sabedor de minha sacralidade (e desconhecedor profundo de tudo aquilo que foge de seu umbigo), enviou uma curiosa mensagem para mim. Trata-se de uma alma que, por ruptura de afinidade energética, trilhou por outros vales.

A mensagem, grossa, rude e ríspida, com invulgar impáfia e arrogância vil digna do conquistador romano que dizimou culturas e instalou o império da violência ao Sagrado Feminino, indagou-me se eu queria fazer sexo tântrico com ele. Uma ignorância. Mas acredito que falar sobre a ignorância colabora para sua diminuição e, mais, acredito que falar para as deusas a agressão a uma deusa seja uma forma de compartilhar o resgate ao sagrado, em termos comunitários.

Pois bem, onde reside a arrogância? Primeiro (mas não necessariamente mais importante), na maneira como se desrespeita um valor milenar hindu (numa manifestação de incomum eurocentrismo colonizador – referência a sexo tântrico como se fosse aquele ensinado nos manuais de R$1,99). Segundo – e, de fato, mais importante - na maneira como se desrespeitam nossos valores enquanto deusas-guerreiras-mulheres, por intermédio da reificação de uma deusa que é concitada a satisfazer o falo de um infeliz...

O mais interessante, contudo, é saber COMO ESSA TIPOLOGIA DE HOMENS MISÓGINOS AGE ASSIM E TOMA ISSO COMO VALOR MARAVILHOSO, REPRODUZINDO LIÇÕES DE CASA, de um lar MISÓGINO, DE EDUCAÇÃO MISÓGINA, e, no cotidiano de suas ignorantes vidas, tentam se APROPRIAR de nós... NÃO!!!!!

Uma centelha vem à mente: por que nós, mulheres plenas, simplesmente deixamos e permitimos isso? Onde foi que decaímos tanto, em qual momento histórico? Sempre fomos DEUSAS, e hoje, insistimos, muitas vezes, em ser a lixeira espermática de seres completamente toscos em seus propósitos!

Quando ligo a televisão, quando escuto uma música, quando ouço propagandas. Na sala de aula, nas conversas de bares (sem puritanismo, mas, de fato, nem tenho ido a bares!! Haha), enfim, tudo exala à violência simbólica do ódio mortal às mulheres, a nós, mulheres, porque não ouso falar sequer na terceira pessoa! Recuso-me a me separar, a me apartar... Sou mulher e Deusa encarnada, e entendo que não estou no mundo para pedir licença por minha essência. Ao contrário, venho cobrar do mundo, por meio da socialização do conhecimento de meu clã, a conta em relação à iniqüidade que foi feita à Grande Deusa ao longo de nosso passado.

Nesse abismo todo, onde entram os mitos celtas?

Muito simples, eles são a narrativa livre de um arquétipo subversivo, que rompe com a linearidade história que foi contada pelos vencedores e opressores. O mito celta desencarcera a Deusa sufocada e, libertando-a, liberta a cada umas de nós, pois nos lembra que a força vital reside no útero e em tudo aquilo que a ele remonta.

Macha não pediu licença para chegar até as terras de Crunniuc. Ela veio com o Sol, impondo-se em sua potestade inquestionável. Enquanto respeitada no que tinha por mais sagrado – a Soberania – Macha revela a equidade de sua face terna. Inflamada, porém, em sua ira, por conta da traição do esposo, mostrou seu lado irascível, a raiva que o Ocidente sempre fez questão de acobertar em relação à Grande Deusa: “mocinhas não sentem raiva”.

Aliás, não só na mitologia celta, mas até mesmo em muitos momentos da narrativa greco-romana, a ira, a vendeta, o ódio sempre ficaram enjaulados, abscônditos em níveis profundos do inconsciente. A Sagrada Mãe passou a ser submissa, pois isso é o que se espera da mulher docilizada pelo masculinismo que se apropriou da narrativa mitológica.

Nos mitos celtas é interessante observar como a arrogância masculinista desencadeia a ira da Deusa. O masculinismo é o empoderamento do masculino em detrimento do feminino, acarretando a desqualificação desse para o predomínio do primeiro. Importante fazer essa ressalva para que o leitor não seja induzido a acreditar que estou fazendo um discurso raivoso contra o homem. Não, o que me causa espécie – e que me faz estudar muito os mitos, a sacralidade – é o desvirtuamento do poder, que deslocou o eixo da divindade para a submissão da deusa e, portanto, em nível arquetípico, de nos, mulheres. O que proponho é a reflexão para que seja celebrada a solidariedade, e não a competição, entre o casal sagrado.

Cu Chulainn, quando rejeita Morrighu, sela seu triste destino, pois a grande Guerreira promete voltar no momento da derrocada do herói.

Mesmo que alguns narradores entendam que essa história representa uma versão poética de romanceada história de amor (como o genial Cláudio Crow), o que se revela, por trás, é a fúria implacável da Grande Mãe-guerreira que, ao final, volta, na forma de corvo, sorvendo as vísceras do herói que a repeliu outrora. Os corvos se fartam das vísceras do herói do ciclo, representando, assim, ao final, a submissão à imortalidade de Morrighu (já que a deusa permanece). Para os antigos, as vísceras eram sinal de profética força, a força vital que nos move e que, no caso de Cu Chulainn, retornou à Deusa-Guerreira, na forma de corvo.

Cerridwen, por sua vez, destila seu fel perseguindo Gwion, jovem que ousou se apropriar do conhecimento hermético contido nas três gotas de poção que a Mãe Deusa iria dar ao seu filho Affagdhu. A perseguição termina com a Deusa literalmente engolindo o jovem, para que ele pudesse, ao final, renascer Taliesin e, dentro da transmutação, vir a lume com a sabedoria de quem, ao final de tanta provação, passou a respeitar o feminino. Foi engolido pelo Feminino.

O que se pode dizer da Rainha-deusa Maeve? Libertária da expressão maior de regência de sua vida, de seu corpo e de sua sexualidade. Soberana, rainha que esteve à frente de exércitos, assim como a posterior Boudicca que, ao ser obrigada a assistir aos estupros de suas filhas, buscou dentro de suas entranhas feridas a força para dizimar a arrogância de uma falange inteira do exército romano. E, ao final, quando foi “capturada”, não se deixou dominar, tendo preferido sorver veneno a se prestar para a lascívia moral de Júlio César.

Quando se atravessa a narrativa mitológica para os contos de fadas celtas, a história de liberdade também se confirma, pois, ao contrário do universo simbólico dos contos-de-fadas modificados pela conveniência mercadológica dos conquistadores, a narrativa celta é repleta de histórias sangrentas – pois o sangue marca nossa alma de Deusa-que-sangra – de bruxas, heroínas e mulheres soberanas em suas escolhas. Senhoras livres em si e que, por expressão dessa liberdade, não esperam príncipes, pois sabem que, rainhas, têm diante de si seu Universo!

Hey ho, grandes Deusas, desencarceremo-nos para a vida!

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtíbero.

Sagrados Segredos da Terra:
http://www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com

E-mail:
adlvmiranda@yahoo.com.br

Para ler os artigos de Audrey Donelle Errin, clique aqui.


Referências bibliográficas:
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May, Pedro Pablo. Os mitos celtas. Trad. de Maria Elisabete F. Abreu. São Paulo: Editora Angra, 2002.
NOGUEIRA, Carlos. Bruxaria e história. Bauru: EDUSC, 2004.
ROBLES, Martha. Mulheres, mitos e deusas: o feminino através dos tempos. Trad. William Lagos. São Paulo: Aleph, 2006.
ROCHA, Everardo P. Guimarães. O que é Mito. São Paulo: Brasiliense, 2006.
QUINTINO, Claudio Crow. O livro da mitologia celta: vivenciando os Deuses e as Deusas Ancestrais. São Paulo: Hi-Brasil, 2002.
SQUIRE, Charles. Mitos e lendas celtas. TRad. Gilson Soares. Rio de Janeiro, 2003.
VARANDAS, Angélica. Mitos e lendas celtas na Irlanda. Lisboa: Gráfica Europam, 2006.
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