Início Login     

A Soberania Guerreira

Enviado em 12/03/2011 (3921 leituras)

"Na epopia celta encontram-se muitas personagens femininas que nada ficam a dever aos homens. Segundo a tradio, a Irlanda era habitada, antes do dilvio bblico, por uma mulher primordial de nome Cesair; e a prpria Irlanda se tornou uma entidade divina ou ferica, conhecida posteriormente. Foi tambm uma mulher, Airmed, a filha do deus-mdico Diancecht que, graas sua cincia e magia, devolveu o poder real ao Nuada vencido, fabricando-lhe um brao de prata to eficaz e vivo como o seu brao de carne, fazendo-lhe um implante graas a uma operao cirrgica.

Acontece, com efeito, que na perspectiva celta, as mulheres so dotadas de poderes, s vezes, ignorados pelos homens. A mulher a imagem simblica da Soberania, pois encarna o conjunto da comunidade junto ao rei como uma chave mestra, um pouco como acontece no jogo de xadrez em que a rainha a pea de maior mobilidade, mas onde o rei tambm uma pea fundamental, sem a qual se perde a partida.

Nas narrativas picas aparecem as mulheres mgicas, alm de feiticeiras, como a primeira esposa de Mider, Fuamnach, inimiga jurada da bela tain (segunda esposa de Midir), e mais tarde mulheres-guerreiras iniciadoras dos jovens e temveis sacerdotisas especialistas em manipular os sortilgios. Estas mulheres nunca deixam de viver em plenitude, arcando com as consequncias dos seus atos. Por mais conscientes que estejam do seu poder, no esquecem que podem morrer de amor [?], estando sujeitas s circunstncias que lhes alimentou a paixo voraz dos seus caprichos.

A caracterstica mais saliente destas heronas femininas picas apresentarem mltiplas aparncias, mltiplos rostos, mltiplos semblantes, geralmente trs, tendo em considerao o nmero simblico sagrado dos Celtas, o qual se apresenta na forma de trade. As heronas aparecem por isso, com inmeras aparncias e nomes, em diferentes pocas e em outras vidas sucessivas.

Morrigane (Morrighan), filha de Ernmas uma das personagens mais marcantes das tribos da deusa Dana, junto com suas irms Badb e Macha eram conhecidas pelo nome de "Trs Morrgans". O que nela melhor se evidncia, em particular, na narrativa da Batalha de Magh Turedh, o fato de se tratar de uma divindade guerreira temvel para os seus inimigos durante os conflitos, enquanto exortava os guerreiros a combaterem com encamiamento.

O nome Morrighan, que significa "grande rainha", evoca o da "fada" Morgana do ciclo arthuriano. Morrigane o tipo de mulher celta vista pelos autores das epopias mitolgicas; e, muitas vezes, vamos encontrar este tipo nas personagens femininas que, na fronteira entre o humano e o ferico, possuem dons mais ou menos sobrenaturais, como o poderoso Geis, ou seja, o poder do encantamento mgico que tem o valor de obrigao absoluta para os que dela objeto.

Os filtros do amor pouco podem fazer face ao encantamento mgico e religioso que intervm no mundo invisvel, e faz depender os atos humanos das divindades invisveis. A jovem tain dos Cavalos, profundamente amada pelo sombrio deus Mider, no escapa dos Geis lanado pela sua rival Furimach, e nada neste mundo consegue poup-la ao longo do perodo de turbulncias e depois de metamorfoses que a afetaro profundamente. Apesar disso, a aventura de tain e de Mider uma histria de amor "normal", na mais bela tradio romntica.

Na epopia celta, no entanto, o amor no um sentimento isolado, fazendo parte das grandes mutaes que se operam no universo; tudo se dirige por entre as diversas peripcias psicolgicas, para uma dimenso csmica qual ningum consegue escapar... E, acima de tudo, procura transmitir-se a idia de que a mulher, que iniciadora por essncia, capaz de dar, com o seu amor, um segundo nascimento, o nascimento na eternidade, quele que escolheu para amar." Descrito por Jean Markale em "A Grande Epopia dos Celtas".

A fora guerreira presente nas mulheres celtas, que no necessariamente precisam "morrer de amor", fonte de inspirao para ns e que, por uma srie de motivos, se perderam no tempo. Despertar essa energia tambm faz parte do caminho, pois os celtas acreditavam na igualdade dos seres e acima de tudo, na sacralidade do Todo. Esse tema nos faz perceber como a espiritualidade celta nos conecta com as essas foras primordiais, implcitas nos trs mundos ou trs reinos celtas, to necessrios a todos ns.

Bnos plenas do Cu, da Terra e do Mar!
Credito da imagem: Denise Garner

Rowena A. Senėwėen
Pesquisadora da Cultura Celta e do Druidismo.

Website:
www.templodeavalon.com
Brumas do Tempo:
www.brumasdotempo.blogspot.com
Trs Reinos Celtas:
www.tresreinosceltas.blogspot.com

Leia os artigos de Rowena Ferch Aranrot.
Direitos Autorais

A violao de direitos autorais crime: Lei Federal n 9.610, de 19.02.98. Ao compartilhar um artigo, cite a fonte e o autor. Todos os direitos reservados ao site Templo de Avalon : Caer Siddi e seus autores. Referncias bibliogrficas e endereos de sites consultados na pesquisa, clique aqui.

"Três velas que iluminam a escuridão:
Verdade, Natureza e Conhecimento." Tríade irlandesa.

Go raibh maith agat... Obrigada!
Rowena A. Senėwėen