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A Grande Rainha na véspera de Samhain

Enviado em 27/04/2011 (3493 leituras)

As deusas celtas, em particular, so o retrato fiel da complexidade humana tangida pela imortalidade, materializando a consistncia existencial que nos coloca, no aqui e no agora, a questionar nossas condutas e atitudes, em cima de uma "reta razo" que somente poderia acenar para um, dentre os dois caminhos a seguir: "cu e inferno", "bem e mal", na desptica dualidade poltica do iderio teolgico ocidental que empunha armas para a destruio do outro.

Passamos boa parte do tempo na preocupao em conduzir nossas vidas de acordo com princpios ticos absolutos, que levam medonha escolha entre dois caminhos, como se fosse muito simples, fcil e cmodo o despojamento de todo rol de informaes imemoriais que trazemos de outras existncias, onde o "bem e o mal" nem sempre so visveis.


Morrighan a contramo da dualidade puritana, porque encerra em sua fecunda personalidade a complexidade e a riqueza de uma entidade que se compe de unidade, profundidade e latncia.

Acredito, inclusive, que a polarizao em torno da expresso Morte-Vida tambm seja, ao final, um simples trocadilho semntico que induz ao erro de crermos na existncia de situaes definidas de mundos (mundo dos vivos, dos mortos) quando, no simbolismo celta, o material e o espiritual constituem a mesma essncia, tendo por elo a Natureza e seus mistrios.

Morrighan ama, odeia, fere, cura e mata, colocando, assim, em xeque-mate a compreenso de um mundo dual, em que as qualidades ms so colocadas embaixo do tapete, enquanto a suprema bondade revelada e enaltecida.

Como orculo, Morrighan estabelece a soberania do conhecimento alm-mundo e, revestida de poder, concita o Deus-Sol a chamar para si a tarefa de guiar o povo. Deusa e Deus, ali, compondo a harmonizao e a unidade, para lembrar da complementaridade entre gneros, e no da competitividade.

Em outro episdio, a Grande Rainha une-se sexualmente com Dagda na vspera de Samhain no rio Unshin, em meio aos corpos ensangentados daqueles que, no dia seguinte, iriam ser mortos em combate. Interessante refletir sobre a percepo oracular e meta-temporal do evento, por conta do encontro se dar num momento fora-de-tempo (nossa, como me sinto fora do tempo), j que, de fato, a guerra iria ser travada no dia seguinte.

Amorosa, a Rainha forneceu ao Deus importantes informaes sobre o combate, alm de inform-lo que tambm iria tomar parte na luta.

A histria que acho mais intrigante, porm, relaciona Morrighan a Cchulainn, o heri que despreza a deusa e, assim, atrai sua ira eterna, ao ponto de aguard-lo ao final da jornada mtica.

Depois disso, Morrighan ainda apareceu, em luta, para o guerreiro, sob a forma de um lobo, uma enguia, de uma novilha vermelha descornada e, por ltimo, de um corvo, que iria aguardar o fim da agonia de um moribundo Cchulainn.

Mais uma vez, a trindade, pois a deusa encarnou trs animais de poder para, por ltimo, incorporar o corvo, guardio eterno dos segredos do Alm-vida. Detalhe: ela a negou, por trs vezes, porque, a cada momento de sua apario para o jovem, a deusa fora por ele ferida. Mesmo assim, continuou esperando por ele at o final...

O corao possui razes das quais a prpria razo desconfia? No, sei, ao certo, porque, lendo a histria da deusa, passo, cada vez mais, a desconfiar que a razo tenha razo.

Acredito que o corao, ao final, detm todos os segredos do mundo. Apenas sei porque sinto, no porque saiba que a transcendncia da polarizao a chave para a compreenso da mitologia celta, de suas deidades e, para ns, humanos e humanas, mortais, de nossa prpria histria e jornada. Eis-me, aqui, ento, fazendo da minha prpria vida uma jornada ldica, onde tema, mito e mitemas compem, a todo tempo, cada passo da minha brava, amorosa e plena trajetria!

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtbero.

Citao:
"Conectada aos mistrios da ancestralidade da terra."
Sagrados Segredos da Terra
www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com.br

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