Início Login     

O retrato onírico do medo de ser poderosa

Enviado em 18/03/2009 (3540 leituras)

Durante boa parte de minha vida - incluindo meu aqui e agora envolto na honestidade de no querer seguir com mscaras existenciais - caminhei de mos dadas com o medo, compondo com ele uma bizarra, porm, confortvel, unio estvel: minha alma, querendo fluir e seguir vos cada vez mais altos no espao csmico do viver. Ele, O medo, segurando gentilmente minha mo sob o escudo protetor saturnino da castrao, impedindo-me de me lanar na saga de assenhoramento da minha vida.

Sempre li e estudei muito, dedicando-me bastante ao sacerdcio e ao sacro ofcio em servir aos desgnios da Deusa. Passava horas a fio lendo os filsofos gregos e a suma teolgica de Toms de Aquino, intercalada, muitas vezes, com a prazerosa leitura de Marion Zimmer Bradley, Michelet e Louis Bourne. Quieta, silenciosa, ficava envolta em meus pensamentos, atrada pelo universo do que era desconhecido e atemorizante para algumas pessoas: para mim, o oculto era espelho do desconhecimento em relao minha alma.

Nas estantes de casa, obras completas de alquimia, magia, bruxaria moderna, wicca, magia cerimonial. Todas lidas, dissecadas, digeridas em frmulas prontas, dispostas em verdadeiros tratados sobre um viver que quela poca eu compreendia como sendo verdade incontestvel, mas que hoje vejo ser apenas a viso que algum plasmou como roteiro de seu caminho, nada mais.

Em certo momento, cheguei a me identificar bastante com aquela bruxinha da saga de Harry Potter, chamada Hermione: uma expert, estudiosa dos caminhos sagrados, com muito contedo, mas com pouca, ou quase nenhuma f em relao ao poder interno de soberania dedica. E mais no sei, ao certo, se estou falando dela, Hermione, ou de Audrey, mas, enfim ostentando uma arrogncia tpica de quem encobre grandes medos internos e necessita construir um muro para afastar as pessoas. Eis a sntese do pavor em me descobrir e realizar no caminho do Sagrado Feminino.

Foi o bastante para realizar uma das mais fantsticas viagens ao Outro Mundo, ocasio em que, sonho, ou no, Audrey, aquela Audrey acuada, travestida em capa de loba uivante e predadora, encontrou-se com seu medo, parceiro de outras eras, para, juntos, desbravarem as fronteiras da espiral da roda da vida. O resultado, como no poderia deixar de ser, encontra-se nesse texto, que espero compartilhar com todos que, de alguma maneira, experienciaram esse tipo de situao.

O monstro e a face , sobretudo, uma histria de amor, um hino de descoberta das fragilidades e revelao do Sagrado Feminino. Um caminho solitrio, doloroso, mas, de igual maneira, proveitoso e fecundo, por trazer o desvendamento dos mistrios que tanto procurei durante minha trajetria at aqui. Depois conversaremos sobre o contedo simblico desse texto... Eis a histria...

Naquele dia, todos no vilarejo acordaram preocupados: um monstro usurpador havia chegado, produzindo um terror nunca antes visto pelos moradores. Drages, serpentes e trolls no eram mais novidade porque num universo to diversificado havia espao para muitas figuras mgicas. Mas, naquele dia, o vilarejo silenciou... O monstro usurpava a alma das pessoas, deixando-as sem rosto.

Muitos tinham sido os ataques. Famlias estavam em pranto, pois os corpos no tinham mais a expresso da face. O cl Tyrlaw pranteava o ataque sofrido por Finc, o solcito menino faz-tudo da vila que, no auge de seus oito anos, no mais tinha rosto. No chorava, no sorria ou sequer franzia a testa quando chupasse limo.

Quem seria o prximo? Por que um destino to rspido com os moradores do vilarejo de Wirtinger?

Audrey recebeu a notcia enquanto terminava uma poo para a felicidade. "Alecrim" - pensou- "falta um punhado de alecrim, pois alecrim alegria!". Foi quando ouviu o descompasso da batida na porta. Mirgore invadiu a choupana da sacerdotisa, contando-lhe tudo que passara no cl Tyrlaw. Avisou Audrey que sua presena era exigida no vilarejo de Wirtinger pelo elder Larents, conhecedor dos poderes ancestrais que foram transmitidos moa. Rapidamente as moas seguiram para a vila. "Um monstro" - pensou Audrey. "Como me livrarei disso? O mximo que fiz at hoje foram poes!"

Aps ouvir tudo que o elder lhe informara, Audrey vestiu sua capa e voltou para sua casa, completamente atnita. O que fazer? A teoria era to diferente, pois, afinal, o conhecimento ancestral fora conferido sacerdotisa ao longo da histria de seu cl. Mas nunca, antes, em toda sua existncia, Audrey colocou-se numa posio de concretizao do que havia estudado com afinco. "O que os outros pensaro sobre mim quando forem assistir ao ritual?" - logo pensou. E estremeceu. "No, no conseguirei.

Foi o suficiente para sentir a glida pontada em seu estmago... O caminho de volta foi todo feito em profundo silncio. Voltar, alis, sempre mais difcil para o sacerdote, porque traz o fardo da responsabilidade. Audrey pensava nisso enquanto abria a porta de seu lar e prostrava-se, por alguns instantes, na segura porta que a separava do mundo desejoso por engoli-la.

Durante trs longos dias no se teve notcia da sacerdotisa prpura, reclusa em seu universo de papiros, livros empoeirados e poes inacabadas. "Droga! Nunca acabo o que inicio" - esbarrando nos vidros de mandrgora que estavam em cima da mesa. Marduk, seu gato bonacho, parecia divertir-se com a cena, pois, afinal, ele tambm se sentia um peixe fora d'gua ali. Felino e sacerdotisa guardavam muito mais do que o ar despreocupado que conquistava os moradores de Tyrlaw...

Um naco de fresco queijo de cabra e uma boa xcara de caf fizeram Audrey acordar disposta a encontrar a soluo para o monstro perturbador. E assim foi... To logo abriu o papiro sagrado de Dewmar, a sacerdotisa deparou-se com o ritual de abertura do portal do banimento, um segredo utilizado h 1.000 anos, numa poca to remota, que muitos dos moradores da vila sequer poderiam imaginar quantos perigos rondavam a Terra de Waldespat.

"Hum, vejamos." - murmurou, colocando seus olhos no papiro, todo escrito em lfico, lngua-me de todos os dialetos e troncos semnticos falados por aquelas redondezas. "Lua cheia, palavras mgicas, adaga e vontade." "Acho que est tudo certo por aqui! Muito simples esse ritual! Como, ento, ningum at agora ousou faz-lo antes de mim?" O trax de Audrey inchou, o cardaco expandiu-se em orgulho, pois, afinal, ela era a escolhida, dentre tantos outros comuns, que sequer ousaram utilizar o feitio.

"No precisarei de muito para aniquilar o monstro" - falou para seu felino Marduk. Audrey, porm, envolta num vu de regozijo e orgulho, mal teve tempo de prestar ateno na pontada incmoda que tambm fez seu plexo solar inchar, desta vez, quedado por uma dor latejante. "No tenho tempo para ficar aqui sentindo dor. Vamos, Marduk, temos trabalho! noite de Lua Cheia e preciso acabar de vez com isso!" O mximo de animao que Audrey conseguiu arrancar de seu gato foi um sonoro e bocejante meow, pois Marduk ali mesmo ficou. "Preguioso! Que seja, ento! Irei sozinha!" E assim Audrey vestiu sua capa prpura, pegou sua adaga, o papiro sagrado e rumou para o Morro Tintergen, para acabar com o suplcio de seu povo.

Enquanto caminhava silenciosa, a sacerdotisa observava as nuvens acinzentadas que insistiam em colorir o cu com a mcula da incerteza. Detesto quando o tempo no se fixa logo! lembrou Audrey. No ser muito agradvel abrir um portal encharcada!. Quando l chegou, prostrou-se diante da pedra sacerdotal, palco dos sacrifcios ancestrais outrora realizados. Ao tocar a pedra, Audrey sentiu o desconforto do grito agonizante daqueles que jazeram ao fio da navalha afiada do athame sacrificial. Mais uma vez, seu estmago relutou, desconfortvel, a aquietar-se.

No incio, o silncio. Audrey abriu seus olhos, observando o mundo que estava ali, imvel, a cobrar da sacerdotisa um flego faiscante sequer. Ela permanecia ainda imvel, porque a dor dilacerante em seu estmago tinha sido a companhia mais fiel que encontrara at ento. Calada, fixou o papiro na pedra, abrindo cuidadosamente o roto papel milenar para ler a invocao, no sem antes tomar cuidado de olhar ao redor, para ter a certeza que no estava sendo observada. "E se algum se aproximar?" - pensou - "E se eu no conseguir abrir o portal?" - murmurou a sfrega voz, espelho da alma de Audrey.

O athame, trmulo, jazia mo da jovem, tentando manter a virilidade onde nada mais conseguia se sustentar. "Qual a pronncia disso mesmo?" - bradou, impaciente, a insegura sacerdotisa. "No, definitivamente esse papiro est errado!" - quis a moa ingenuamente acreditar, quando, de sbito percebeu que havia um latente embate entre a lacerante dor em seu estmago e o corao pulstil. Este batia forte, retumbante, caloroso, porm, insuficiente para fornecer o que a bruxa necessitava para abrir seu to sonhado portal.

Enquanto isso, despontava, fraco, no horizonte cansado daquele entardecer, o vrtice que, um dia, poderia ser o portal dimensional descrito no papiro de Dewmar. Nessa hora, nesse exato momento do ltimo suspiro em que a sombra do portal esvaneceu nas brumas, Audrey chorou. Chorou como nunca antes havia feito. Chorou como se fosse aquele o primeiro dia de sua vida, como se tivesse tido arrancada das entranhas de sua me, tirada do veludo amvel da casa forte. Chorou por sentir no peito sua solido. Chorou... Simplesmente chorou e, de tanto chorar, no teve tempo para perceber que havia adormecido, sozinha, na imensido de sua dor.

Se verdade que uma boa chuva sempre lava a alma, no se sabe. Mas Audrey acordou confusamente feliz quando a ameaa de pranto do cu se concretizara. Ainda no sabia se a gua em seu rosto era o resqucio das lgrimas insistentes ou a chuva que previra, mas, de fato, nada disso importava, pois retornando do mundo que era somente seu, a sacerdotisa comeou a compreender as questes da vida.

O papiro no era mais seu inimigo, pois, agora, a sacerdotisa dominara suas emoes confusas. Em seu peito, latente, o corao vibrante, do qual incandescia a luminosidade do conhecimento ancestral que Audrey trazia em seu sangue. De seu tero, a inquietante marca da criao: a pontada firme, forte e contusa do grito de guerreira que ressoava pelos vales de Tintergen. E assim Audrey seguiu firme em seu ritual, entoando a balada do ritual descrito no papiro sagrado de sua linhagem primeva.

Arrebatada pela fasca do fogo sagrado que vinha de seu cntico, Audrey sentiu o empuxo de um raio: retumbou o portal, lmpido, claro e ntegro, surgido da superao de seus medos, revelado pela nobreza de sua alma, ali disposta a ceifar sua vida em benefcio de sua gente. Sozinha, fortalecida em sua misso, a sacerdotisa prpura evocou os raios dos quatro elementos, conclamando a essncia a compor a integralidade da alma.

Uma fenda abriu-se no tempo-espao multidimensional, de modo a brindar Audrey com um orbe de constelaes nunca antes acessado em sonhos ou em profundo mundo meditativo. Galxias infindveis, de matizes de cores inacessveis parca tridimensionalidade cativaram a sacerdotisa: era, enfim a hora de procurar o monstro, pois o medo, alimento do esprito que ascende, ficou apenas em um remoto e esquecido canto da alma daquela mulher.

De sbito, empunhou seu athame, colocando sua capa e correndo, como nunca antes havia feito. Sabia Audrey que o monstro encontrava-se nos limites da Floresta de Marthgger, pois fora l seu ltimo ataque desfigurativo. Nada mais importava para a sacerdotisa, pois o medo, seu companheiro de longnquas jornadas, estava, ali, acalentado pelo rompante de uma coragem avassaladora, mpar, que bombava no peito da profetisa.

Quando entrou na densa floresta, sentiu o fluxo da energia que dali emanava, atravs da grandiosidade das rvores ancis, imveis, ali presentes, com a sabedoria de quem sempre est a esperar os limites do mundo. De sbito, o silncio da alma de Audrey. O corao, outrora retumbante, cedia espao para o mpeto da preservao do corpo, fazendo com que os ps da moa tocassem o solo como delicadas penugens, que bailam sobre um intenso mar de tranqilidade.

O ar, intensamente oxigenado, deixava a sacerdotisa trpega. Os cus refletiam a intensidade de um verde-musgo belssimo, silenciador do esprito. Audrey respeitava e temia tudo aquilo que l estava, nascido muito antes da moa e de seus ancestrais pensarem em brotar das entranhas do mundo.

O grito. Eis a conformidade do instinto guerreiro, percebido pela sacerdotisa como sinal do fim do grande embate, um embate que, ao final, no era tanto com aquela pobre alma a residir no corpo do monstro, mas, ao contrrio, com a sombra que habitava, at ento, a essncia da profetisa. Audrey dirigiu-se para a clareira, lembrando que o portal estaria fechado dali a pouco. Era necessrio conclam-lo no exato instante em que pegasse no brao do monstro, pois a multidimensionalidade espao-tempo viria numa egrgora de fora, ao socorro da feiticeira.

Audrey encontrou, ali, a sombra. Receosa, observou bastante aquele ser que todos temiam. O monstro estava sua frente, sentado, digerindo uma lebre com apetite invejvel. No peito da fera, o retrato do sofrimento: todos os rostos que ele havia coletado insculpiam-se em uma paisagem coberta de sangue e suor, j que as lgrimas, ah, as lgrimas, ficaram para trs, com os entes queridos. Era o grito sufocado de um silncio que Audrey escutava com o ouvido de seu corao.

Voc est cercado! Ordeno-lhe que venha para a luz, para que retorne ao seu mundo! Aqui nunca foi e no ser seu domnio! bradou a moa, empunhando seu athame e convocando o poder dos cincos elementos.

A fora de Audrey no contou, porm, com o olhar. Bastou um olhar lacrimejante de um monstro encurralado, para que o sentimento mais nobre pudesse pulsar na veia da bruxa. Tomada pela mais intensa compaixo, Audrey quedou. O corao enterneceu ante o olhar perdido daquele monstro que todos tanto temiam.

Ela dele se aproximou. Foram os passos mais demorados que algum poderia dar, desses que levam milnios e apenas so percebidos quando os cabelos brancos jazem fronte da face. Audrey aproximou-se do medo e viu em seus olhos a candura do espelho de sua alma. Voc no pode ficar aqui afirmou com a gentileza de uma alma enamorada de si Est ocasionado problemas apontou para o trax do monstro. As janelas da alma do monstro encontraram, ento, a luminosidade de Audrey: ele compreendera. Sim! Ele a compreendera e isso foi o bastante, onde ningum, at ento, no havia sequer entendido aquela pobre alma usurpadora.

Audrey, ento, abraou o monstro e, fazendo isso, abraou a si, sentindo uma forte corrente a percorrer seu corpo e percebendo que, ali, eram apenas um, monstro e sacerdotisa, caadora e caa, imagem e realidade. Brandindo as palavras evocadas de poder, Audrey chamou o portal, que se deslocou num estrondo, abrindo a fenda: era momento de separao, regado s lgrimas que a identidade de Audrey encontrou para reconhecer no monstro seu afim, o somatrio de todos os medos que alimentava a alma da feiticeira e a impedia de seguir seu curso na histria.

Quando a eternidade daquele abrao esvaeceu, a guerreira gentilmente guiou o monstro at o portal. Com os olhos marejados, ela sentiu saudades de tudo que passara at ali, percebendo a hora de partir para outros rumos, pois sua tarefa estava finalmente concretizada. Ele se foi e levou consigo os medos que aterrorizavam a sacerdotisa. Tudo estava finalmente acabado. Ser?

Seguindo seu caminho de volta ao vilarejo, Audrey descobriu que no havia retorno. Como retornar para a morada do sossego da alma, quando marcantes so os vincos que as experincias proporcionam? Quando a trepidao avassaladora da essncia cujo equilbrio se rompeu inicia a entropia inquietante? Como acessar o que ficou para trs, quando um turbilho de foras age, soprando a vela rumo ao destino que se desconhece? Audrey no sabia, mas sentia a sublimao de suas experincias, tendo a certeza de que seria impossvel retornar intacta ao vilarejo e dividir-se, em essncia, quando a alma busca a quietude da transcendncia, inalcanvel pelos domnios da concretude.

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtbero.

Citao:
"Conectada aos mistrios da ancestralidade da terra."
Sagrados Segredos da Terra
www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com.br

Para ler os artigos de Audrey Donelle Errin, clique aqui.
Direitos Autorais

A violao de direitos autorais crime: Lei Federal n 9.610, de 19.02.98. Ao compartilhar um artigo, cite a fonte e o autor. Todos os direitos reservados ao site Templo de Avalon : Caer Siddi e seus autores. Referncias bibliogrficas e endereos de sites consultados na pesquisa, clique aqui.

"Três velas que iluminam a escuridão:
Verdade, Natureza e Conhecimento." Tríade irlandesa.

Go raibh maith agat... Obrigada!
Rowena A. Senėwėen