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O Saber de Si no Sagrado Feminino

Enviado em 08/06/2009 (6844 leituras)

A emancipao da Deusa encarcerada e a importncia dos mitos celtas

O ttulo sugestivo e at mesmo paradoxal: como pode uma Deusa estar encarcerada? Tanta fluidez no ir e vir de sua sacralidade daria Grande Morrighu, Brighit ou Cerridwen mobilidade para alm do bem e do mal, transitando, etreas, na plenitude de suas essncias...

A priso a que me refiro, contudo, aquela qual nos condicionamos, quando inconscientemente construmos - ns - grandes deusas-guerreiras, cada parede glida de uma cadafalso invisvel, encerrando ali nossas almas sacrais. Impelimo-nos, pouco a pouco, nessa priso mental, emocional e espiritual, para a estagnao de nossas essncias, arrebatadas nos atropelos desse mundo em que ainda se insiste em pretender ferir a Grande Me!

Tenho muitas reservas em relao a Nietzsche (principalmente quanto misoginia de seu discurso e ao desconhecimento preconceituoso dele quanto s expresses religiosas... mas, enfim, um desconto a ele e sua poca misgina!), mas, na Genealogia da Moral, uma clebre frase vem mente: no nos conhecemos, somos desconhecidas de ns. Nunca nos procuramos e, por conta disso, como, ento, poderamos nos encontrar?. Como podermos, ento, conhecer nossa identidade sagrada se, no cotidiano de nossas vidas, no conseguimos celebrar internamente a Divindade que habita em ns?

Estudar o Sagrado Feminino e celebrar os giros das rodas faz parte da minha trajetria. Sagrado, sacralidade, Feminino, Feminismo, antes de serem conceitos to criticados geralmente por quem nada deles sabe sempre foram um prolongamento do que estou (ou sou, sei l) nessa existncia magnfica.

Talvez por conta disso eu tenha certa reticncia quanto aos rtulos: bruxa, pag, wiccana, wiccaniana etc. Eis-me aqui, nessa configurao corprea, como simplesmente... eu, nascida na Divina Essncia da Grande Me. Se, por qualquer v tentativa, pretender compartimentar esse eu em diminutos espaos com significao, no mais seria esse eu a plenitude da Grande Me!

Um problema srio (no para mim, mas, nas conversas de corredor, para as pessoas que concebem outras realidades e no suportam a diferena): No sigo dogmas ou liturgias pretensamente forjadas porque, tomando-me como expresso mxima da Natureza (Physis), a Ela me atrelo, sem re + ligare, pois entendo estarmos conectadas e conectados, todas e todos que, em nossas vidas, celebramos os ciclos na prpria carne.

No que isso seja uma crtica a quem celebra as faces da Deusa por meio de atos litrgicos e cerimoniais. Respeito-os. Todos. Isso porque, minha essncia de respeito inquebrantvel, mesmo diante do que considero aberrao. No, no pretendo aqui polemizar o que j se discute h tempos na Arte pois acho que, fazendo isso, sem nos darmos conta, reproduzimos acriticamente as antigas discusses que enviaram tantas e tantos de ns s fogueiras.

No poderia, entretanto, ficar alheia ao que acontece no mundo em termos de agresso ao Feminino e de encarceramento da Deusa. Essa a conversa de hoje...

Participei, um dia desses, de um encontro muito interessante sobre gnero e feminismo, envolvendo, claro, a mitologia celta, bem como as expresses literrias sobre o arqutipo da bruxa, desde personagem secundrio nos contos de fadas (pois a princesa dcil e submissa a figura aglutinadora) at o resgate contemporneo da adoradora da Natureza (muito bem lembrado por Marion Zimmer Bradley nas Brumas de Avalon).

Observando o movimento do Universo, peguei-me, num desses momentos de pura contemplao silenciosa, refletindo sobre minha identidade, bem como sobre os valores em que acredito e os quais cultuo e pratico, descobrindo meu papel no mundo a partir do papel que EU escrevo em meu caderninho do viver...

Nesse ir e vir dentro da mitologia celta, percebi como, alis, percebo, o quanto a misoginia ainda se reafirma nos discursos, nas prticas, na vida. Mas, aparentemente, a anestesia da alma impede que seja desbloqueado o desconfimetro, porque, afinal, parece que estamos a viver na constncia dos nefastos contos de fadas, que nos transformam em eternas "princesas" espera de prncipes. Ou seja, espectadoras do viver alheio e objetos de satisfao da alteridade. Eis a sentena de confinamento para a Deusa.

Dentro disso, esquecemos que somos Deusas e, no esquecimento, nossas lindas almas de deusas-guerreiras reverberam, infelizmente, em torno do rei da casa, porque, sem ele, a vida nada tem de sentido! Acordemos!

Em cada letra de msica que nos reifica ns, deusas-guerreiras-mulheres - deslocando-nos de sujeitas de nossas existncias para objetos de alheio bel-prazer. Em cada modelo anorxico cultuado na televiso, em cada tcnica de "embelezamento" agressivo alma, tudo mostra o quanto chegamos ao fundo do poo, na contramo de nossas histrias.

As rugas, estrias e os seios que amamentam a vida deixam espao para a violncia indireta que assolam nossos corpos mutilados pelo sentido de busca de aceitao na alteridade. Por que ns, Deusas, precisamos tanto da referncia do outro em nossa afirmao? Afinal, somos plenas, cheias, lunas! O culto, ao final, inverteu-se: de referncia, passamos a referidas, moldadas e, portanto, encarceradas dentro de nossas divindades!

As rugas, essas to antigas marcas da existncia, so artificialmente apagadas, porque, quando no mais menstruamos, quando no mais temos sexo e, sobretudo, quando nos destacamos da costela de Ado, no mais valemos para esse discursinho falso e pobre que, em algum momento da Histria, afirmou o primado misgino que nos empurrou ao segundo plano da narrativa...

E no me venham, aqui, Grandes Deusas, com pactos: "vamos tomar o poder", "sejamos como eles". O que isso? Empoderamento? Ou seria apenas a lgica ao inverso, com a mesma arrogncia que nos trouxe at aqui, destruindo a Natureza, matando uns aos outros e gerando teorias que apenas sustentam a desigualdade?

Nos EUA, na frica do Sul e na Austrlia, o atentado mais crescente tem sido o estupro: encarceraram, pois, a sacralidade de nosso sexo, assenhorando-se de ns, Grandes Deusas, como se toma um continente de assalto (afinal, assim como os territrios, temos curvas!). No momento em que estamos lendo este artigo, a cada 12 segundos, uma mulher estuprada no Hi-Brasil (sim, aqui).

Nunca antes o dio contra a mulher e a necessidade de empoderamento estiveram to presentes num modelo de masculino misgino que pretende se apropriar de algo que toma como tributo natural nossos corpos sagrados de Deusas. Em cada desqualificao do feminismo e dos femininos reside o esquecimento da Deusa, a amnsia em relao realidade plrima que nos une aqui, resultado das materializaes do que historicamente construmos, vivenciando nossas MARAVILHOSAS DIFERENAS!!!!

Ontem uma alma perdida em seu desalento, sabedor de minha sacralidade (e desconhecedor profundo de tudo aquilo que foge de seu umbigo), enviou uma curiosa mensagem para mim. Trata-se de uma alma que, por ruptura de afinidade energtica, trilhou por outros vales.

A mensagem, grossa, rude e rspida, com invulgar impfia e arrogncia vil digna do conquistador romano que dizimou culturas e instalou o imprio da violncia ao Sagrado Feminino, indagou-me se eu queria fazer sexo tntrico com ele. Uma ignorncia. Mas acredito que falar sobre a ignorncia colabora para sua diminuio e, mais, acredito que falar para as deusas a agresso a uma deusa seja uma forma de compartilhar o resgate ao sagrado, em termos comunitrios.

Pois bem, onde reside a arrogncia? Primeiro (mas no necessariamente mais importante), na maneira como se desrespeita um valor milenar hindu (numa manifestao de incomum eurocentrismo colonizador referncia a sexo tntrico como se fosse aquele ensinado nos manuais de R$1,99). Segundo e, de fato, mais importante - na maneira como se desrespeitam nossos valores enquanto deusas-guerreiras-mulheres, por intermdio da reificao de uma deusa que concitada a satisfazer o falo de um infeliz...

O mais interessante, contudo, saber COMO ESSA TIPOLOGIA DE HOMENS MISGINOS AGE ASSIM E TOMA ISSO COMO VALOR MARAVILHOSO, REPRODUZINDO LIES DE CASA, de um lar MISGINO, DE EDUCAO MISGINA, e, no cotidiano de suas ignorantes vidas, tentam se APROPRIAR de ns... NO!!!!!

Uma centelha vem mente: por que ns, mulheres plenas, simplesmente deixamos e permitimos isso? Onde foi que decamos tanto, em qual momento histrico? Sempre fomos DEUSAS, e hoje, insistimos, muitas vezes, em ser a lixeira espermtica de seres completamente toscos em seus propsitos!

Quando ligo a televiso, quando escuto uma msica, quando ouo propagandas. Na sala de aula, nas conversas de bares (sem puritanismo, mas, de fato, nem tenho ido a bares!! Haha), enfim, tudo exala violncia simblica do dio mortal s mulheres, a ns, mulheres, porque no ouso falar sequer na terceira pessoa! Recuso-me a me separar, a me apartar... Sou mulher e Deusa encarnada, e entendo que no estou no mundo para pedir licena por minha essncia. Ao contrrio, venho cobrar do mundo, por meio da socializao do conhecimento de meu cl, a conta em relao iniqidade que foi feita Grande Deusa ao longo de nosso passado.

Nesse abismo todo, onde entram os mitos celtas?

Muito simples, eles so a narrativa livre de um arqutipo subversivo, que rompe com a linearidade histria que foi contada pelos vencedores e opressores. O mito celta desencarcera a Deusa sufocada e, libertando-a, liberta a cada umas de ns, pois nos lembra que a fora vital reside no tero e em tudo aquilo que a ele remonta.

Macha no pediu licena para chegar at as terras de Crunniuc. Ela veio com o Sol, impondo-se em sua potestade inquestionvel. Enquanto respeitada no que tinha por mais sagrado a Soberania Macha revela a equidade de sua face terna. Inflamada, porm, em sua ira, por conta da traio do esposo, mostrou seu lado irascvel, a raiva que o Ocidente sempre fez questo de acobertar em relao Grande Deusa: mocinhas no sentem raiva.

Alis, no s na mitologia celta, mas at mesmo em muitos momentos da narrativa greco-romana, a ira, a vendeta, o dio sempre ficaram enjaulados, abscnditos em nveis profundos do inconsciente. A Sagrada Me passou a ser submissa, pois isso o que se espera da mulher docilizada pelo masculinismo que se apropriou da narrativa mitolgica.

Nos mitos celtas interessante observar como a arrogncia masculinista desencadeia a ira da Deusa. O masculinismo o empoderamento do masculino em detrimento do feminino, acarretando a desqualificao desse para o predomnio do primeiro. Importante fazer essa ressalva para que o leitor no seja induzido a acreditar que estou fazendo um discurso raivoso contra o homem. No, o que me causa espcie e que me faz estudar muito os mitos, a sacralidade o desvirtuamento do poder, que deslocou o eixo da divindade para a submisso da deusa e, portanto, em nvel arquetpico, de nos, mulheres. O que proponho a reflexo para que seja celebrada a solidariedade, e no a competio, entre o casal sagrado.

Cu Chulainn, quando rejeita Morrighu, sela seu triste destino, pois a grande Guerreira promete voltar no momento da derrocada do heri.

Mesmo que alguns narradores entendam que essa histria representa uma verso potica de romanceada histria de amor (como o genial Cludio Crow), o que se revela, por trs, a fria implacvel da Grande Me-guerreira que, ao final, volta, na forma de corvo, sorvendo as vsceras do heri que a repeliu outrora. Os corvos se fartam das vsceras do heri do ciclo, representando, assim, ao final, a submisso imortalidade de Morrighu (j que a deusa permanece). Para os antigos, as vsceras eram sinal de proftica fora, a fora vital que nos move e que, no caso de Cu Chulainn, retornou Deusa-Guerreira, na forma de corvo.

Cerridwen, por sua vez, destila seu fel perseguindo Gwion, jovem que ousou se apropriar do conhecimento hermtico contido nas trs gotas de poo que a Me Deusa iria dar ao seu filho Affagdhu. A perseguio termina com a Deusa literalmente engolindo o jovem, para que ele pudesse, ao final, renascer Taliesin e, dentro da transmutao, vir a lume com a sabedoria de quem, ao final de tanta provao, passou a respeitar o feminino. Foi engolido pelo Feminino.

O que se pode dizer da Rainha-deusa Maeve? Libertria da expresso maior de regncia de sua vida, de seu corpo e de sua sexualidade. Soberana, rainha que esteve frente de exrcitos, assim como a posterior Boudicca que, ao ser obrigada a assistir aos estupros de suas filhas, buscou dentro de suas entranhas feridas a fora para dizimar a arrogncia de uma falange inteira do exrcito romano. E, ao final, quando foi capturada, no se deixou dominar, tendo preferido sorver veneno a se prestar para a lascvia moral de Jlio Csar.

Quando se atravessa a narrativa mitolgica para os contos de fadas celtas, a histria de liberdade tambm se confirma, pois, ao contrrio do universo simblico dos contos-de-fadas modificados pela convenincia mercadolgica dos conquistadores, a narrativa celta repleta de histrias sangrentas pois o sangue marca nossa alma de Deusa-que-sangra de bruxas, heronas e mulheres soberanas em suas escolhas. Senhoras livres em si e que, por expresso dessa liberdade, no esperam prncipes, pois sabem que, rainhas, tm diante de si seu Universo!

Hey ho, grandes Deusas, desencarceremo-nos para a vida!

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtbero.

Citao:
"Conectada aos mistrios da ancestralidade da terra."
Sagrados Segredos da Terra
www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com.br

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Referncias bibliogrficas:
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May, Pedro Pablo. Os mitos celtas. Trad. de Maria Elisabete F. Abreu. So Paulo: Editora Angra, 2002.
NOGUEIRA, Carlos. Bruxaria e histria. Bauru: EDUSC, 2004.
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ROCHA, Everardo P. Guimares. O que Mito. So Paulo: Brasiliense, 2006.
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SQUIRE, Charles. Mitos e lendas celtas. TRad. Gilson Soares. Rio de Janeiro, 2003.
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