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A ancestralidade e os sagrados segredos herbais

Enviado em 11/07/2010 (4258 leituras)

Conversas de p de caldeiro...

Cresci observando minha cuidadosa me em sua herbal alquimia, afirmando ser a cozinha o corao da casa, numa representao simblica e factual do eterno centro provedor da vida, j que o local de preparao do alimento to bondosamente doado por Gaia.

A agilidade com que ela preparava a mais saborosa refeio, usando sempre ingredientes frescos e enfeitando com amor os pratos, deixavam-me com ansiedade para a chegada das refeies.

Isto, sem falar na agregao de pessoas em volta dela, pois a cozinha sempre foi o local de agradveis bate-papos, enquanto ela socava massa de po ou fazia bolo, numa maestria onde a mais simples comida transformava-se em um manjar, a exemplo do guisado de carne moda com canela![1]

Em datas e ocasies comemorativas mais freqente das que constam no calendrio juliano ela enfeitava a mesa, ornando-a com velas, trigo e flores, numa celebrao vida e a tudo que ela proporciona. Uma bruxa tipicamente alqumica, engendrada a partir das entranhas de Demter nutridora, ou, ainda, uma Cerridwen conhecedora dos segredos da natureza, passados adiante apenas pela observao... Eis o primeiro sagrado segredo a se revelar!

Com todas essas lembranas ainda bem vvidas mente, minha formao herbolria no poderia ter sido de outra maneira. Assim, quando se fala em ervas, logo penso na facilidade com que minha me estava sempre a especular e aplicar seus remdios caseiros, conversando comigo sobre as propriedades contidas em cada uma das ervas em nosso jardim.

Minha me tinha uma loja de produtos naturais, nada mais ancestralmente mgico do que um lugar cercado por aromas, cores e energias entre-mundos. Um mundo de desnudamento dos segredos mais ocultos de nossa herana se concretizava no poro, local onde a magia tomava conta da atmosfera, trazendo tona a exploso de sabores que somente Lgia Maria poderia saber conduzir em sua orquestra.

Com isso, cresci tomando ch de limo, alho e mel para gripe, usando o gengibre para a garganta, bem como a canela para a clica menstrual e regulao do fluxo. Aprendi que alface excelente calmante, a ma, adstringente e o alho, um poderoso agente anti-infeccioso.

Bom, morando sozinha j algum tempo, meu relacionamento com as ervas tem se consolidado a cada dia por meio de novas descobertas, movidas intuio, paixo e experimentao. Primeiro, porque aprendi a cuidar de minha herana, uma spatifillus[2], que recebi de minha me quando ela se mudou para Natal, aprimorando-me, assim, na arte de ser cuidadora, de me vincular, numa teia, ao mundo. Ao pequeno grande mundo que a Natureza rege do topo da escala evolutiva. Segundo, porque a culinria falou mais alto, no que diz respeito ao preparo das ervas a serem utilizadas, bem como combinao mgica que deve ser feita para cada motivao a ser trabalhada.

Assim sendo, meu primeiro contato com as ervas veio da necessidade de alcance de combinaes de forno e fogo, pois tinha e, de fato, ainda tenho desconfiana em relao aos temperos prontos. Passei a observar a textura, o gosto in natura, estudar as propriedades teraputicas e mgicas de cada erva, tentando aprender o que estava latente nas plantas ao meu redor.

Acredito que a Natureza contenha simbolicamente a destinao de suas plantas e ervas. O espinho, por exemplo. Nada mais protetor do que uma planta que contenha espinhos, justamente porque o espinho o instrumento intrnseco na planta em se defender dos predadores.

Outra percepo sobre isso relaciona-se ao sabor picante contido em determinadas ervas e alguns sabores, que podem ser direcionados tanto para bruxedos de proteo, como, tambm, para incrementar relacionamento. o caso da pimenta, pois a latncia com que est disposta a arder proporciona, de um lado, a defesa natural, como, de outro, o consumo em ardente fogosidade, hbil a acalentar os desejos mais profundos dos fogosos amantes. Simples, intuitivo.

Antes, achava bem prtico ir a um supermercado e comprar tudo pronto, ensacado ou enlatado. Mas, na medida em que passei a me conectar mais com a Natureza e a eco-sustentabilidade, passei a vivenciar a bruxaria como um caminho ritualstico a ser percorrido, onde cada etapa extrai de nossa entranha o conhecimento, o sagrado e o mitolgico.

Tenho espao no jardim, que divido fraternalmente com duas composteiras, bananeira, mamoeiro, jardim de ervas medicinais e, claro, minhas queridas jardineiras de temperos! Passei, ento, a utiliz-lo melhor, plantando algumas ervas para usar na culinria.

Alm disso, decidi fazer a secagem artesanal de alguns temperos, procurando-os nas famosas feiras-livres, os centros inenarrveis de descobrimento da magia! A desidratao natural uma tcnica antiga que preserva parte da vivacidade e do poder ativo da planta, bastando, para tanto, esfregar a erva antes de us-la para ativar o aroma e o sabor.

Aprecio bastante um bom mao de alecrim, manjerico - e sua prima manjerona - hortel e arruda, considerando o conjunto uma equipe bsica de atuao. Prefiro sempre os maos reluzentes, com o aroma bem marcante, pois indicativo de frescor da erva. Como os maos geralmente vm enrolados em um cip ou liga, sendo molhados para no perderem seu cheiro, a primeira providncia a ser tomada lavagem do mao e a primeira secagem das folhas, abrindo-as para que no apodream.

Retiro o cip, lavo bem em gua corrente e tomo a cautela de fazer a higienizao com vinagre de ma ou limo, na razo de uma colher para cada meio litro de gua. No tem problema em relao a qualquer alterao no sabor, porque a erva poder ficar at uns dez a quinze minutos submersa, podendo ser lavada depois.

Em cima de uma toalha, inicio minha meditao, agradecendo aos Deuses o provimento do sabor da comida que irei ingerir. Acendo um incenso, ou, ainda, um aromatizador, preferencialmente com um aroma mais neutro, para no confundir com o cheiro da erva fresca. No vejo sentido em fazer um fumac, sob a desculpa de consagrar a erva com outra erva, pois acho que perde o sentido da consagrao que pode ser feita aproveitando a destinao atribuda planta.

Ao som de uma boa msica, em harmonia, comeo a separar os maos de ervas secas, amarrando os tufos com uma linha representativa do que pretendo catalisar com a folha. Usualmente amarro todas com linha verde, a cor da fertilidade que desejo atribuir ao efeito da erva.

Depois da amarrao, cada mao pode ser pendurado no alpendre, ou na prpria cozinha. No tenho hbito de pendurar as ervas na cozinha para no confundir o aroma da planta com o que est sendo preparado. Frituras e plantas no combinam, em definitivo!

Disponho os maos na varanda de casa, perto da luminosidade, mas no os coloco em contato direto com o sol, pois, caso contrrio, queimam rpido e perdem as propriedades. Importante e curioso: bichinhos (moscas, aranhas) no chegam perto se voc pendurar a arruda ou a hortel junto com os demais temperos.

Depois de uma semana temos um tempero MARAVILHOSO. Bom apetite e bons bruxedos!

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtbero.

Citao:
"Conectada aos mistrios da ancestralidade da terra."
Sagrados Segredos da Terra
www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com.br

Para ler os artigos de Audrey Donelle Errin, clique aqui.


[1] No novidade para ningum que a carne moda o patinho, mais especificamente desprende um cheiro muito estranho, parecendo sola de sapato. Olha, no me pergunte a razo pela qual acho ser cheiro de sola de sapato, mas no posso deixar de achar isso mesmo!
[2]A histria da spatifillus engraada, porque, ao viajar durante as frias, deixei-a com uma moa e qual no foi minha surpresa, ao me deparar com uma esmirrada planta, ao voltar para casa! Nossa, o desespero tomou conta de mim e, dia aps dia, eu tentava anim-la, regando-a e conversando com ela. Em duas semanas, voltou minha spatifillus a sorrir, brindando-me com suas folhas reluzentes. At hoje ela fica l, cheia de brotinhos.
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