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A Soberania e o Rei

Enviado em 20/08/2010 (2646 leituras)

Conta a lenda que um poderoso rei, certa vez, foi caar no bosque alm dos limites do castelo. Quando atravessava a ponte, viu uma senhora esfarrapada sendo atacada por um homem. Rapidamente o regente desembainhou sua espada e mirou no corao do homem fundo o bastante para atingir mortalmente o corao do algoz, salvando, assim, a senhora da morte.

"Muito grata, meu jovem" - sorriu a velha, sem que em sua boca estivesse estampada a existncia de um s dente - "Aquele homem horroroso era um poderoso mago que me mantinha como escrava e, com a morte dele, libertei-me".

"Que bom, minha nobre senhora!"- respondeu o rei de tenra idade - "Agora a senhora poder seguir o curso de sua vida em paz", imaginando que, pela idade da anci, o destino mais prximo seria a morte em paz e com dignidade.

"Ah, sim, vamos, ento, direto para seu castelo, onde nos casaremos em grande festa" - replicou a senhora seguida pelo assombro do jovem. "Eu era cativa do mago e reza a profecia que eu seria resgatada pelo rei que deve, depois, despojar-me, ou, caso contrrio, a praga da fome e da doena abatero o reino" - explicou a mulher calmamente, observando o semblante de desespero que se formava na face do rei.

"Cumpra-se, ento, minha noiva, minha sina. Se for para o bem de meu reino, ento que nossas bodas sejam as mais requintadas daqui. Vamos!" - bradou, enlaando a senhora e cuidadosamente alojando o frgil corpo senil na garupa do cavalo branco.

Antes de o rei e sua noiva chegarem ao reino as notcias j corriam. Todos olhavam com pavor aquela inusitada cena: um jovem carregando uma senhora com idade para ser sua tatarav. Ningum acreditou no fato at o rei cruzar os portes e ser saudado por seus sditos, que se entreolhavam, ao mesmo tempo em que acenavam para o monarca.

Foram 9 dias de festa, de acordo com a tradio. Os convivas ainda tentavam se acostumar com a picardia de uma anci ser consagrada rainha, pois a crena comum era de que o rei iria despojar a jovem princesa do Norte, herdeira dos segredos do povo lfico que outrora habitava ali.

Ao cair da noite, o rei, percebendo o triste desenlace da "prima nocte" com sua rainha, imbudo de toda a serenidade digna de um filho de Avalon, gentilmente se levantou, saudou o povo, pegando a rainha-anci pela mo e a conduzindo para o leito real.

Ao chegar ao vestbulo, a anci falou para o jovem: "Meu querido esposo, eis nossa noite de npcias. Fui enfeitiada pelo mago e, de acordo com o feitio, o senhor poder me enxergar jovem pelo dia ou pela noite, quando me transformarei apenas para nosso deleite. O que escolhe? Ter-me linda durante o dia, jazendo com a noite minha senilidade ou tomar-me como sua noite, permanecendo eu velha e enrugada luz do Sol?" - indagou a rainha para o nobre e bondoso rei.

Este, compadecido e sbio, olhou ternamente para a senhora anci e respondeu: "Minha senhora, minha rainha. s plena e senhora de seu destino. No cabe a mim tal escolha porque s tu quem deve decidir o que de melhor deves fazer. Aceitarei de bom grado o que me permitires realizar, pois me ajoelho diante de sua Soberania e experincia".

De sbito ouviu-se um estampido. Um estrondo ecoou pelo vestbulo, seguido por luz intensa, que se alastrou pelo quarto e envolveu a anci.

Momentos depois, para total assombro do rei, exsurgia no lugar dela uma linda mulher, que se aproximou do rei murmurando: "Meu amado, sem saber quebrastes a maldio do mago. Estava condenada a vagar pela terra transmutando-me de moa anci at quando um rei de corao leal me permitisse escolher em qual momento do dia gostaria de ser jovem. Hei de ficar assim, jovem, e seguir o destino dos anos, pois o senhor, reconhecendo a Soberania em mim, salvou-me do infortnio".

Repletos de felicidade, rei e rainha, ento, dirigiram-se para o leito e, brindando a Lua, enlaaram-se em um s corao, vivendo felizes na plenitude da Soberania por muitos e muitos anos.

E qual a moral da histria?

Feliz e abenoado o homem que, reconhecendo a Soberania presente na ancestralidade da alma de cada jovem mulher, permite se entregar ela e cultivar a cumplicidade... O rei tinha na rainha seu duplo complementar, que une homem e mulher em carne, para a consolidao do reino dedico na Terra.

Muitas histrias celtas trazem a demanda de Soberania. O prprio relato de Arthur, quando descobre a traio de Guinevere, transforma a perda da Soberania (rainha) na necessidade de cura da ferida que nunca sarava, na histria da Demanda do Santo Graal, o clice sagrado que, de fato, nada mais do que o prprio tero da Deusa, provedora de fecundidade e renovao.

Nesse sentido, a histria do Rei traz a lembrana daquele que est a colher do mar de incontveis emoes (gua) a eternizao de captura do peixe (sabedoria) como condio de mantena do reino (de si, de auto-realizao). Assim como Arthur se v despojado de Soberania, tanto em face de perder a companhia da me (anci), bem como da irm-amante (Morgana, deusa), sabe e necessita, ao final, cicatrizar a ferida pelo blsamo que esvai do Graal.

Quando o jovem rei fala para a anci que ela quem deve escolher, est reconhecendo na experincia dos anos - uma metfora para a idade avanada da senhora - os misteriosos segredos do feminino, ligados terra pela soberania do que no revelado pela razo. Ele reconhece a potestade e, dentro disso, queda humilde em face da escolha inerentemente caber anci. Ela quem deve decidir seu destino, sendo respeitada por isso independentemente de o resultado agradar o parceiro.

Mesmo diante da primeira exigncia da anci - de ser levada em cortejo para o casamento - a permisso do rei para a anci escolher veio sem coao ou dor, guiada pelo sentido altrusta do dever que tinha para consigo (o rei confundia-se com o povo), fruto do corao nobre e sbio, de modo a quebrar o bruxedo do mago.

O bruxo, por outro lado, pretendia usurpar a Soberania para si e, por conta disso, trancou a mulher em uma bruma de maldio perptua. Ela vagaria pelos confins naquela configurao - anci - sem que pudesse vivenciar o estado de alma - jovem alma - que possua. Outro ponto importante da narrativa, pois enquanto um homem aprisiona emocionalmente a mulher para usurp-la, o outro liberta.

Um quer espoliar a Soberania. O outro deseja a liberdade e, por ela ser to cara, permite parceira exerc-la. No se trata de uma 'permisso' em face de exerccio de poder, mas sim, de reconhecimento de igualdade no exerccio do poder, condio imprescindvel para a simetria do Casal Sagrado e, por resultado, o equilbrio no mundo. Eis o sentido de uma relao livre em sua origem, que no traz mcula de usurpao, pois cada qual, sabendo de si, pode oferecer ao outro o que tem de melhor.

Hey ho!

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtbero.

Citao:
"Conectada aos mistrios da ancestralidade da terra."
Sagrados Segredos da Terra
www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com.br

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