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Resgatando os Tempos Antigos de Honra

Enviado em 21/12/2010 (3216 leituras)

"Eis que vejo meu pai Eis que vejo minha me, minhas irms e meus irmos... Eis que vejo a linhagem de meu povo, desde o incio. Sim, eles me chamam. Pedem que eu assuma meu lugar entre eles, nos Sales de Valhalla. Onde os BRAVOS vivem para sempre!"

Com essa invocao do panteo da linhagem ancestral, os vikings, resgatados pelas valqurias, lanavam-se, de peito aberto, no desconhecido caminho da Morte, sem medo em relao a terem vivido uma vida de mentiras, porque a HONRA era o centro da vida e da dedicao desses nobres guerreiros e guerreiras.

Aprecio muito os filmes e as minissries de fundo medieval, mtico e mgico, pois resgatam no imaginrio e nos lembram a ideia de honra e dignidade outrora presentes nas relaes humanas, parmetros que parecem, na atualidade, ceder espao deslealdade e todas as dimenses de atropelos na lida com o ser humano, sobretudo na interface dos relacionamentos que se travam entre pessoas.

Gosto de apreciar os antigos duelos, as lutas e os combates, pois sempre acenaram, no colorido de minha mente frtil, para o pacto legtimo entre inimigos que se dispem a se respeitar mutuamente, ainda que seja em face do extermnio de um pelo outro.

Basta assistir a filmes como O dcimo terceiro guerreiro, A rainha da Era do Bronze, ou, ainda, Os pilares da Terra, este, a abordar a transposio da honra para o imprio esprio das relaes apodrecidas de poder entre Eclsia e Monarquia, num mundo de corrupo e sede pela apropriao do prximo.

HONRA a palavra-chave que cercava e inspirava os antigos reinos e comunidades "brbaras" pr-crists de cunho pago, aparentemente "despojadas" do suposto valor que a cristandade evoca como "compaixo", mas que, de maneira "inexplicvel" para nosso etnocentrismo mope, aproxima-se de um "reboco" de ideario "ocidental" (leia-se romanizado) de respeito ao inimigo, por intermdio do enfrentamento com que aqueles povos, de peito aberto e sem medo, lanavam-se rumo verdade e superao das mazelas que movem o humano.

O respeito s alianas feitas com outras pessoas honradas, bem como o repdio aos pactos de falseamento, desonra, mentira e deslealdade eram a mxima nesses povos que praticavam o selo verbal, diante do cl, dos pactos de respeito dignidade.

Uma ironia pois, posteriomente, tantas leis escritas no Imprio Romano no deram conta da manuteno da honra, porque, na civitas, a mentira e a corrupo da alma eram a constante nas relaes humanas: prova que muito pouco os romanos aprenderam com os "brbaros" em matria de honra, dada, por exemplo, a existncia de assassnios, conluios e traies senatoriais como marca maior desse, que tido como exemplo de "civilidade".

Em outro ponto, na contramo do romano desleal, para alguns povos celtas, a escolha do rei ou da rainha no era feita levando-se em considerao etnia ou critrio sanguneo. Um rei ou uma rainha assim o eram porque, eivados de respeito e honra, eram naturalmente seguidos pelos integrantes da comunidade. A qualquer tempo em que a descrena na honra e na lealdade era observada, o rei ou a rainha eram desafiados para o combate justo, face necessidade de se restabelecer a dignidade ofendida dentro do cl.

O respeito, a compaixo e a misericrdia, entre os antigos, eram invocadas legitimamente pela sustentao da palavra empenhada, nunca se estabelecendo o primado da hipocrisia e da leviandade na colocao da palavra ou de promessas que nunca poderiam ser cumpridas. O bravo guerreiro responderia pela irresponsabilidade no falar com sua prpria vida, pois se desviar de sua palavra firmada era sinnimo de desrespeito comunidade e aos ancestrais reverenciados. Mais do que isso, ante o estreito vnculo firmado entre indivduo e grupo, desrespeitar o grupo aniquilar a si, o bastante para no mais ser merecedor de dignificao.

A honra dos atos, pois, correspondia exata e pontualmente sedimentao da palavra proferida na realidade fsica, palavra esta que no poderia ser desfeita sem prejuzo latente para a credibilidade que se imputava ao nobre guerreiro. Assim, o que residia na profundeza anmica do guerreiro - sua essncia mais arraigada de alma e de carter - era o que lanava o desejo a se tornar vontade e se transformar em atos, numa coerncia interna mpar, postulado de um cdigo de unidade de esprito, mente e corpo.

Nessa seara de verdadeiro cdigo litrgico de honra, os povos chamados "brbaros", ao contrrio dos romanos - que expunham ao espetculo aqueles que se opunham frontalmente ao jugo opressor - reverenciavam o "bom combate", a luta franca e justa em que oponentes olhavam nos olhos, um do outro, e, em face disso, travavam embates frente a frente, expondo a ira por meio do contato e da resoluo direta, sem artifcios que pudessem coloc-los em desvantagem. No apunhalavam ao menor sinal de virada de costas...

At mesmo quando a espada do oponente quedava ao solo, seu desafeto, respeitando as regras seculares de honorabilidade, permitia - quando ele mesmo no o fazia - que o oponente pudesse pegar a arma, para que a dignidade no embate pudesse ser restabelecida. Isso era o digno, o leal, o correto a ser feito.

Em algumas tradies celtas, de outra sorte, existia o costume de se "rogar" o malefcio na frente do inimigo. Assim, ao lado das blessings (benes), os celtas poderiam, sem o menor pudor, olhar para o inimigo e, em sua frente - nunca pelas costas - desejar que "sua colheita perea e seu gado fenea", pois ser franco era sinmino de ser honrado.

O sistema poltico e moral, assim, era basicamente composto pelo respeito honra do ser humano, quer fosse amigo, aliado, ou o mais odiado inimigo. No importava, porque, ao final, ter honra e coragem de olhar no olho de quem se deseja o mal era tido como sincero e verdadeiro.

Mas na sublimao no poder da espada pelo imprio da palavra e do que se toma por "civilizao crist", perdeu-se, no meio do caminho, a honra em se lidar com a dificuldade e, mais do que isso, recalcou-se em dois mil anos de histria a irascibilidade, convertida, dia aps dia, em hipocrisia velada sob os auspcios de "espiritualidade da Nova Era", uma apologia mal-enjambrada, em nvel cosmognico, mentirosa e mascarada, que remete logstica da fraude: o pseudo-amor, a pseudo-compaixo, pseudo-honra.

Pseudo-tudo, eis o sentido da iluso ps-moderna que embala as relaes humanas recalcadas pelo proselitismo da palavra caritas...

A raiva e o desrespeito ao prximo alocaram-se do espao pblico para a psiqu e, no sendo sublimadas, tm transformado as relaes humanas num barril de plvora pronto a explodir na desonestidade com a qual os seres humanos tm tratado seu semelhante, sobretudo aqueles e aquelas que se mostram como so, bem como mostram a que vieram.

Os guerreiros e as guerreiras honradas, dentro disso, quedam diuturnamente mortos em vida, no mais com espadas contundentes a perfurar seus corpos calejados, mas pela fora do desconhecido e tortuoso caminho da manipulao, da mentira e da leviandade presentes nos discursos vazios, nas palavras vs proferidas como via de embate implcito e, sobretudo, na deslealdade do cotidiano do falseamento de si...

Cada vez mais observamos nos contatos dirios o descompasso entre o que se empenha de palavra e o que se materializa dela. A palavra, outrora designativa de crdito, de lealdade e de esforo e compromisso, transmuta-se, pouco a pouco, em searas de letras justapostas sem o menor sentido de dignidade, ferindo e matando, com atropelo, os sentimentos mais nobres que podem residir em uma pessoa.

Sim, a espada foi substituda pela fora ferrenha da palavra que se mostra inicialmente sutil e doce, encobrindo, contudo, o ntido propsito de destruir o que existe de mais sagrado em um ser humano: seu corao, o msculo mais forte e paradoxalmente mais sensvel - do ponto de vista etreo - do corpo humano...

O calcanhar de Aquiles dos bravos guerreiros e guerreiras que militam pela luz e embatem dentro da honra no reside em outro local que no no meio do trax...

So capazes de suportar os maiores meandros esses lutadores, mas, diante da deslealdade, caem, um a um, diante do imprio da sensualidade frasal que reside nas palavras vs de quem deseja destruir o que existe de belo no mundo.

Em um dia, promessas so feitas, palavras so imantadas para o arquivo do Universo, adoando o terno corao dos nobres e das filhas da Terra...

Noutro, punhaladas vindas do alm-mundo transformam a honra em desonra, revelando, sob a couraa de um"humano sensvel", um profano maquinrio insensvel ao outro. A oscilao entre a irresponsabilidade e a devoo nos coloca, cada vez mais, na contramo do crescimento espiritual, trazendo para nossos lares sagrados o inimigo invisvel que sequer conseguimos saber, ao certo, se dorme conosco na mesma cama.

Reverencio o panteo da linhagem sagrada dos guerreiros e das guerreiras de minha famlia, de meu sangue ancestral que, h tempos, encontra-se nessa terra fincando razes na honra, na lealdade e na dignidade.

Fortaleo - todos os dias em que invoco o largo panteo ancestral e conclamo a egrgora de luz dentro de mim - a assertiva de apenas ser o que sou para olhar, para quem quer que seja, olho no olho e dizer a que vim. Assim, de maneira simples, lutando o bom combate.

Eis o que tomo como pressuposto de vida. E de morte: lutar o bom combate, mesmo que entranhado em mim ainda resida o grmen da mais espria reticncia de leviandade. Melhor cortar minha carne - para me lembrar de minha honra - do que viver uma vida sem glrias em relao maneira como lido com meu semelhante. Recuso-me a tratar a vida e o prximo com a displicncia de quem pouco se importa com o corao alheio, pois, como diria Saramago, "se tens um corao de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo o dia".

No profiro "eu te amo", "bom dia" ou, pior, "desculpa" sem que, internamente, imante toda essa energia, pois no de fora para dentro que se constroi sentimento - por repetio e assertividade - mas sim de dentro para fora, por cultivo amorosidade...

Com isso, entendo, temos o direito de desejar travar combates justos, honestos e, sobretudo, engendrados na luz... Claro que se corre o risco de ser mal interpretada exata e pontualmente por aquelas pessoas que, sob a escusa de estarem "no caminho zen da evoluo" (leia-se, NEGANDO E RECALCANDO suas mazelas, e no as observando e administrando), acusam-nos de insensveis, frias, calculistas, atribuindo-nos toda guisa de julgamento iconoclasta, povoado de desonra e mascarado de sentimentalismo banal e frvolo de pseudo compaixo e amorosidade.

Mas, dentro do que me disponho a fazer - olhar no olho - tomo at como um elogio tal perspectiva, porque, afinal, ela indica que a sinceridade , ao final, respeitada no emaranhado de mentiras que as relaes humanas se tornaram...

Esse o caminho da guerreira, ser forte para suportar a intemprie da injustia de quem se mostra como esprio em seus propsitos, pois, ao final, os louros sobrelevam-se em relao aos fracassos.

Numa espiral histrica que se repete, o tempo dos combates nobres entre guerreiros que se respeitam esvai-se em pleno ar na ps-modernidade, pois a horda do ataque-surpresa, pelas costas e sem o menor critrio, acena para a decadncia voraz de uma "civilizao" cada dia mais discursiva e menos comprometida com os ditames da honra...

Talvez seja por isso que tantas pessoas assistem aos Pilares da Terra: afinal, se no imantam dentro de si a honra, ao menos, em nvel cinematogrfico podem sentir o gosto do que ser leal, honesto e verdadeiro.

Ser autntica num mundo de mentira e falseamento de si uma virtude que se cerca de um preo existencial muito alto, mas nobre de se pagar: a conscincia ao final do dia e, mais tarde, ao final da vida, quando fechamos os olhos para abraar a Morte e observamos que samos daqui sem dramas em relao a ter enganado o outro.

Esse o caminho de uma boa guerra!

Cad mille filte!

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtbero.

Citao:
"Conectada aos mistrios da ancestralidade da terra."
Sagrados Segredos da Terra
www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com.br

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Rowena A. Senėwėen