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Vida-morte-vida: a eterna espiral celta do renascimento

Enviado em 20/12/2008 (5255 leituras)

Por que o mito povoa nosso ideário de mundo, habitando a parte mais íntima de nosso ser? Afinal, falamos tanto em Afrodite, Zeus, Macha, Ganesha e Marduk que logo desponta no peito aquela pitada nostálgica de “eterno retorno”, transpondo deuses e deusas, heróis e heroínas do topo montanhoso de suas longínquas moradas no além-mundo para o cotidiano de nossas vidas. Por que estão dentro de nós?

O leitor mais afinado com Jung, por exemplo, pode se deleitar nas representações da psicanálise, buscando na densidade dos símbolos da Deusa e do Deus a percepção de um mundo imerso no perfumado campo arquetípico, destacado de nossa mundanidade. Quão surpreendente e libertário voarmos com Pegasus rumo ao Olimpo, ou, então, buscarmos no mais profundo recanto de nossos corações a Avalon circundada pelas brumas de nosso inconsciente.

Para Bierlein[1], o mito expressa Arte: é própria alma, contida numa explicação poética da realidade que, por intermédio da literatura oral, aponta um caráter de ancestralidade em relação ao modelo cosmogônico apresentado pela ciência. Sendo o mito a narrativa dos fatos ou dos eventos que aconteceram antes da história, serve de ponte entre as projeções imagéticas gravadas no inconsciente e a lógica consciente.

Como história preservada na memória popular, o mito concretiza numa projeção não linearizada realidades meta-temporais, para se repetir ao longo da completude de cada ciclo, preservando seu conteúdo essencial: a história poetizada, que embala corações e mentes. Satisfaz a mente analítica, por conter dados e referências do passado histórico; preenche o coração, por consagrar a beleza do que existe de mais profundo nas narrativas épicas que graciosamente explicam nossa saga heróica nesse plano!

Como numa graciosa dança, o mito revela um livre movimento, pulsátil e latente, consagrando a celebração do exercício da liberdade em plena rebelião diante das amarras que a ciência oferece, ao formatar e reduzir dados e referências.

Despojado da compartimentação que a cientificidade traz, o mito apresenta inúmeras possibilidades de preenchimento de seus espaços, enriquecendo a narrativa por onde quer que se instale: sentimo-nos plenas e poderosas ao nos identificarmos com nossas heroínas mitológicas. Mais, sentimo-nos criadoras todas as vezes que interpretamos o conteúdo simbólico do arquétipo presente numa narrativa mitológica: somos, pois, Deusas de nosso Universo poético!

Depois do mito, eis a pergunta: por que o foco celtíbero, já que a cultura greco-romana está tão vividamente presente em nossas vidas?

Primeiro, por crescer em um lar essencialmente bárbaro, já que minha família é originária da Galiza (ou Galícia). Daí o nome celtíbero, marcando a miscigenação entre troncos celta[2] e ibero[3]. A primeira busca, portanto, partiu da genealogia, reunindo elementos que pudessem confirmar tudo aquilo que intuitivamente sentia enquanto membro de uma família muito diferente.

Afinal, lá em casa nunca nos sentimos romanas ou gregas, estiradas em liteiras e sorvendo ambrosia ou hidromel. Nunca nos sentimos execradas pelo masculinismo patriarcal greco-romano, detentor de vida e morte dos chamados “seres sem alma” (sim, nós, mulheres, juntamente com os escravos, não possuíamos alma! Detalhe importante: isso era justificado pela filosofia aristotélica, que legitimou, posteriormente, à discriminação em nível teológico). Pelo contrário, as maravilhosas mulheres de Anu e herdeiras de Dana pastoreiam gado, cuidam das estâncias e dos negócios e galopam formosas, com seus cabelos esvoaçantes, pelo pampa desse Brasil!

Depois dessa viagem interna ao mundo ancestral, lancei-me num vôo acadêmico (além das viagens que já fiz) – à época do mestrado - no “submundo” da biblioteca: local sagrado que traz esconde na memória de cada átomo a egrégora de obras muito significativas.

No meio de tanta sabedoria – como, também do pó, de eventuais traças e, claro, de muitos passarinhos que lá entram para fazerem ninhos - encontrei referências históricas de sistematização político-religiosa de algumas das antigas sociedades indo-européias, de tradição ocidental (10.000 a 4.000 a.C.), caracterizadas por um poder religioso fortemente direcionado à expressão matrifocal.

Achei aquilo tudo muito amplo, racionalmente frio e sistematizado, um pouco distante da proposta poética que embala minha vida. Tive, então, a certeza que minha essência estava visceralmente ligada a algo muito mais próximo do que os romanos chamavam de bárbaros, mas que escondia, de fato, a docilidade da alma celta, berço de minhas entranhas: amantes, guerreiros, pessoas de honra, palavra e muita poesia!

Por essa razão, fiz um verdadeiro passeio, retornando aos antepassados mais remotos que a própria tradição expansionista do Império Romano[4].

Dentro disso, a mitologia celta veio como um resgate de uma cultura bastante rica em detalhes, subjugada, ao longo do tempo, pelo poderio cultural do Império Romano que, no ciclo de invasões, trouxe seu panteão mitológico como via de concepção cosmogônica. Daí, estudar o conteúdo latente da mitologia celta ser uma via de encontro com a beleza da referência poética de mundo, a partir do respeito à diversidade cultural e à celebração da vida, característica desse povo tão feliz.

Os celtas - originários da etnia indo-européia - ocuparam a Europa Central e Ocidental, entre V e VI a.C., em regiões que hoje vão desde a Espanha, passando pela Turquia, Irlanda, França e Alemanha, apresentando uma diversidade muito grande de ramos, o que dificultou a união política e facilitou sua conquista pelo Império Romano. Falar em “cultura celta”, portanto, pode ser um reducionismo perigoso, já que não existe apenas um tronco étnico que se possa nominar como “celta”, como bem aponta Pedro Pablo May, na obra “Os mitos celtas”[5].

Movidos pelo dinamismo na experienciação do mundo e no respeito à Natureza, os povos celtíberos vivenciavam, na concretude do cotidiano de suas vidas, o espiritual, celebrando, a todo tempo, os ciclos sagrados: solstícios, equinócios, colheitas eram sentidos como início, meio e fim de uma jornada heróica que se espiralizava no coração e nas vidas desse povo tão distinto.

Em relação à estrutura das deidades contidas no panteão mitológico celta, são interessantes a complexidade e a riqueza de seus arquétipos, dispostos em uma estrutura singular, sem afinidade ontológica[6] com a mitologia grega ou romana, razão pela qual o estudo comparativo não parece ser adequado ao aprofundamento da análise dos deuses.

Elaboraram leis orais, que refletiam um sistema igualitário de sociedade - em alguns clãs, nitidamente druídico - no qual homens e mulheres dividiam funções, sem que houvesse menosprezo pela distinção de atividades, ou domínio e manifestação de superioridade em termos de questões de gênero[7].

Desenvolveram a cultura agropastoril, destacando bastante a ourivesaria e os trabalhos em cobre, ferro, ouro, que reproduziam nos adereços a importância da Trindade para o povo celta: triskles ou triskeles, espirais solares que surgem de um ponto comum, de onde partem os três braços que suavemente se espiralam, cada qual, em torno de si.

Na concepção matrifocal celta, os três braços podem ser vistos como o ciclo eterno de suceder das estações, ou, ainda, as faces da Deusa (donzela, mãe e anciã), as fases mais perceptíveis da Lua (crescente, cheia e minguante) ou, ainda, a tríade corpo, mente e espírito. Contudo, são meros aspectos simbólicos, relacionados a correspondências com as marcas anacrônicas de nosso tempo (ou seja, não deixam de ser representações resgatadas pelo neo-paganismo da modernidade).

O mais importante, porém, não é compreender o simbolismo de tais fases ou suas correspondências, mas saber que a espiralização reflete um continuum temporal, dentro do qual não cabe espaço para a bruta separação que a mente analítica faz em relação a processos.

Eis a diferença... Os celtas não faziam correspondências ou representações: o triskle ERA o ciclo em si, e não o que significava. Isso é muito complexo para nossa sucateada mente-analítica-que-mente-e-nem-sente, porque, muitas vezes, insistimos nas representações e não as experienciações da vida celebrada em magia. Esse é o pulo-do-gato na bruxaria: inserir-se no mundo dos Deuses, Deusas e Natureza e vivenciá-lo, não apenas tentando encontrar significados e simbolismos, porque isso é racional, e não intuitivo!

Para os celtas, a vida era fluxo perpétuo de vida-morte-vida e, como tal, não poderia ser entendida, sentida ou experiencida como etapas estanques (e, para nós, cronológicas): horas, minutos, segundos, dias, meses e anos, tomados, um a um, retiram a compreensão poética de infinito!

O triskle está presente em tudo: é o TODO. Os ciclos, as lunações, os corpos, o humano. Na mitologia celta, um detalhe interessante: o três está represente nas peregrinações, como um caminho que marca a ida, o rito de passagem e o retorno. Pedro May fala até em enfrentamento mágico por três vezes[8], ou, ainda, realização de três atos mágicos, expressando a importância de conexão com o Universo trino!

Trazendo ao coração poesia, mito, trindade, heroísmos, epopéias mágicas, Deusas e Deuses, buscamos as referências no Mabinogion, que traz quatro ramos das históricas das invasões ao Eire. Dana é disputada, a cada ciclo, por um povo diferente: fomorianos, tuatha, milesianos[9]. Há notícia, porém, de um livro mais completo, denominado Leabhar Gábala Éireann, que traz notícia de seis invasões: CESAIR, PARTHLOLONIANOS, NEMED, FÍR BOLG, TUAHTA, MILESINAOS. Quer seja uma, ou outra fonte, não importa: a poesia reina sempre no mito. Vamos lá?

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtíbero.

Sagrados Segredos da Terra:
http://www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com

E-mail:
adlvmiranda@yahoo.com.br

Para ler os artigos de Audrey Donelle Errin, clique aqui.


[1] BIERLEIN, J. F. Mitos Paralelos. Trad. Pedro Ribeiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.
[2] Lembrando que não existe um foco celta, mas, antes, vários focos, representando vários troncos familiares, pois os celtas mantinham a diversidade política, não se unificando em termos de governo e chefia de clã. Importante frisar que nem toda expressão étnica da Espanha é ibérica, por conta das correntes migratórias vindas de outros pontos, a exemplo dos milesianos, mouros, castelhanos, galegos, catalães e bascos.
[3] A palavra celtíbero ou celtibero foi uma nomenclatura utilizada pelo romano, ao se deparar com a diversidade da cultura celta, disposta em clãs distintos.
[4] Indiscutivelmente o Império Romano exerceu influência na tradição cultural de montagem de todo um sistema de crenças e religiosidade. Num primeiro momento, pela expressão politeísta, com a predominância do apelo à humanização dos deuses, temperamentais, impetuosos e suscetíveis aos apelos emocionais. Num segundo, ante a derrocada do paganismo, com a progressiva inserção da cultura judaico-cristã, por meio da conversão de Constantino I.
[5] Trad. Maria Elisabete F. Abreu. São Paulo: Editora Angra, 2002.
[6] Ou seja, na essência.
[7] Aliás, nem seria o momento adequado para falarmos sobre “gênero”, porque poderíamos cair no anacronismo (olhar o passado com a referência do presente naquele projetado) pernicioso. Vamos voltar à poesia!
[8] Obra já citada (não gosto de “op. cit”, muito romanismo!!!), p. 19).
[9] O Povo de Mil é originário da Espanha, tendo subjugado os Filhos de Dana e os alojado nos subterrâneos da Irlanda.
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