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A Soberania de Macha e o resgate do feminino

Enviado em 24/01/2009 (4877 leituras)

Comearei minha vivncia de 2009 compartilhando um pequeno segredo. Talvez vocs possam se identificar com ele, ou no. Quem sabe? Afinal, num mundo repleto de possibilidades, um caminho sempre uma opo, a escolha que, eliminando temporariamente as demais, sela uma trajetria sem esgotar a integralidade da vida. Eis um princpio bsico para alguns da movimentao quntica do Universo cambiante: a liberdade no achar, opinar, sentir e falar...

Pois bem, vamos ao segredo guardado a sete chaves. Quando iniciei os passeios mitolgicos na sacralidade celta, a histria de Macha no despertou em mim ao menos naquele momento, h mais de dez anos a contundente ateno uterina com que hoje vivencio a lio de Soberania fortemente presente no arqutipo e no mito da Deusa-cavalo.

Tempos atrs, eu estava mais focada no estudo do elemento fogo predominante nas egrgoras de Brighit e Cerridwen, deusas relacionadas - direta ou indiretamente - ao hermetismo presente naquele elemento. Julgava - erroneamente - que a Soberania era um atributo intrinsecamente presente em mim, sem que pudesse ou devesse fazer algum esforo para sua percepo e manifestao. Afinal, j me considerava Soberana pelo simples fato de ter nascido mulher, acreditando, com todas as minhas foras, que isso poderia ser o bastante para manter intacta a f no Sagrado que habitava em mim.

Hoje sinto que existe uma diferena enorme e substancial entre conhecer um caminho e percorrer um caminho, assim como existe um abismo entre reconhecer a Soberania intrnseca e vivenciar essa energia em cada momento de nossas existncias nesse plano dimensional.

Sem medo ou constrangimento em falar o que sinto, posso afirmar ter construdo em minha volta quela poca - uma grandiosa torre de marfim, erguida por blocos de ignorncia que foram cuidadosamente amalgamados no cimento da arrogncia com a qual menosprezei e negligenciei a verdadeira vivncia da Soberania. Contentei-me apenas com a superfcie do discurso de plenitude, sem mergulhar nas profundezas da minha essncia divinal, local de onde flui a chama da autodeterminao.

Minha vivncia, nessa confuso toda, estava sedimentada nas razes erradas, pois experienciava essa arrogncia no lugar de uma Soberania na qual julgava acreditar, apesar de, no fundo, no sentir um s filete de seu poder... E, dentro disso, um padro bem curioso: quanto mais me mostrava como firme, forte, poderosa e plena (o mantra pessoal que aprecio compartilhar com minhas irms na bruxaria e na vida), mais sofria uma sndrome do no-ser firme, forte, poderosa ou plena.

Quedava frgil e vulnervel ao menor sinal de tempestade no horizonte dos caminhos que escolhia! Alis, as escolhas eram, em si, a concretizao do puro sofrimento, pois se baseavam na falsa sensao de poder, que encobria a total e completa ignorncia aos anseios da minha alma!

Foi curiosamente num dos ltimos relacionamentos que isso tudo veio tona, como acontece num daqueles antigos filmes que se desvencilham de seus rolos para as brancas telas de pano. Enquanto contava para um namorado totalmente desinteressado a histria de Macha, senti em cada palavra uma nova realidade se esquadrinhando bem diante dos olhos, materializada nos vocbulos que ardiam em minha garganta.

Os chackras cardaco e larngeo[1] - bastante aquecidos pela transmutao do ar no fogo avassalador codificado em fonemas - apontavam contundentemente o que eu recusava enxergar: no fundo de minha alma, no reconhecia em mim a Soberania de Macha e, por no enxerg-la, passei a acreditar que dela estava plena, tentando me convencer que isso j seria o bastante para me fortalecer! Tentei me convencer que no precisava fit-la, observ-la, vivenci-la! Como os cientistas gostam de dizer, eu no precisava focar a Soberania porque ela era pressuposto de estudo ou, ainda, dado apriorstico[2]. Hahahaha...

Como se isso j no fosse o bastante, comecei a prestar ateno no semblante do moo, que se desfazia na mescla de espanto, raiva, curiosidade, mas, acima de tudo, desrespeito. Sim, o desrespeito selou definitivamente minha compreenso em relao ao engano com que at ento seguia, errante, na busca dos segredos hermticos do elemento fogo.

No poderia acessar conhecimento externo algum sobre o fogo (nem de uma receita de ovo frito) se, no fundo da alma, no sabia quem eu era. Pior, se no tinha a menor conscincia dos processos internos de auto-engano com os quais construa meu caminho at aquele derradeiro momento. Percebi ali que precisava alm de terminar o relacionamento, claro - retornar ao mais profundo lugar abscndito na imensido da essncia, vivenciar o sentido da Soberania da Deusa-cavalo, para, depois, seguir adiante na trilha do conhecimento.

Depois dessa experincia, passei a perceber e sentir a egrgora de Macha de outra maneira. Hoje compreendo na bela e sofrida histria da Deusa um verdadeiro convite reflexo sobre a manifestao do Sagrado Feminino em nossa essncia, bem como sobre a materializao disso, quando relacionamos com algum.

No se trata, contudo, de vivenciar o sagrado para o relacionamento com outro: esse o auto-engano, o elemento sabotador dentro de ns e que precisa ser conhecido, compreendido e administrado. A vivncia a que me refiro diz respeito ao sagrado enquanto elemento integrante de nossa essncia, expresso verdadeira da nossa alma, independentemente de nos relacionarmos ou no com outra pessoa.

O foco da egrgora de Macha no advm da construo do relacionamento ou do posicionamento do eu na relao, mas, antes, surge do movimento oposto: da compreenso do eu e da Soberania nele contida para, a partir da, o mundo ser construdo segundo a expresso de tal poder. Foi a partir dessa compreenso que meu mundo adquiriu nova dimenso... Eis o que descobri graas a Macha, minha deusa-madrinha.

A Soberania o elemento-chave da essncia de Macha. Como deusa protetora dos cavalos, rene em seu aspecto antropomrfico o simbolismo representativo da principal caracterstica eqina: a liberdade transcendida a cada momento em que o animal melodiosamente flui no trote macio da pradaria do viver.

As quatro patas em contato com a relva nos lembram a fixao estvel no elemento terra, a partir dos pontos dispostos num perfeito quadriltero, geometria sagrada anmica que revela a pureza em estado bruto daquele animal.

Ao mesmo tempo em que a terra e a matria so marcas de maior visibilidade no cavalo alm da sexualidade a ela relacionada no aspecto mais ancestral nunca demais lembrar a transmutao fortemente presente, pois a busca pela liberdade do esprito traz a velocidade presente no deslocamento e, portanto, os domnios do elemento ar. Alis, que outro elemento nos lembraria o igualitarismo presente no ar? Afinal, ele expande, tende a ocupar todo o espao ao seu redor, ampliando sua zona de alcance sem qualquer outra condio que no seja o fluir.

Sem deixar de mencionar a intemperana do elemento fogo, resultado direto do aquecimento produzido pela transformao da energia cintica em trmica ou, para sermos mais poticas, transmutando, a todo tempo, a juno terra-ar para o af do fogo que alimenta o esprito: eis a sntese da perfeio eqina, em sua forma mais bruta! Todos esses elementos formam, portanto, a partir da sacralidade do cavalo, o substrato do mito em Macha.

Toda essa energia imanente da Soberania de Macha percebida, de imediato, pelo simples fato de Crunniuc no ousar questionar a identidade da mulher que adentra seu lar. O silncio a marca devocional que traz ao vivo a certeza de estar ali com uma deusa, pois Crunniuc a observa, extasiado, entrar na casa, arrumar o local, preparar um jantar e, ao final, lev-lo at o quarto, para selar o encontro sagrado, algo que, para aquela cultura, era cercado de seriedade e ritualismo[3].

Macha no revela ao vivo sua identidade, assim como por Crunniuc sequer questionada em relao aos seus intentos: eis a primeira percepo sobre a Soberania, manifestada na autodeterminao presente na construo de uma subjetividade dedica na cultura e mitologia celta.

A Deusa-cavalo soberana pelo simples fato de exprimir sua deidade sem a menor submisso a outro ser, pois, realiza suas vontades sem obstculos ou limites. Ela no se esquece, porm, da mortandade, porque o respeito de Crunniuc quela figura etrea catalisa a energia de Macha, que gera, com seu calor, tudo aquilo que estava faltando no lar do vivo: lavoura, gado, lar.

Outro aspecto interessante em relao expresso de plenitude diz respeito ao silncio: Macha no revela, em momento algum de sua convivncia com Crunniuc, sua identidade. Chega do horizonte morada dos deuses e limiar entre-mundos de maneira avassaladora e exuberante e se estabelece adentrando a morada de Crunniuc: para ele, pouco importava a origem daquele formosa mulher porque passou a sentir-se, com ela, mais completo.

Alis, Deusa apenas se revela ao final, quando, humilhada pelo squito de Conchobar, rompe o ciclo de convivncia com a mortandade. A partir daquele momento, Macha no mais estaria presente entre os homens: o pano de fundo, aqui, refere-se apropriao da soberania. Como condicionar ou compartimentar a plenitude do ser? A partir do momento que a verdade revelada, fatalmente viria tona a cupidez e a ganncia humana em relao usurpao da Soberania, uma possibilidade que no poderia ser suportada pela deusa[4].

Outro detalhe peculiar presente na mitologia celta (como em quase todas as historiografias que se sedimentam na polarizao de princpios): o princpio feminino criador, porm, dissociado do sentido de construo social de um papel supostamente atribudo mulher em vrios nveis: os assuntos domsticos, coisificao, reificao, docilizao[5], etc.

A criao soberana do elemento fogo transmutado est presente no mito tanto na fecundidade que cerca o cavalo, como expresso libertria do ser errante, que, ao mesmo tempo em que se encontra aterrado, transcende a estagnao e alcana vos nas pradarias da cadncia da vida.

A Soberania, assim, no se vincula a um status inflexvel, baseado em fragilizao e vulnerabilidade da mulher, mas, antes, a um estado livre de ser, na plenitude de nossa expresso como Deusas. Limpar a casa e dar comida aos bois nada tem de opresso, porque, dentro da estrutura celta, o matriarcado revela a primazia da atividade criativa ao princpio feminino (e no necessariamente mulher: eis a distino entre sexo e gnero).

Detalhe: Macha, tal qual Morrighu, apresentada por muitos historiadores, estudiosos e pesquisadores (sim, homens) como detentora de um apetite sexual voraz, em contraponto concepo judaico-crist de castidade (que sempre embala o pensamento, ainda que inconscientemente)... Essa percepo, apesar de bastante misgina (se for atribudo um sentido de diferenciao de papis sexuais a homens e mulheres) compreensvel ante o movimento histrico de desrespeito, reificao e coisificao do feminino na mulher: da o resgate da valiosa compreenso de soberania com que vivencio meus ciclos sagrados.

Por que reduzir a beleza do mito a uma questo de voracidade separatista, que segrega o chamado mundano do que existe de mais etreo alm-mundo? O que definido como voracidade em termos de expresso de sexualidade? Entendo que atribuir um mero juzo de voracidade retira o que existe de mais belo na histria das mulheres e deusas celtas: a sexualidade como concretizao, no plano fsico, do encontro pleno de almas que se realizam na livre expresso de sua essncia.

A livre expresso contida na essncia primordial da sexualidade celta ingrediente incomum em qualquer outra referncia mitolgica que forma o tronco indo-europeu romano-germnico do qual fazemos parte. Encontramos esse ingrediente em Macha, Morrighu e Maeve, deusas- rainhas plenas em si e, dentro disso, em suas expresses de sexualidade. Nunca demais lembrar que Morrighu, inclusive, veio a ter com Dagda em pleno rio, prometendo-lhe, dali, a vitria em batalha.

Mais interessante ainda vincular tal expresso de plenitude prosperidade que cerca a casa e a vida de Crunniuc, pois, com Macha satisfeita, a fecundidade no lar de Crunniuc retorna. A lavoura representativo da fartura - restabelecida: o gado volta a se reproduzir; a casa, ambiente mais importante para o celta corao de sua alma e centro irradiador do conforto e da segurana - volta a reluzir, saindo da escurido.

Enquanto ambos esto em sintonia em suas expresses de polaridade e complementaridade de princpios, tudo harmnico no local. Um elemento desestabilizador, contudo, ameaa aquela paz: a festividade de um rei que, no auge de sua egolatria, no somente duvida de Crunniuc, como, tambm expe Macha em um momento to sublime e soberano, como o caso do parto iminente.

Em certa medida, mesmo sem saber, o egosta Conchobar indispe-se com a prpria deusa, apregoando que seus cavalos so mais velozes: a comparao, pois, estabelecida por um rei (mortal, homem) em relao Deusa-cavalo, Senhora de todos os eqinos e detentora da supremacia em relao a eles.

Macha, ainda na sabedoria que lhe peculiar (e que no faz parte, como muitos acham, de um rol de atributos masculinos, como se sabedoria estivesse relacionada primazia do princpio masculino, da razo e da lgica), ainda tenta argumentar com o rei, chamando a ateno para seu estado, com a finalidade de evitar o inevitvel: o fim do ciclo de convivncia com os homens.

Assim, mesmo sendo uma deusa, prostra-se diante do rei com humildade, pedindo clemncia. Ela tenta evitar exploso de sua deidade e a revelao da identidade, malogrando xito, pois o beberro monarca, indiferente ao apelo e escarnecendo de Macha e de seu ventre proeminente, ameaa matar Crunniuc se a mulher no correr contra os cavalos.

No existe corrida. impossvel aos subservientes eqinos afrontar a deusa que lhes amadrinha. Logo, logo, Macha lana-se frente, no tendo a menor dificuldade em chegar ao final da corrida como vencedora. Sela, ali, o fim de seu matrimnio com Crunniuc, que traiu a confiana depositada por Macha.

Em virtude do egosmo, da vaidade e da traio dos homens, a Deusa sente as dores do parto intensificadas em funo do que sofrera, pois a conduta imatura e desrespeitosa do rei Conchobar maximizou a dor que a deusa poderia sentir.

A linha de chegada sela o urro de dor e a propalao da maldio direcionada aos homens do Ulster. O simbolismo do nmero nove aqui aparece, quando a Deusa afirma que nove geraes de guerreiros sentiriam, doravante, a latente dor que ela sentira naquele momento. O fim da era de convvio entre Deusa e homens foi marcada pelo concomitante fim da prosperidade para Crunniuc e para os homens de Conchobar.

Com os gmeos no colo e partindo para os Sidhes, Macha exige o que sua herana terrestre: diante do sop dos montes da linha de chegada, nomina os cumes main Macha, ou seja, os gmeos de Macha, enaltecendo sua deidade e lembrando aos mortais das conseqncias de se desrespeitar a soberania do feminino dedico.

Referncias bibliogrficas:

CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. So Paulo: Editora Palas Athena, 1990.
CURTIN, Jeremiah. Myths and folks tales of Ireland. New York: Dover Publications, 1975.
GUEST, Lady Charlotte (translation). The Mabinogion. New York: Dover Publications, 1975.
MACKILLOP, Lames. Myths and Legends of the celts. New York: Penguin Books, 2005.
May, Pedro Pablo. Os mitos celtas. Trad. de Maria Elisabete F. Abreu. So Paulo: Editora Angra, 2002.
NOGUEIRA, Carlos. Bruxaria e histria. Bauru: EDUSC, 2004.
ROBLES, Martha. Mulheres, mitos e deusas: o feminino atravs dos tempos. Trad. William Lagos. So Paulo: Aleph, 2006.
ROCHA, Everardo P. Guimares. O que Mito. So Paulo: Brasiliense, 2006.
QUINTINO, Claudio Crow. O livro da mitologia celta: vivenciando os Deuses e as Deusas Ancestrais. So Paulo: Hi-Brasil, 2002.
SQUIRE, Charles. Mitos e lendas celtas. TRad. Gilson Soares. Rio de Janeiro, 2003.
VARANDAS, Anglica. Mitos e lendas celtas na Irlanda. Lisboa: Grfica Europam, 2006.

Por Audrey Donelle Errin
Pesquisadora do Sagrado Feminino, dentro do foco celtbero.

Citao:
"Conectada aos mistrios da ancestralidade da terra."
Sagrados Segredos da Terra
www.sagradosegredosdaterra.blogspot.com.br

Para ler os artigos de Audrey Donelle Errin, clique aqui.


[1] Impressionante a transmutao do elemento ar para o fogo (segredo!), pois, na medida em que o ar subia para ser espargido, senti a centelha aquecendo o corao, que passou a bombear, com fora, o sangue para o restante do corpo, liberando um sopro aquecido que embalava a entonao do relato de Macha.
[2] Apriorstico, numa referncia bem simples e didtica, tudo que precede a experincia, fazendo parte do domnio da idia. Quem achar interessante pode ir atrs de Kant para entender melhor o danado do juzo a priori (Crtica razo pura e Crtica razo prtica, dois livros que falam sobre isso).
[3] Ritualismo que bem visto na histria da deusa quando Macha d uma volta ao redor da cama, antes de se deitar e ter com Crunniuc.
[4] Alis, o tema no recente, pois na histria de Arthur, Guinevere, a donzela branca, disputada pelo Rei e Lancelote, representando a soberania. Tanto que, quando Arthur se v despojado da rainha seu complemento Camelot jaz em pranto, esterilidade e infecundidade que somente sero aplacadas quando o Santo Graal (ventre da deusa cristianizada) voltar ao reino.
[5] Basta observar Morrighu que, longe de representar um arqutipo docilizado, Deusa de Guerra.
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